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Como eles se tornaram multimilionários

22.05.2007
 
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A ascensão dos multimilionários da América Latina coincide com a queda real dos salários mínimos, dos gastos públicos nos serviços sociais, da legislação laboral, e com o aumento da repressão estatal, enfraquecendo as organizações dos trabalhadores e dos camponeses, e as negociações colectivas. A implementação de impostos regressivos que sobrecarregam os trabalhadores e os camponeses, e as isenções fiscais e subsídios para os exportadores de produtos agrícolas e de matérias-primas, contribuíram para a criação de multimilionários.

O resultado disso foi a diminuição da mobilidade dos funcionários públicos e dos trabalhadores, o deslocamento do trabalho urbano para o sector informal, a bancarrota generalizada dos pequenos agricultores, camponeses e do trabalho rural, e consequentemente, a imigração do campo para os subúrbios urbanos, e a emigração para o estrangeiro.

América Latina

A principal causa da pobreza na América Latina são as próprias condições que facilitaram o crescimento dos multimilionários. No México, a privatização do sector das telecomunicações a preços baixíssimos, resultou em quadruplicar a riqueza de Carlos Slim Helu, o terceiro homem mais rico do mundo (só atrás de Bill Gates e de Warren Buffet) com um património líquido de 49 mil milhões de dólares. Dois multimilionários mexicanos da mesma categoria, Alfredo Harp Helu e Roberto Hernandez Ramirez, beneficiaram da privatização dos bancos e da sua subsequente desnacionalização ao vender o Banamex ao Citicorp.

A privatização, a desregulação financeira e a desnacionalização foram os princípios operativos chave da política económica externa norte-americana implementada na América Latina pelos FMI e Banco Mundial. Estes princípios determinaram as condições fundamentais de negociação dos créditos e das renegociações de dívidas para os países da América Latina.

Os multimilionários-em-construção velho e do novo dinheiro velho. Alguns começaram a acumular as suas fortunas obtendo contratos governamentais durante o modelo de desenvolvimento dirigido pelo estado (dos anos 30 aos 70), e outros através de riqueza herdada. Metade dos multimilionários mexicanos herdou as suas fortunas multi-milionárias originais no seu trajecto para o topo. A outra metade beneficiou de relações políticas e do consequente grande suborno na compra de empresas públicas bartas para a seguir revendê-las a multinacionais americanas com grande lucro. A imensa maioria dos 12 milhões dos emigrantes mexicanos que cruzaram a fronteira para os EUA fugiram de condições de vida onerosas, as quais permitiram aos multimilionários tradicionais e novos do México entrar no clube dos multimilionários globais.

O Brasil tem o maior número de multimilionários (20) dos países da América Latina com uma riqueza líquida 46,2 mil milhões de dólares, que é superior à actual riqueza dos 80 milhões dos empobrecidos brasileiros urbanos e camponeses. Cerca de 40% dos brasileiros multimilionários começaram com grandes fortunas às quais foram acrescentando mais valor por meio de aquisições e fusões. Os chamados multimilionários "feitos por si próprios" beneficiaram das lucrativas privatizações do sector financeiro (a família Safra com 8,9 mil milhões de dólares) e de complexos do ferro e do aço.

Como se tornar um supermilionário

Se bem que algum conhecimento técnico, "qualificações empresariais" e tacto para o mercado tenham tido um certo peso na criação dos multimilionários na Rússia e na América Latina, muito mais importante foi a interface política e económica em todas as etapas da acumulação de riqueza.

De uma forma geral verificam-se três etapas:

1. Durante o primitivo modelo 'estatista' de desenvolvimento os actuais multimilionários "pressionavam" e subornavam com êxito os funcionários governamentais para a obtenção de contratos, isenções tributárias, subsídios e protecção da concorrência estrangeira. Estas dádivas do Estado foram o ponto de partida para a obtenção do estatuto de multimilionários durante a subsequente fase neoliberal.

2. O período neoliberal proporcionou as maiores oportunidades para a obtenção de lucrativos activos públicos muito abaixo do valor de mercado e da sua capacidade de rendimento. As privatizações, embora descritas como "transacções de mercado", na realidade foram vendas políticas em quatro sentidos: pelo preço; pela selecção dos compradores; pelo suborno dos vendedores; e pela promoção de uma agenda ideológica. A acumulação de riqueza resultou da venda ao desbarato de bancos, empresas mineiras, recursos energéticos, telecomunicações, centrais eléctricas e transportes, bem como pela assumpção por parte do Estado de dívidas privadas. Isto foi o ponto de partida dos multimilionários para o estatuto de multimilionários. Na América Latina isto foi conseguido pela via da corrupção e na Rússia pela via dos assassinatos e das guerras de gangs.

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