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Colômbia. Dorme dorme negrinho

21.05.2019
 
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Colômbia. Dorme dorme negrinho

Luz Marina López Espinosa / Resumen Latinoamericano / 7 de maio de 2019

"Que tu mama está en el campo, negrito

Trabajando, trabajando duramente

Y si el negro no se duerme

Viene el diablo blanco y ¡zas!

Le come la patica".

E assim, ainda que não como na brincalhona previsão da primorosa canção tradicional interpretada pelos grandes do folclore latino-americano desde Atahualpa até Mercedes passando por Jara e Zitarrosa, enquanto o negrinho dormia, chegou esse diabo branco que, ali como nesta história, é e não outra coisa que o poder de classe e lhe comeu o pezinho disparando suas armas sobre o frágil corpo.

Tal o inimaginável, o impossível final da canção de ninar que nem na mais obscura de suas elucubrações pressentiu seu autor quando sob o olhar severo do amo trabalhava na plantação, imaginando um destino feliz para seu negrinho que dormia. Não foi o caso de Samuel David, o filhinho de sete meses de Carlos Enrique González, ex-combatente das FARC-EP incorporado à vida civil em virtude do Acordo de Paz, e Sandra Pushaina, ambos da etnia wayú em cuja rancharia na guajira venezuelana chegaram em 16 de abril de 2019 os criminosos na obsessão de acabar com suas vidas.

Samuel David, mais um dessa maravilhosa eclosão de crianças que com justiça têm sido chamados de filhos da paz porque literalmente são isso, esplêndida demonstração de suas bondades, resultou ser, quem acreditaria, objetivo militar daqueles que como cruzada

justa assumiram o extermínio dos que apostaram na paz, assim nesse empenho imolem também a seus filhos.

Ainda que não o reconheçam abertamente que ninguém, nem ainda a mente criminal, o faria, senão só como um "efeito colateral" justificado por uma causa, essa sim, apresentável segundo lhes dê na gana. Uma vida de sete meses florescida num acampamento de paz não é aceitável para os que um extravio da alma os converte em nostálgicos da morte.

Foi o pequeno Samuel David dor de poucos dias para os meios de comunicação colombianos cuja falsidade é admitida por tírios e troianos e já não negam nem seus próprios proprietários. Dor não, digo mal, tão só aproveitamento do rendimento que dá um fato espantoso na mais amarelidez de suas apresentações, ademais. Isso é o que conta. Vinte e quatro, quarenta e oito horas no máximo. Não fazê-lo seria deixar de explorar um rico filão da curiosidade pública. E com ele sensacionalismo, publicidade e vendas.

O bebê era só a circunstância, contingente pelo demais. Por isso, passada a boataria, desaparecida a ocorrência, já não o é mais. Nem seguimento do drama dos pais, nem aprofundar no contexto e na sistematicidade que poderia conduzir à mente ordenadora dos crimes, nem a indignada exigência às autoridades como nos eventos mediados pela condição de classe ou poder da vítima, para que "o fato não fique na impunidade".

Entretanto, Carlos Enrique e Sandra não recuperados ainda das feridas que receberam, na rancharia wayú onde as crianças também morrem porém de fome, ante a indolência estatal e social por uma tragédia que só parece ter sido para eles, se perguntarão se sua opção pela vida valia a morte de sua criatura. E no raiar do dia nas secas manhãs do deserto, com que nostalgia o ninarão com o grande Guillén e sua imortal

Canción de cuna para despertar a un negrito:

"Una paloma cantando pasa

¡Upa mi negro que el sol abraza!

Ya nadie duerme ni está en su casa

Ni el cocodrilo ni la yaguasa

Ni la culebra ni la torcaza

Coco cacao cacho cachaza

¡Upa mi negro que el sol abraza".

Tradução > Joaquim Lisboa Neto

Aliança de Meios pela Paz

Em twiter @koskita

 


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