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Reflexões na morte de Pinochet

21.12.2006
 
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Reflexões na morte de Pinochet

O ditador chileno Augusto Pinochet está morto: isto não é mais nenhuma notícia. Ele não morreu de repente num hospital de Santiago, no dia 10 de dezembro. Na verdade, começou a falecer em 1988, quando perdeu o referendo que deveria legitimar seu governo.

O ditador chileno Augusto Pinochet está morto: isto não é mais nenhuma notícia. Ele não morreu de repente num hospital de Santiago, no dia 10 de dezembro. Na verdade, começou a falecer em 1988, quando perdeu o referendo que deveria legitimar seu governo.

Depois de muito protelar, teve afinal que abandonar o que mais amava (o poder) em 1990, e isso tirou grande parte do sentido de sua vida. À medida que sua influência sobre o Chile democrático era cada vez menor, se seguiram golpes cada vez mais duros: sua prisão no Reino Unido, em 1998, a pedido do juiz espanhol Baltazar Garzón, que quase conseguiu levá-lo a prisão por suas imensas violações dos direitos humanos.

Depois a descoberta de contas ilegais suas nos EUA, em 2004. E sua prisão domiciliar no Chile, no ano passado, por evasão fiscal. E agora o fim inglório, quase totalmente abandonado, universalmente escrachado, tendo seu cadáver cuspido na cara pelo neto do general Carlos Prats (o comandante do exército na época de Allende, que foi morto em Buenos Aires por um carro-bomba armado pela DINA, a polícia polítca de Pinochet).

Por que o governo de Salvador Allende, eleito democraticamente em 1970, com apoio massivo da população, caiu por conta de um punhado de maníacos de ultra-direita e elites sanguessugas? É triste ter que reconhecê-lo, mas foi devido à sua fé ardente e incondicional na liberdade, na tolerância e na legalidade. Mesmo diante das sabotagens que paralizaram quase completamente a economia chilena, da explícita intervenção de Washington e das tendências golpistas de muitos militares, Allende não prendeu nem reprimiu, não declarou estado de sítio, não armou a população, não impôs censura.

Ele acreditava que, contra os golpistas, a melhor arma era a tolerância. Infelizmente, a tática não deu certo: seus partidários, embora com vontade de lutar pela liberdade, se encontraram desarmados e incapazes de resistir diante do golpe de Pinochet.

Allende foi uma pessoa e um líder admirável, mas perdeu o poder e a vida por excesso de idealismo. Um pouco de firmeza e repressão, dirigida unicamente contra seus opositores mais extremados, provavelmente já teriam sido o suficiente para que ele pudesse controlar o país, e evitar a barbárie que se seguiu à ascensão de Pinochet.

Quem era este Pinochet? Não apenas um tirano, não apenas um genocida, não apenas um saqueador, como qualquer um sabe. Foi também um traidor. Fez-se de fiel partidário de Allende, conseguiu que o próprio Carlos Prats o nomeasse como sucessor no comando do exército, para então revelar sua verdadeira cara: um déspota que queria o poder absoluto para si, a qualquer custo.

Pinochet se dizia cristão; era, na verdade, mais um desses fariseus (o círculo dos poderosos está cheio deles) que desvirtuaram as idéias de Jesus, transformando-as num tradicionalismo vazio. O ditador chileno carecia de absolutamente todas as virtudes cristãs: humildade, caridade, solidariedade, não-violência e defesa incondicional dos mais débeis.

Muitos lamentam o fato de Pinochet nunca ter sido condenado. Mas a verdade é que o tirano teve um fim inglório, tendo que fazer-se de esclerosado, insano e até humilde para escapar da justiça. Ele, que na década de 80 se gabava que "nenhuma folha se move no Chile sem que eu ordene", quando interrogado pelo juiz Baltazar Garzón teve que rebaixar-se a ponto de dizer que não havia ordenado matar ou torturar ninguém, e se alguém o fez foi à revelia sua. Afinal, quem mandava no Chile não era ele?

A direita, porém, ainda tenta defender Pinochet. Diz que seu governo trouxe paz, estabilidade e prosperidade ao Chile. As tensões, o desabastecimento e todos os problemas do Chile no começo da década de 70 não foram causados pelo governo de Allende, mas pela elite que tentava de todas as maneiras resistir-se a ele. E o Chile, embora esteja estável economicamente e não tenha passado pelas crises que outros países da região sofreram, continua sendo um mero exportador de matérias-primas, desindustrializado e completamente dependente dos Estados Unidos.

Até a imagem de ditador implacável mas honesto morreu antes de Pinochet, com as descobertas nos últimos anos de contas secretas multimilionárias no exterior, e até um possível depósito de ouro em Hong Kong.

Com tudo isso, parece que, apesar de nunca ter sido condenado, Pinochet teve um final infeliz, completamente merecido. Há cada vez menos partidários seus, embora ainda consigam fazer barulho. Seus crimes e seus roubos são universalmente conhecidos, e até muitos dos seus antigos aliados lhe viraram a cara, como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Apenas Margaret Thatcher se manteve fiel até o fim, e expressou condolências com a sua morte. E no fundo, num cantinho escuro e reprimido de sua alma, que ele jamais permitiu que saísse a público, que talvez só aparecesse em momentos de melancolia ou durante seus sonhos, Pinochet sabia o que fez, tinha consciência da monstruosidade que causou.

As seguintes palavras, escritas pelo filósofo Bento de Espinosa há mais de 300 anos, se adequam admiravelmente ao Chile tiranizado por Pinochet, e também à morte de Allende e seus correligionários:

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