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O que Obama pode fazer na América Latina?

22.04.2009
 
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O que Obama pode fazer na América Latina?

Cinco dias antes do início da Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, o historiador da New York University, Greg Grandin, um dos maiores especialistas norte-americanos em história latino-americana, escreveu sobre as possibilidades, limites e o contexto do encontro de Barack Obama com a região.

Cinco dias antes do início da Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, o historiador da New York University, Greg Grandin, um dos maiores especialistas norte-americanos em história latino-americana, escreveu sobre as possibilidades, limites e o contexto do encontro de Barack Obama com a região. "Pela primeira vez em muitas décadas, um presidente dos Estados Unidos pode dar-se conta de que os dias em que os EUA podiam usar a América Latina como um espaço para o ensaio do imperialismo estão chegando ao fim", diz Grandin em artigo publicado em The Nation.

E se Barack Obama pegasse a colunista do The Nation, Katrina Vanden Heuvel, ou a âncora do DemocracyNow!, Amy Goodman, para lhe aconselharem na próxima Cúpula, onde há 75 anos o presidente Franklin Delano Roosevelt fez algo parecido, quando chamou o ex-editor do The Nation e crítico ferrenho do militarismo dos EUA para assessorá-lo em política latino-americana? Como resultado – considere este seu curioso, ainda que pouco conhecido, fato do dia – o anti-imperialismo salvou o império Americano.

Roosevelt assumiu o cargo em 1933 para não apenas estabilizar a economia estadunidense, mas acalmar um mundo inflamado: o Japão tinha invadido a Manchúria um ano antes; os nazistas tinham tomado o poder na Alemanha; os imperialistas europeus estavam endurecendo suas relações sobre as colônias e a União Soviética tinha declarado sua estratégia militante do “terceiro período”, imaginando que o capitalismo global, mergulhado na Grande Depressão, estava nos últimos suspiros.

Quando pouco depois da sua posse Roosevelt pôs em marcha um chamado às “nações do mundo” para “fazerem um solene e definitivo pacto de não-agressão”, os colonialistas, militaristas e fascistas que dirigiam a Europa e a Ásia empacaram, porque os objetivos globais do novo presidente estavam distantes das suas ambições globais, a Conferência Econômica de Londres – que se reúne em julho e equivale ao encontro do G20 de hoje – dissolveu-se rancorosamente sem consenso a respeito de como responder ao derretimento global do momento.

Para a sorte de Roosevelt, a septuagésima Conferência Pan-Americana estava marcada para aquele dezembro em Montevidéu, Uruguai. A própria idéia do Pan-americanismo – de que as repúblicas americanas compartilhariam ideais e interesses políticos comuns – estava reconhecidamente moribunda. Ano após ano, em cada fórum internacional, delegados da América Latina simplesmente se submetiam às diretivas de Washington, enquanto silenciosamente se enraiveciam com as então recentes intervenções militares estadunidenses – no Panamá, em Cuba, Porto Rico, México, Venezuela, Honduras, República Dominicana ou Haiti. (À sua escolha).

O momento era então de construir com as nações latino-americanas uma revisão do direito internacional que efetivamente garantisse às grandes potências o direito de intervenção nos negócios das repúblicas menores. Diplomatas venezuelanos, por exemplo, insistiam que os EUA afirmassem o princípio da soberania absoluta. Argentinos seguiram adiante com seu próprio acordo de “não agressão” determinando a não-intervenção como o direito do hemisfério. Os caribenhos e os políticos da América Central insistiram que os destacamentos da Marinha dos Estados Unidos, então atolados em operações de contra-insurgência na Nicarágua, no Haiti e na República Dominicana fossem embora.

FDR despachou seu Secretário de Estado Cordel Hull para a cúpula, mas o instruiu a não oferecer nada mais que uma promessa de construção de algumas novas estradas. A exigência de que os Estados Unidos desistissem do direito de intervenção era “inaceitável”.

Ainda assim Roosevelt, que tinha um jeito de reunir e agregar conselheiros improváveis, também pediu a Ernest Gruening (recomendado pelo professor de direito da Universidade Harvard que em breve seria membro da Suprema Corte de Justiça, Felix Frankfurter) a acompanhar Hull. Em 1964, um senador do Alasca, Gruening, iria se tornar famoso por ser um dos dois únicos votos contrários à Resolução do Golfo de Tonkin, que o presidente Lyndon Johnson iria usar para deflagrar a Guerra do Vietnã, mas nos anos 30 ele já era um anti-imperialista comprometido.

Nas páginas do The Nation e em outros jornais de tendência de esquerda ele tinha ajudado a expor o uso da tortura, do trabalho forçado e dos assassinatos políticos que tiveram lugar sob as ocupações da Marinha no Caribe. Atrocidades que ele comparava às da brutalidade européia na Índia, na Irlanda e no Congo. Depois de visitar o Haiti e a República Dominicana, ele fez pressão no Congresso para que o Congresso desse fim ao fundo das operações de contra-insurgência da região, e condenou a “horda de concessionárias carpetbaggers[1] que seguem o campo militarista do imperialismo norte-americano”. Uma crítica inflexível como essa da diplomacia norte-americana ser escolhida para aconselhar o Secretário de Estado reflete a força da esquerda nos anos 30 – e a vontade de Roosevelt de trazê-la para si.

Queimando “e Murdewin”

Enquanto a delegação amarrava as velas em Montevidéu, Gruening ficou chocado ao saber que os EUA “não tinham programação exceto a de ser amigável com todo mundo e irradiar boa vontade”.

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