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Sionismo, as armadilhas de origem

22.01.2009
 
Pages: 12
Sionismo, as armadilhas de origem

Na melhor das hipóteses, o que Israel aceitará como “solução palestina” será um gueto, um território sem soberania, definido pelas alegadas necessidades de segurança e seus imperativos nacionais. Como alternativa à desocupação de Gaza, um Estado virtual? Ainda está longe o dia da coexistência de dois Estados na Palestina. O artigo é de Carlos Eduardo A. Martins e Gilson Caroni Filho.

Carlos Eduardo A. Martins e Gilson Caroni Filho

“Tem que olhar todos os pedaços. Tem que desmontar tudo. Aí você vai entender.”
Leon, personagem fictício, em Whisper vol. 2 no. 36, maio de 1990, autor: Steven Grant.


Dois artigos publicados há algum tempo pela Folha de S. Paulo, antagônicos e ambos falhos oferecem, em paralelo, bom ponto de partida para a discussão da ideologia do sionismo territorialista e suas implicações. O do jornalista inglês Daniel Finkelstein, reproduzido do The Times de Londres no suplemento Mais! de 11/01/2008, é uma defesa apaixonada do sionismo; o de Mateus Soares de Azevedo (em Tendências / Debates, de 14.01), uma condenação.


Azevedo falha duplamente. Primeiro, ao afirmar que o sionismo seria “uma ruptura com a tradição judaica”, o que não é de modo algum. Segundo, e mais importante, ao condená-lo por critérios morais, usando o termo “egoísmo coletivo”. Qualquer hobbesiano dirá, coberto de razão, tratar-se de uma tautologia, pois é o egoísmo o móvel fundamental das ações tanto de indivíduos quanto de grupos. O que Azevedo não percebe é que o sionismo só pode ser “condenado” a partir da análise de sua essência.


É essa “essência” que Finkelstein se propõe a defender. Após um longo “nariz de cera” (em que não se peja de apelar à figura emblemática de Anne Frank), passa a historiar o sionismo territorialista moderno, a partir de seu patrono, o jornalista húngaro Theodor Herzl, autor de Der Judenstaat (O Estado Judeu), de 1896.


A premissa de Herzl é que os judeus não podem se fiar na “opinião pública mundial” ou na “comunidade das nações”, que sempre assistiram impassíveis às incontáveis perseguições sofridas pelo povo judeu através dos séculos. Os judeus teriam que assegurar sua sobrevivência, como povo e como indivíduos, por seus próprios meios. O que só seria possível com o estabelecimento de seu Estado nacional soberano, para o que Herzl indica a Palestina (então sob domínio turco), local do último Reino de Israel.


Além do livro, considerado o marco inicial do moderno sionismo político, Herzl foi um ativo militante do ideal sionista, que pregou por toda a Europa, além de, como líder do movimento, conduzir negociações com a Turquia e o Egito.


A ideologia territoralista é excludente. Em momento algum Herzl advoga pública e explicitamente o extermínio ou a expulsão violenta dos palestinos não-judeus. Mas deixa claro, em seus diários, que eles deveriam ser “persuadidos a se retirarem”, por meios econômicos como o confisco de suas terras e outras propriedades e a recusa em lhes dar emprego. Ou seja, em instância final Israel deveria ser o lar exclusivamente dos judeus – e inclusiva e idealmente de todos os judeus do mundo, que só ali teriam assegurada sua sobrevivência.


Herzl tampouco define fronteiras específicas para o Estado judeu, referindo-se genericamente à “Palestina”. Mas da mesma forma antevê o caráter necessariamente expansionista de tal Estado, até mesmo para acomodar a desejada imigração em massa. É significativo que, nos documentos oficiais do governo Israelense, o território de Israel engloba hoje toda a Palestina, Gaza, Cisjordânia e Golan incluídas.


Embora Finkelstein compartilhe do equívoco de Azevedo ao afirmar que “a origem do Estado de Israel não está na religião”, é óbvio que as propostas de Herzl estão imbuídas da visão toráica de “povo escolhido” (à exclusão de todos os demais) e de “destino manifesto” – de resto não diferentes da professada pelos proponentes do PNAC, Plano para um Novo Século Americano, que norteou o “bushismo” nos Estados Unidos – a começar pela escolha da “Terra Prometida” para lar do Estado de Israel.


Mas o discurso herzliano é totalmente laico (o que foi desprezado pela “esquerda sionista”, que acedeu em criar Israel como um Estado confessional, vide a Estrela de David em sua bandeira). E seus objetivos, estritamente materiais: terra e poder.


Quer seu criador estivesse consciente delas ou não, as implicações da ideologia sionista territorialista são inescapáveis. E Finkelstein as explicita: “Assim, quando se pede a Israel que respeite a opinião mundial e confie na comunidade internacional, não se está compreendendo o ponto fundamental. A própria idéia de Israel é uma rejeição dessa opção. Israel só existe porque os judeus não se sentem seguros como tutelados da opinião mundial.”


Daí se depreende inevitavelmente que quaisquer “negociações” ou “acordos” não têm valor para Israel, que os usará se conveniente assim como os ignorará se e quando, a seu exclusivo juízo, for necessário para sua segurança. Finkelstein continua sua explanação sem se dar conta de que explicita o que a propaganda sionista tenta ocultar: “Israel entregará suas armas quando os judeus estiverem em segurança, mas não o fará enquanto não estiverem.” E só a Israel compete dizer se a “segurança” foi alcançada ou não, bem como até onde o Grande Israel terá que se estender até então.

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