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Aprendendo a igualdade - Escola de iguais

22.06.2010
 
Pages: 12
Aprendendo a igualdade - Escola de iguais

Aline Durães

‘Menino não chora’. ‘Menina deve se comportar’. ‘Menino usa azul’. ‘Menina veste rosa’. ‘Menino joga futebol’. ‘Menina faz balé’. Quem nunca ouviu frases como essas? Apesar de parecerem ingênuas, elas refletem estereótipos que ajudam a reforçar os papéis sociais de homens e mulheres e corroboram as desigualdades de gênero.

Pensamentos como os citados acima são considerados, na maior parte das vezes, naturais. Mas, quando analisados com um olhar mais apurado, percebe-se que são construídos socialmente em instituições importantes na formação do indivíduo. A escola é uma delas.

É na escola que, desde cedo, meninos e meninas apreendem seu lugar no mundo e recebem tratamentos diferenciados em função de seu sexo. “Uma educação sexista é aquela que referenda classificações de gênero durante as práticas educativas. A escola que segrega estudantes tendo por base as representações sobre seus sexos biológicos é uma escola sexista”, explica Rodrigo Rosistolato, professor da Faculdade de Educação (FE) da UFRJ.

Com o objetivo de promover uma formação mais igualitária, foi criado o Dia Internacional da Educação Não-sexista. Comemorada em 21 de junho, a data foi instituída pela primeira vez, em 1990, durante o Encontro de Mulheres do Cone Sul, no Paraguai. Em 1999, a Assembléia Legislativa da República de El Salvador reconheceu a comemoração e iniciou uma campanha, encampada posteriormente por diversos países da América Latina, inclusive o Brasil, para reduzir o sexismo no currículo escolar e nas práticas docentes.

O dia-a-dia da segregação

Exemplos de como a escola promove as desigualdades de gênero não faltam. Uma brincadeira na creche ou a prática de uma determinada disciplina no Ensino Fundamental podem encobrir o sexismo. “Na escola, existe uma forma de socialização particular na qual as crianças de ambos os sexos são dirigidas a realizar tarefas específicas para cada gênero. No caso do esporte ou da disciplina de educação física, os meninos são estimulados a desempenhar atividades relacionadas à força e à virilidade, como por exemplo as atividades de luta e a prática do futebol; já as meninas são orientadas aos afazeres relacionados a idéia de suavidade e de feminilidade, como a ginástica artística e o balé”, observa Mani Tebet, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ.

Aos 6 anos de idade, Sarah de Roure, integrante da ONG SempreViva Organização Feminista (SOF) e da Marcha Mundial das Mulheres, ainda não conhecia as bandeiras do Feminismo e tampouco entendia o que era desigualdade de gênero, mas já sabia o que, como menina, podia ou não fazer na escola. “A instituição me dizia que tinha coisas que eram para mim e outras que não. A divisão do que levar nas festas do colégio, por exemplo. Meninas levavam doces e salgados; meninos eram responsáveis pelas bebidas. Por que mesmo? Pretensamente porque os homens têm dinheiro para pagar por coisas e as mulheres possuem a ‘habilidade’ para cozinhar. Mas quando você tem 6, 7 ou 8 anos, isso não é verdade. É algo que está sendo ensinado. O sexismo está presente até mesmo no estimulo diferenciado oferecido por professores a meninos e meninas em cada disciplina. Há uma expectativa que eles se saiam bem em matérias como Matemática ou Física, em função de uma suposta racionalidade inerente ao caráter masculino, em contraposição à sensibilidade feminina que faz que as meninas sejam mais cobradas em Português e Redação”, avalia.

Posturas como essas encobrem também certo despreparo dos profissionais de Educação em romper com pensamentos pré-estabelecidos e em propor mudanças. O docente Rodrigo Rosistolato conta que, durante a pesquisa de campo para sua tese de Doutorado, conversou com professores que admitiram ter dificuldades para sugerir discussões acerca da divisão sexual do trabalho, por exemplo. “Eles percebiam que os estudantes ainda eram orientados por idéias referentes à impossibilidade de homens realizarem tarefas socialmente classificadas como femininas e mulheres realizarem trabalhos socialmente classificados como masculinos. Os profissionais também identificavam as mesmas dificuldades entre alguns de seus colegas quando, por exemplo, separavam os estudantes por sexo durante atividades lúdicas. A ideia de que meninos não podem brincar com bonecas ou meninas não podem jogar futebol ainda orienta o trabalho de alguns professores. Essas idéias fazem parte de um conjunto de classificações de gênero que estabelecem os lugares que podem ser ocupados pelas pessoas de acordo com seu sexo biológico. São representações que orientam ações e reproduzem clássicas divisões sociais”, enfatiza Rodrigo.

A mea culpa da família, da igreja e do Estado

A escola não é a única instituição que reproduz as diferenciações de gênero. Na maior parte dos casos, é em casa que as crianças são confrontadas, pela primeira vez, com permissões e proibições pautadas em seu sexo. É na família que a menina é socializada com as tarefas domésticas e o menino com brinquedos eletrônicos ligados à força e à violência, como espadas, armas e videogames.

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