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Como eles se tornaram multimilionários

22.05.2007
 
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3. Durante a terceira fase (a actualidade) os multimilionários consolidaram e ampliaram os seus impérios por meio de fusões, aquisições, mais privatizações, e expandindo as suas acções no estrangeiro. Os monopólios privados dos telefones móveis, telecomunicações e outras empresas de serviços públicos (utilities), juntamente com os altos preços das commodities, acrescentaram milhares de milhões de dólares às suas concentrações iniciais de riqueza. Alguns milionários tornaram-se multimilionários vendendo as suas recentes aquisições, empresas privadas lucrativas, ao capital estrangeiro.

Tanto na América Latina como na Rússia a apropriação dos activos estatais lucrativos deu-se sob a égide de regimes neoliberais ortodoxos (os regimes de Salinas-Zedillo no México, de Collor-Cardoso no Brasil e de Yeltsin na Rússia) e a consolidação e expansão verificou-se com governos de regimes supostamente "reformistas" (Putin na Rússia, Lula no Brasil e Fox no México). No resto da América Latina (no Chile, na Colômbia e na Argentina) a criação de multimilionários foi o resultado de sangrentos golpes de estado e de regimes militares que destruíram movimentos sócio-políticos, e iniciaram os processos de privatização. Os subsequentes regimes eleitorais de direita e de "centro-esquerda" promoveram de forma ainda mais enérgica este processo.

Ficou repetidamente demonstrado, tanto na Rússia como na América Latina, que o factor chave que levou ao enorme salto de riqueza – de milionários para multimilionários – foi a vasta privatização e a subsequente desnacionalização de empresas públicas lucrativas.

Se acrescentarmos à concentração dos US$ 157 mil milhões nas mãos de uma infinitésima fracção da elite, os US$ 990 mil milhões obtidos pelos bancos estrangeiros com os pagamentos de divida, e ainda o milhão de milhões de dólares (10 12 ) conseguidos por via de lucros, de direitos de exploração e rendas, da lavagem de dinheiro, tudo durante a ultima década e meia, ficamos então com uma base que permite perceber o motivo que leva a América Latina a continuar a ter mais de dois terços da sua população com condições de vida inadequadas e economias em estagnação.

A responsabilidade dos EUA no aumento de multimilionários na América Latina e da pobreza generalizada nesse continente tem vários aspectos e implica uma ampla gama de instituições políticas, elites empresariais, académicos e magnatas do meios de comunicação. Em primeiro lugar, é o aspecto mais importante, os EUA apoiaram os ditadores militares e os políticos neoliberais que implementaram os modelos económicos orientados para os interesses dos multimilionários. O ex-presidente Clinton, a CIA e os seus conselheiros, aliados aos oligarcas russos, foram quem forneceu o serviço de informação político e o apoio material para colocar Yeltsin no poder, e apoiar a destruição do parlamento russo (Duma) em 1993, e posteriormente levar às eleições manipuladas de 1996. Foi Washington que permitiu o branqueamento de centenas de milhares de milhões de dólares em bancos norte-americanos durante os anos noventa, tal como foi revelado em 1998 pela subcomissão para os assuntos bancários do Senado dos EUA.

Foram Nixon, Kissinger e, mais tarde, Carter e Brzezinski, Reagan e Bush, Clinton e Albright que apoiaram as privatizações impulsionadas pelos ditadores militares latino-americanos e reaccionários civis nos anos setenta, oitenta e noventa. As instruções que deram aos representantes do FMI e do Banco Mundial foram claras: privatizar, desregular e desnacionalizar (PDD) antes de negociar qualquer empréstimo.

Foram os académicos e os ideólogos norte-americanos que trabalharam lado a lado com as chamadas agencias multilaterais, como consultores económicos contratados, e que projectaram e impulsionaram a agenda PDD, e instruíram os seus ex-alunos da Ivy League, entretanto convertidos em ministros da economia e das finanças, e em banqueiros dos bancos centrais da América Latina e da Rússia.

Foram as corporações multinacionais e os bancos dos EUA e da União Europeia que compraram empresas ou entraram em empreendimentos conjuntos (joint ventures) com os emergentes multimilionários latino-americanos, e que arrecadaram o trilião dólares (10 12 ) de pagamentos da dívida contraída pelos corruptos regimes militares e civis. Os multimilionários são tanto o produto e/ou subproduto de políticas americanas anti-nacionalistas e anti-comunistas, como um produto do seu próprio roubo descomunal de empresas públicas.

Conclusão

Dadas as enormes disparidades de classe e de rendimento que se verificam na Rússia, na América Latina e na China (20 multimilionários chineses tiveram um património líquido de 29,4 mil milhões de dólares em menos de dez anos), é mais exacto descrever estes países como os "multimilionários emergentes" ao invés de "mercados emergentes" pois o determinante não é o "livre mercado" e sim o poder político dos multimilionários.

Os países de "multimilionários emergentes" produzem uma pobreza crescente, reduzindo os níveis de vida das populações. Criar multimilionários significa desmontar a sociedade civil, isto é, enfraquecer progressivamente a solidariedade social, a protecção social, a legislação social protectora, as reformas, as férias, os programas de saúde pública e educacionais. Considerando que a política é central, verifica-se no entanto que as etiquetas políticas do passado já não significam coisa nenhuma. No Brasil, o ex-marxista e ex-presidente Cardoso, e o ex-dirigente sindical e actual presidente Lula da Silva, privatizaram empresas públicas e promoveram políticas que geraram multimilionários. Putin, ex-comunista cultiva o relacionamento com certos oligarcas multimilionários e oferece incentivos a outros para se ajustarem e investirem.

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