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'Transnacionais saqueiam a riqueza do povo mexicano', denuncia padre de Chiapas

22.04.2015
 
'Transnacionais saqueiam a riqueza do povo mexicano', denuncia padre de Chiapas. 22041.jpeg

Marcelo Pérez, padre da paróquia de San Andrés de Padua, em Simojovel, se converteu em um ator social importante no Estado Chiapas. Sacerdote tzotzil, seguidor de uma Teologia o Povo, leva anos denunciando os abusos e a violência em seu município. Líder espiritual e social, tem organizado uma igreja que defende os pobres e empreendido com eles uma cruzada que, hoje, põe em xeque os caciques locais e os grandes interesses que rondam uma região pobre e degradada socialmente.

Adital

Por Renzo D'Alessandro

Sua denúncia tem lhe custado várias ameaças e um ultimato de morte. O padre Marcelo é uma personagem incômoda em uma entidade marcada pela usurpação, indiferente ao paramilitarismo e ao militarismo. Longe da passividade que tem caracterizado, nos últimos anos, a Diocese, organizou seis peregrinações pacíficas para expor, publicamente, o rechaço aos narcopolíticos e à reforma energética. 

Promotor e organizador de uma peregrinação, de 23 a 26 de março - da qual participaram cerca de 12 mil fiéis, de mais de 20 paróquias - de Simojovel a Tuxtla Gutiérrez, o padre Marcelo tenta comprometer o governo de Velasco Coello para que o Estado se comprometa a limpar Simojovel da corrupção e da delinquência organizada, infiltrada na política. 

Seu objetivo é evitar outro Acteal [massacre ocorrido em 22 de dezembro de 1997, consistiu na chacina de 45 indígenas tzotziles, que se encontravam rezando numa igreja, na localidade de Acteal, Estado mexicano de Chiapas] ou um derramamento de sangue como o de Ayotzinapa [massacre ocorrido em 26 de setembro de 2014, quando 43 alunos da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, de Ayotzinapa, desapareceram na cidade de Iguala, Estado Guerrero]. 

Tenho escutado que os peregrinos se referem a você como um profeta. Um grupo musical até compôs uma canção. Você é um profeta do seu povo?

Padre Marcelo - Em mesmo não posso dizer, é o povo que expressa sua esperança. Eu o que faço é simplesmente acompanhar as pessoas. O profeta não é o que fala muito, mas o que as pessoas sentem próximo e está com eles, é seu pastor, seu sacerdote e, pois, assim vamos caminhando com o que podemos fazer. Ao final, somos humanos e limitados, temos nossos defeitos, mas vamos caminhando com as pessoas, com muito carinho. 

Ser profeta implica ter contacto direto com Deus, você fala com Deus?

PM - Eu creio que todo mundo fala com Deus. Mais bem o que considero é que vemos a realidade, vemos a situação e Deus nos fala mediante essa realidade. Aí onde há sofrimento, Deus está gritando para nós. Hoje, recordamos o sofrimento de Jesus na cruz e as agressões que sofreu. Essas são as agressões que sofre o povo. O novo Jesus é o povo, para mim, é o povo que está sofrendo. Para mim, é isso, quando alguém é sensível às suas dores e seus sofrimentos se sente acompanhado. Falamos com o povo, falamos com as pessoas, que sofrem, mas também falamos com Deus e falamos sobre o que sentem as pessoas. 

Como a sua Via Crucis se articula com outras propostas pacíficas, como a da sexta Declaração da Selva Lacandona?

PM - Eu creio que nenhuma pessoa deseja pegar em armas, somente quando já não resta uma saída. O Exército Zapatista não optou pelas armas, mas pela via política. Agora, eu, na minha convicção, como sacerdote estou muito convencido de que o caminho é a via pacífica e que, em nenhum momento, penso nem alento a via armada. Precisamente, não aceito guarda costas porque tomar as armas é matar.

Na minha convicção, é preciso defender a vida. Seja como for, é preciso defender a vida e são três argumentos que tenho para não aceitar o guarda costas que me quer impor o governo: primeiro, é que, por si só, as autoridades são corruptas, os mesmos policiais são corruptos. Segundo, é que eu não posso presumir ter segurança quando o povo está inseguro, mas o mais importante é um fundamento teológico: um guarda costas tem a faculdade para matar se alguém quiser me agredir. Isso é contra os meus princípios, se para defender minha vida alguém vai matar, pois este não é o caminho. 

Às vezes, penso que se Deus me der a oportunidade de falar com o meu agressor lhe direi: "toma a minha vida se isso vai dar a esperança de que, algum dia, se arrependas e o leve ao caminho de Jesus e estar ao lado do povo". Esta é a minha convicção. A vida de uma pessoa é sagrada, sem importar se é um pecador, um santo ou um agressor, sua vida também é sagrada. Por isso estou convencido de a luta pacífica deve ser dessa maneira, manifestando-se. 

Mas isso sim a palavra é necessário dizê-la sem muitos rodeios e com muita clareza: são mais fortes as palavras do que as balas, porque as palavras chegam aos corações, a palavra dá vida, gera consciência, enquanto as balas assustam, atemorizam, matam. Uma palavra convoca muito, é impressionante a convocatória que tem sido feita e como as pessoas só necessitavam que alguém as convidasse a que "caminhar" e para cá vêm. 

Mas, então, é possível caminhar com o povo e ao mesmo tempo caminhar com o governo?

PM - Eu creio que temos que mediar, mas com uma postura muito clara: estar sempre do lado do povo. Há coisas que nos leva a sermos porta-vozes, mas não sempre. Há momentos em que se tem que romper o diálogo com o governo porque este busca a forma de defender seus interesses. O governo vê seus próprios interesses e não vê os interesses do povo. Quando os interesses do governo não são os do povo, então, não vamos dialogar. 

Creio que, como sacerdote e como igreja, temos que mediar e escutar o povo. Há momentos em que temos que propor junto ao governo e aí reside o grande perigo que corremos, é que nos deixemos manipular pelo governo. Tenho uma experiência muito concreta em uma reunião na província, em Tapachula. Diziam os bispos na assembleia: "não sabemos o que fazer quando há problemas como em Acteal, problemas de terras", e isso me indignou muito, porque tinha muito pouco tempo que havia saído o documento de Aparecida [V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe realizado em Aparecida, Brasil, de 13 a 31 de maio de 2007], que dizia que "a igreja é advogada e defensora dos pobres".

Aqui, o problema é que estejamos vendidos ou que tenhamos medo do governo. Então, sim, creio no diálogo, mas com uma postura clara: no momento em que se veja que o governo trata de manipular a via do povo é preciso retirar-se. Mas se necessita de muita astúcia porque o governo é muito astuto para manipular e para nos cooptar, o fato de que queiram me dar à força um guarda costas é uma forma para me cooptar. E isso não, então, é muito claro que sim queremos dialogar com uma postura muito clara. As pessoas agradecem muito quando alguém tem uma postura e quando informa: "agora, não nos convém dialogar porque o governo tenta manipular e controlar". 

São explícitas as exigências desta Via Crucis (o alto ao alcoolismo, ao vício de drogas, à prostituição), mas quais seriam as causas desse problema?

PM - A raiz de todo esse mal, segundo o que temos refletido, é a corrupção das autoridades. As autoridades são políticos que prostituem a democracia. Uma autoridade que leva a vida do povo e se esta se corrompe, então, se gera um montão de males em todos os aspectos. 

Então, existe narcotráfico e prostituição porque os narcotraficantes mandam no governo, ou é o mesmo governo que é narcotraficante. Nesse aspecto, já não são autoridades, mas se tornam assassinos. Uma autoridade não deve converter-se em assassina, mas sim velar pela vida do povo. No momento em que o governo permite, pelos seus interesses econômicos, que se faça mal ao povo, então quando o governo vira opressor do povo. 

Mas por que corrompem? Porque seu maior interesse é a economia. As reformas que têm feito servem para enriquecer mais aos mais ricos e empobrecer mais aos mais pobres. Quando nos pediram consentimento para aprovar uma lei? Alguém poderia fundamentar que "estamos representados por nossos deputados", mas aí acontece que a eleição também foi tão corrupta pela venda e compra de votos e baseada no poder do dinheiro. Quando alguém chega a ser autoridade com o poder do dinheiro, deixa de funcionar, porque coopta sua autoridade, mas não para cumprir o interesse do povo. 

Quando uma autoridade é corrupta, é capaz de reprimir e matar para defender seus interesses, não estão ao lado dos interesses do povo, mas sim defendem os interesses de uns poucos. Por mais que eles defendam neste momento a anticorrupção, pois isto é falso, porque teriam de colocar eles mesmos na prisão e dizer "me coloque na prisão porque sou corrupto", e sabemos que isto nunca vai acontecer. A anticorrupção tem que vir do povo, tem que denunciar-se como estamos fazendo em Simojovel, dizendo "estas autoridades são corruptas", "estes políticos são narcopolíticos", porque os narcopolíticos nunca vão autoencarcerar-se ou aceitar o que são, o que estão roubando do povo, mas sim é o povo quem deve governar. A autoridade é o servidor. O povo governa e a autoridade oferece um serviço.

Você comentava que a discussão entre bispos sobre o pape da Igreja. Estamos diante de um processo de renovação ou de fratura no interior da Igreja Católica?

PM - Neste momento, quando sai o documento de Aparecida, há uma clara postura da Igreja - de fato, aí estão os documentos do Rio de Janeiro, o documento de Puebla, de Medelín, Santo Domingo -, há uma frase em Aparecida que diz "a Igreja não pode estar à margem da luta pela justiça". A Igreja deve acompanhar os indígenas na luta pelos seus direitos e é precisamente isso que estamos fazendo. Mas uma coisa é o que se diz nos documentos e outra coisa muito diferente é o que se faz. Diante disso muito nos fortalece a palavra do papa noEvangelii Gaudium [Primeira exortação apostólica do papa Francisco de 26 de novembro de 2013. 

O texto expressa o influxo da teologia do povo no pensamento de Francisco]. Sua palavra é clara, sensível e acessível para todos. Me parece também que há um setor da Igreja que vai se fraturando porque quer seguir conservando suas linhas, sua comodidade, seu não compromisso com o povo, sua aliança com o governo já seja indireta, direta, implícita ou explicitamente e, muitas vezes, ficam somente com as palavras da hierarquia. 

Mas também há bispos que se comprometem com o povo, mesmo que sejam muito poucos. Igual ao que acontece no presbitério, há um clero que quer conservar seu prestígio porque é mais fácil a vida cômoda, diferente de estar com o povo que, às vezes, implica a morte, o sofrimento, a desqualificação. Que nos qualifiquem de revolucionários, de revoltosos. Mas acredito que sempre têm existido essas situações, somente neste momento vai tomando um novo auge, uma Igreja mais libertadora e comprometida.

Por isso se unem. Por exemplo, ontem vimos a presença de vários sacerdotes, tanto da Diocese de San Cristóbal como da Arquidiocese de Tuxtla. Agora mesmo a arquidiocese de Tuxtla admira este trabalho que fazemos, apesar de ser mais conservadora. Mas, na realidade, no fundo do coração, há um desejo de ajudar o povo. É só que algumas vezes nos controlam alguns bispos, nos detêm ou não permitem que o façamos. Mas aí vamos abrindo brechas para uma igreja libertadora e comprometida, para uma igreja pobre. 

Esse é o pensamento do papa. A igreja de pobres e para os pobres haveria de buscar uma maneira de fazê-la viva, porque o assunto é a vida, como estar com o povo e estar com o fiel que sofre, que caminha, que é aprisionado, que é oprimido. Aí deve estar a Igreja hierárquica, porque a igreja do povo já está envolvida. Esta é a igreja do povo, mas falta mais presença da hierarquia, do clero. A igreja é o povo de Deus. E este é o povo de Deus. Se se entendesse que a igreja é "o povo de Deus", pois aqui deveriam estar muitíssimos sacerdotes, mas o assunto do prestígio às vezes é o que se quer conservar e ficam mais cômodos em casa.

Qual foi a influencia de Dom Samuel Ruíz em seu caminhar?

PM - Na minha? Nada, porque não trabalhei com ele nenhum dia. Ele somente me confirmou. Quem mais influiu na minha vida foi San Romero [Oscar Arnulfo Romero foi um sacerdote salvadoreño que predicou a defesa humanos e foi assassinado em 1980 durante a celebração da missa], mas o que mais impacta, move e chora uma pessoa por isso é o sofrimento do povo sem a necessidade de uma figura de um santo como para poder entender que há que comprometer-se com o povo. 

Muitas pessoas pensam que sou um seguidor de Dom Samuel, e não, nunca trabalhei com ele. Foi muito comprometido Dom Samuel, é o que me dizem, mas sobretudo aqui o importante é o sofrimento do povo, isso e a palavra de Deus é o que nos move. 

E ainda que não houvesse existido Dom Samuel, o sofrimento existe e há de estar com o povo, vendo a gente, os irmãos, seus sofrimentos, me importa caminhar. Claro que me impacta muito a vida de Oscar Arnulfo Romero. Vejo refletidas minhas convicções m suas convicções. A ele também ofereceram guarda-costas e também não aceitou. Está muito caro que é aí a intervenção de Deus com os pobres. O valioso da Bíblia é que está modelada a intervenção de Deus com os pobres e contra os ricos ou os que oprimem o povo. 

Qualquer pessoa que veja uma situação de opressão, aí está muito clara a postura e Deus. Fico pensando em 21 de Reis, na vinheda de Nabot, há uma situação na qual o Rei o tira seu terreno a Nabot e intervém Deus. É uma intervenção direta contra o rei e a favor de Nabot. Perguntaram a mim se sou seguidor da teologia da libertação. Pois minha resposta é que não sei como se chama essa teologia e nem me importa o nome, mas o que importa é estar com o povo. Eu gostaria mais chamá-la teologia social ou teologia do povo, mais que teologia da libertação, mas o nome é secundário, o importante é estar com eles.

Finalmente, que papel joga a ecologia na Teologia do povo?

PM - A pessoa vê a Bíblia e também está repleta da teologia de nossa mãe terra, da mesma maneira que os irmãos que estão sedentos por defender suas terras. Tem influído muito o capitalismo o mudar a cosmovisão de que "a terra não vale mais". No entanto, a mesma Bíblia estabelece claramente a defesa da terra e da natureza, por isso é parte também de nossa vida de nossa defesa e de nossa preocupação diante da intervenção de empresas transnacionais de vir a saquear a riqueza do povo.

Fonte: Patria Latina

 


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