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De Manhattan a Bucareste

21.06.2017
 
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De Manhattan a Bucareste

Duas grandes jornalistas brasileiras estão com livros rodando pelas mãos de leitores, habitando as estantes e gôndolas das livrarias e merecem chegar até você. Lúcia Correia Lima, criativa de textos e imagem, que colaborou com grandes jornais brasileiros nos traz "Mandinga em Manhattan".

Jolivaldo Freitas

Symona Gropper, que foi repórter e editora do mitológico Jornal do Brasil, vem em cheio com "A Menina que foi vento". Dois trabalhos feitos com amor e vocação, que por coincidência ou não - como falaria um retórico barroco tropicalista -, saem da alma e do coração de duas mulheres guerreiras, que a seu modo, épocas e ambientes enfrentaram as agruras da luta pela liberdade.

Lúcia Correia Lima lembra que quando estava com 15 anos de idade os brasileiros enfrentavam a ditadura militar. Era o Ano de Chumbo de 1968 quando foi levada por colegas do Movimento Estudantil Secundarista para treinar capoeira na escola do Mestre Suassuna, no centro de São Paulo, aonde chegou "exilada" com seus pais militantes humanistas, fugidos da Bahia para abrigo na imensidão da maior cidade da América do Sul.  Ela observa que a luta-arte afro-brasileira era uma "arma" para enfrentar os tempos cinzentos que se instalou no país por vinte e cinco anos.

Semelhante aos negros pioneiros capoeiras do século XIX, como observa, foi presa juntamente com colegas da luta armada. "Muitos foram mortos, exilados ou presos", diz. Seu mestre Suassuna, um deles. Mas, num texto sobre seu livro e sua vida ela diz que discordando de pegar em armas, começa a trabalhar na icônica revista Realidade, da Editora Abril e ganha o cobiçado Prêmio Esso de Jornalismo. Inicia carreira na chamada imprensa alternativa (Bondinho - quando recebe o Esso de "contribuição à imprensa"). Volta para a Bahia e traça carreira na Tribuna da Bahia e Correio da Bahia; passa pela sucursal de O Globo. É quando retorna à capoeira com o lendário mestre João Pequeno de Pastinha.

E - diz sua resenha -, surge a ideia do livro "Mandinga em Manhattan" em que retrata a história da capoeira e os jovens de todos os continentes que frequentavam a escola do mestre. E mostra que a capoeira e o candomblé eram importantes manifestações brasileiras. O livro é consequência de documentário do mesmo nome que recebeu o prêmio DOCTV do Ministério da Cultiura em 2008. Uma transcrição dos depoimentos e selecionado pelo edital Capoeira Viva do próprio ministério. Ele sincretiza, em entrevista, o anima daqueles mestres pioneiros responsáveis por espalhar a capoeira pelo mundo, chegando até a Hollywood, na Casa Branca, universidades norte-americanas e seguindo pelas vias da Ilha de Manhattan.

E a história de Lúcia se entrelaça com a de Symona Gropper. Esta que foi importante repórter do Jornal do Brasil, ainda no período da ditadura militar, chegando à Bahia para atuar na sucursal do jornal carioca. Conforme excerto de resenha feita pelo jornalista baiano Sérgio Gomes, o livro mostra a saga da família Gropper. Ela "nascida no leste europeu, na Romênia, no pós II Guerra. É mais um relato pungente das agruras que famílias judias viveram no século passado, perseguidas pelo nazismo e logo depois, por serem considerados capitalistas, pelos regimes comunistas. Symona, a irmã Hedda, e os pais, para sobreviverem, e em busca de esperança, tomaram o rumo do êxodo de judeus europeus para o recém-criado estado de Israel, na Palestina. A autora relata as consequências da triste perseguição e efeitos do holocausto sobre toda a família, que acabou dispersa pelo mundo, ao tempo em que narra as consequências sobre a sua própria vida e personalidade. É um relato pessoal corajoso o que essa romena expatriada, que acabou no Brasil e na Bahia, faz. O leitor sente-se como se estivesse ao lado do divã da psicanalista que, na verdade, a analisou, na busca de desentranhar, do fundo da alma, os traumas acumulados por uma criança vitimada pelo drama da perseguição e do preconceito racial. Vale muito a pena ler. E é um excelente roteiro para um filme, essa história de uma menina que fez papel de vento na primeira infância, num teatro de acampamento em Israel, mas que, com força e temperança, tornou-se uma competente jornalista e mãe carinhosa de dois filhos, nessa Bahia que a todos acolhe, como se aqui tivesse nascido".

O que Symona nos oferece é um memorialismo emocionante, a lembrança do terror na Romênia, nas comunidades judaicas e o flagelo da Segunda Guerra Mundial. É um livro com romance e asas próprias. Pungente. O volume de Symona está à venda na livraria Leitura ou por sua página no Facebook. O de Lúcia, adquirido também via Facebook, será relançado este ano. Essas fortes e geniais mulheres do mundo afora que nos oferecem informações boas leituras.

 


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