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Fidel Castro: A globalização neoliberal

21.08.2006
 
Pages: 12345
Fidel Castro: A globalização neoliberal

por Fidel Castro
entrevistado por Ignacio Ramonet [*]

Ramonet - Você acredita que a globalização está destruindo até o próprio capitalismo? 


Fidel -


A publicidade praticamente determina o que se vende e o que não se vende, quem não tem muito dinheiro não pode fazer nenhum tipo de publicidade para seus produtos, ainda que sejam excelentes. Depois da última chacina mundial na década de 1940, prometeram-nos um mundo de paz, a diminuição da distância entre ricos e pobres e que os mais desenvolvidos ajudariam os menos desenvolvidos. Tudo não passou de uma enorme falsidade. Impuseram-nos uma ordem mundial que não se pode sustentar nem suportar. O mundo está sendo conduzido para um beco sem saída. Nenhuma daquelas categorias em que acreditávamos que se baseava o capitalismo existe mais; não existe, portanto, a teoria que os Chicago Boys ensinam às pessoas. E, por outro lado, a teoria e a prática do socialismo ainda estão por ser desenvolvidas e escritas.


Ramonet - Você me disse em outra ocasião que já não havia "modelo" em matéria política e que, atualmente, ninguém sabia muito bem o que o conceito de socialismo significava. Você me contou que, em uma reunião do Fórum de São Paulo que se realizou em Havana, e que reuniu todas as esquerdas da América Latina, foi necessário ter cautela para não pronunciar a palavra "socialismo" porque é uma palavra que "divide".


Fidel -


Na União Soviética se empregava outro método: o autofinanciamento, e ele tinha fortes convicções sobre isso. Marx fez apenas uma breve tentativa na Crítica do programa de Gotha de definir como seria o socialismo, porque era um homem muito sábio, muito inteligente e realista para imaginar que se poderia escrever uma utopia sobre como seria o socialismo. O problema foi a interpretação das doutrinas, e foram feitas muitas. Por isso os progressistas permaneceram tanto tempo divididos, e as polêmicas entre anarquistas e socialistas, os problemas depois da Revolução Bolchevique de 1917 entre trotskistas e stalinistas ou, digamos, para os partidários daquelas grandes polêmicas que foram geradas, a divisão ideológica entre os dois grandes dirigentes. O mais intelectual dos dois era, sem dúvida, Trotski. Stalin foi um dirigente mais de ordem prática, como conspirador, não foi um teórico e, uma vez ou outra, depois, quis agir como teórico... Lembro-me de uns livretos que eram distribuídos em que Stalin explicava o que queria dizer o materialismo dialético, e usava o exemplo da água... Quiseram transformar Stalin em um teórico.


Ele era um organizador, de grande capacidade, penso que era um revolucionário, não acredito que alguma vez tenha estado a serviço do czar. Depois cometeu os erros que todos conhecemos, a repressão, as "limpezas" e tudo aquilo. Lênin era o gênio, morreu relativamente jovem, mas teria podido... Nem sempre a teoria ajuda. Na época da construção do Estado socialista, Lênin aplicou desesperadamente, a partir de 1921, a NEP [Nóvaya Economícheskaya Polítika], a nova política econômica Já falamos disso, e eu disse que o próprio Che não simpatizava com a NEP. Mas Lênin teve uma idéia verdadeiramente engenhosa: construir o capitalismo sob a ditadura do proletariado. Lembre-se de que as grandes potências queriam destruir a Revolução Bolchevique, o mundo todo a atacou.


Não se pode esquecer da história da destruição que fizeram naquele país subdesenvolvido; a Rússia era o país menos industrializado da Europa, e Lênin, além disso, acreditava, seguindo a linha de Marx, que não podia haver revolução apenas em um país e que a revolução tinha de ser simultânea em muitos lugares, a partir de um grande desenvolvimento das forças produtivas. Por isso o grande dilema, depois que se estabeleceu essa primeira revolução, foi seguir ou não em frente. Quando o movimento revolucionário fracassou no resto da Europa, não restou a Lênin mais que uma opção: construir o socialismo em um só país, a Rússia. Imagine a construção do socialismo em um país com 80 por cento de analfabetos e em uma situação na qual teriam de combater todos os que os atacassem, e na qual os principais intelectuais, todos os que tinham mais conhecimentos, se retiraram ou foram fuzilados. Percebe?


Ramonet - Foi uma época terrível, com intensos debates.


Fidel -


NÃO HÁ SOLUÇÕES LOCAIS PORQUE A DOMINAÇÃO É GLOBAL


Ramonet - Você considera que estamos atualmente em um momento de grande confusão ideológica?


Fidel -


A OMC [Organização Mundial do Comércio], o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional estabelecem as regras de uma situação de dominação e exploração de fato, que pode ser escravista, feudal. E muita gente está procurando maneiras de se livrar dessa dominação. Você é testemunha de quantas pessoas foram ao Fórum Social Mundial de Porto Alegre ou de quantas foram a Bombaim em 2004. E nem sei quantos artigos sobre a globalização liberal já li na sua revista [Le Monde Diplomatique].

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