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Bush e Obama, do medo à esperança

22.01.2009
 
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Bush e Obama, do medo à esperança

É pena que tenha crescido tanto a suspeita, especialmente à esquerda, de um suposto cinismo de Barack Obama, já como presidente eleito, em relação às promessas e compromissos do candidato. Mas isso permitiu ao próprio presidente, já empossado (e a pequena distância do antecessor George W. Bush), anunciar “uma nova era” e declarar o repúdio explícito e enfático às políticas desastrosas dos últimos oito anos.


Bush e seu vice Dick Cheney tiveram então de ouvir calados este trecho substantivo e veemente: “Quanto à nossa defesa comum, rejeitamos como falsa a escolha entre nossa segurança e nossos ideais. Os pais fundadores, ante perigos graves e difíceis de avaliar hoje, redigiram uma carta que garante o governo da lei e os direitos do homem (…). Aqueles ideais ainda iluminam o mundo. Não abriremos mão deles a pretexto de expedientes”.


Com isso, Obama destruiu o laborioso edifício de falsidades com que Bush e Cheney, nas semanas derradeiras no poder, tentaram construir junto à audiência cativa do império Murdoch de mídia (a Globo de lá) e outros veículos da direita sob a influência do neoconservadorismo, tão inconformados como a dupla ante o consenso em torno da avaliação dos dois últimos mandatos como o pior governo da história dos EUA.


O terrorismo como pretexto
Nas suas sucessivas despedidas, em entrevistas e discursos, Bush (foto ao lado, na última entrevista na Casa Branca) e Cheney martelaram, como se fosse explicação suficiente para a herança calamitosa que deixaram ao novo presidente, a alegação de que, graças à vigilância do governo depois do 11/9 os EUA não mais sofreram ataque terrorista. Ainda que tivesse sido esse o caso (na verdade, cartas com Anthrax mataram cinco pessoas e feriram 17), sequer seria mais do que desculpa esfarrapada.


Esqueceram que eles e seus ideológos neocons foram espectadores omissos na tragédia do 11/9 porque, advertidos pelo governo anterior na transição seguinte à ordem da Suprema Corte contra a recontagem de votos que mudaria o resultado fraudulento da Flórida, ignoraram as advertências do governo anterior, do democrata Bill Clinton, sobre a gravidade da ameaça terrorista.


A negligência dos auto-suficientes especialistas neocons em segurança nacional e defesa levou as autoridades a darem prioridade no início do governo à reativação do projeto reaganista “Guerra nas Estrelas”. E a subestimar a ameaça do extremista religioso Osama Bin Laden, treinado em ações terroristas pela própria CIA, que o financiara e armara no esforço para expulsar os russos do Afeganistão.


Em dois livros, o assessor de contra-terrorismo do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca no início da administração Bush-Cheney, Richard Clarke (saiba mais AQUI sobre seu Against All Enemies, o livro da capa acima), e o primeiro secretário do Tesouro, Paul O’Neill (que falou a Ron Suskind, autor de The Price of Loyalty, capa abaixo), testemunharam que dentro do governo optou-se pela invasão do Iraque, mesmo sabendo-se que Saddam Hussein nada tinha a ver com as ações da al-Qaeda e Bin Laden (leia AQUI a entrevista de O’Neill ao “60 Minutes” da CBS).


O atalho perigoso de Bush
Também exemplo eloquente, no inicío do governo Bush, da pouca atenção dada ao terrorismo, foi o secretário de Justiça (procurador geral) John Ashcroft. Diretor interino do FBI em 2001, Thomas Pickard revelou na comissão do 11/9 ter alertado Ashcroft duas vezes sobre a gravidade da ameaça terrorista e em especial Bin Laden. E que na terceira, apenas três meses antes do ataque, foi interrompido no meio. “Não quero ouvir nada mais sobre isso!”, disse o secretário (saiba mais AQUI, na transcrição parcial do depoimento de Pickard).


O caso Ashcroft é revelador. Depois da tragédia do World Trade Center houve outro choque entre ele e o diretor do FBI - já então Robert Mueller, preocupado em agir dentro da lei para identificar e prender os terroristas, a fim de assegurar a validade das provas num eventual julgamento. Segundo Bob Woodward (em Bush at War), Ashcrof discordou e mandou Mueller ser “não convencional” - e ignorar os cuidados legais. Nas suas memórias, Never Again, (capa ao lado) o ex-procurador geral gaba-se de ser durão.


Aquele procedimento indicava o novo rumo do governo. Ignorando as leis do país, as liberdades e garantias individuais, os direitos humanos e até as convenções internacionais contra a tortura, Bush e Cheney tentam hoje convencer o país de que com tortura, espionagem interna, Guantánamo e Abu Ghrabi preveniram outras ações terroristas. Alegam que estavam certos ao impor a política do medo e da histeria patrioteira, sacrificando os ideais legados pelos pais fundadores.


Unidade em vez de conflito
Ao proclamar sua discordância saudável, convencido de que tais ideais ainda iluminam o mundo e de que não se pode trocá-los por expedientes enganosos, Obama deixou claro ainda que no resultado da eleição deste ano - como na do Brasil em 2002 - a esperança venceu o medo. “Estamos reunidos aqui hoje porque escolhemos a esperança em vez do medo, a unidade de propósito em vez do conflito e da discórdia” (leia AQUI a íntegra do discurso).

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