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O ganso da Mamãe Gansa já assou

21.05.2015
 
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A chanceler alemã fará quase qualquer coisa para obter e conservar o poder. Isso inclui preparar-se para guerra contra a Rússia, só para conseguir que seu rival político Frank-Walter Steinmeier, ministro de Relações Exteriores e líder da oposição em Berlim, apareça como 'fracote' demais para ser eleito nas urnas, quando chegar a hora, em 2017.

Angela Merkel, a chanceler alemã, fará quase absolutamente qualquer coisa para obter e conservar o poder. Isso, na opinião de poderosos banqueiros alemães, inclui preparar-se para guerra contra a Rússia, só para conseguir que seu rival político Frank-Walter Steinmeier, ministro de Relações Exteriores e líder da oposição em Berlim, apareça como 'fracote' demais para ser eleito nas urnas, quando chegar a hora, em 2017. Por essa razão, dizem fontes próximas da chancelaria, Merkel insultou o presidente Vladimir Putin e todos os russos, semana passada. 

Essa semana, Victoria Nuland, subsecretária de Estado dos EUA (que ano passado disse à chanceler alemã que "Foda-se [Merkel e toda a UE]"), lá estava em Moscou, substituindo Merkel e apresentando uma solução que o Kremlin prefere para o conflito na Ucrânia. 

"Estamos prontos para isso", disse o ministro de Relações Exteriores Sergei Lavrov, depois de reunião com o secretário de Estado dos EUA John Kerry. Sobre a Nuland, Lavrov acrescentou: "Não fomos nós que suspendemos relações. Os que o fizeram é que devem reconsiderar a posição deles. Mas, como sempre, o diabo mora nos detalhes". Lavrov referia-se não a um, mas a dois/duas diabo(a)s que sabotaram todos e quaisquer passos na direção de qualquer acordo para a Ucrânia desde o início do conflito em 2014: Nuland e Merkel.

O momento Kaput! da Merkel aconteceu dia 10 de maio, quando ela foi a Moscou depositar uma coroa de flores no túmulo do Soldado Desconhecido. A Deutsche Welle, agência alemã estatal de notícias, chamou o gesto de "rendição de Merkel", depois de ela não ter comparecido ao desfile militar da véspera, em Moscou.

Na conferência de imprensa ao lado de Putin, Merkel disse: "Temos buscado mais e mais cooperação em anos recentes. A anexação criminosa e ilegal da Criméia e as hostilidades militares no leste da Ucrânia levaram a grave retrocesso nessa cooperação." 

Fontes alemãs registraram a palavra que Merkel usou, "verbrecherische", só muito raramente usada antes pela chanceler; a palavra tem conotações no alemão coloquial com gangsterismo e - mais grave - com nazismo. 

"A impressão que se tem é que Merkel já nem se preocupa com o que diz ou como diz" - comenta fonte alemã de alto nível. - "Mostra sinais cada vez mais claros de emoção, de irritação, cuida menos do que diz e onde. Putin compreendeu exatamente o que ela disse e a ocasião em que o disse. E reagiu, ou melhor, não reagiu, com generosidade pouco usual." 

A transcrição distribuída pelo Kremlin omitiu todo o comentário de Merkel. Os jornais de Moscou ignoraram a palavra de Merkel e enfatizaram as palavras positivas de Putin. "Nosso país lutou, não contra a Alemanha" - Putin respondeu à fala de Merkel -, mas contra os nazistas alemães. Nunca combatemos contra a Alemanha que, na verdade, foi a primeira vítima do regime nazista. Sempre tivemos lá muito amigos e apoiadores." 

A rádio estatal dos EUA logo estava no ar para repetir e reforçar o "verbrecherische" de Merkel e açoitar o Kremlin por ignorar o desaforo. "Algum intérprete oficial numa conferência de imprensa no Kremlin omitiu aguda crítica, feita pela líder ocidental, contra a anexação, pela Rússia, da região da Crimeia" - vociferava a Radio Free Europe/Radio Liberty, no dia 12 de maio.

O jornalista Carl Schreck comentou que "não se sabe se o interpreto suavizou conscientemente o termo grosseiro de Merkel, ou se simplesmente perdeu a palavra. Mas não há dúvidas de que Putin entendeu perfeitamente o 'verbrecherisch' da Merkel. Putin viveu em Dresden quando servia à KGB soviética nos anos 1980s, é falante fluente de alemão, e várias vezes falou com Merkel no idioma dela. A única possibilidade de Putin não ter ouvido, é que tenha ouvido a versão da intérprete, através do fone que tinha no ouvido esquerdo. Mas o ouvido direito, mais próximo de Merkel - estava livre de muletas eletrônicas."

Schreck - cujo nome em alemão significa "susto", ou "medo" - trabalhou como repórter do Moscow Times por  muitos anos, antes de mudar-se para Praga e passar a servir ao governo dos EUA. Nem em sua página internet ele conta onde poderia ter aprendido alemão, ou se a promoção para Washington teria incluído curso intensivo de língua alemã. Mas Schreck já mostrou que, diferente de Putin, tem uma queda pelo oligarca Mikhail Prokhorov. A pergunta mais 'sensível' que Schreck fez ao oligarca, numa longa entrevista exclusiva, foi "O que você busca numa mulher?"

Aquele Verbrecherische não é o primeiro caso de língua frouxa que trabalha contra o barco da própria Merkel. Em novembro passado, ela usou alemão dos mais agressivos em comentários de improviso, fora do roteiro previsto. Mas aconteceu na Austrália, e Putin já deixara o país. Além do mais, Merkel não é o único político a dizer coisas, na Austrália, de que ninguém toma conhecimento no resto do mundo.

A ironia, no ataque de Merkel contra Putin dia 10 de maio, é que fontes no Kremlin acreditam que Putin foi o último dos membros do Conselho de Segurança a perder a confiança em Merkel, aquele que por mais tempo lhe garantiu o benefício da dúvida estratégica. 

Yevgeny Primakov, o mais experiente conselheiro estrategista de Putin, já há meses lhe diz, privadamente, que não há nenhuma possibilidade de salvar a entente russo-alemã enquanto Merkel for chanceler; nem há qualquer esperança de a oposição alemã livrar-se dela no curto prazo.

Em público, dia 15 de janeiro, Primakov disse: "Que ninguém espere, para futuro próximo, mudanças externas que favoreçam a Rússia. Nada garante que as sanções sejam levantadas em futuro próximo. Apostar em políticos e empresários europeus que falam contra as sanções não é realista." Por polidez, Primakov omitiu de sua fala o adjetivo "alemães". Primakov e os serviços russos de inteligência veem Merkel como otária a serviço de Washington.

Dois dias depois da viagem de Merkel a Moscou, dia 12 de maio, Kerry reuniu-se com Putin e Lavrov em Sochi. O comunicado do Kremlin foi lacônico; apenas informou que a questão do conflito na Ucrânia merecera "foco especial". "Os russos apresentaram sua avaliação das razões por trás da crise ucraniana, expondo os pontos chaves de sua posição. Destacou-se durante a reunião que a Rússia insiste em implementar inteiramente os Acordos de Minsk e que fará o que estiver ao seu alcance para apoiar esse processo."

Quando falam das "razões por trás" [da crise ucraniana], Putin e Lavrov falam da Nuland e do partido da guerra, em Washington. Antes do encontro de Sochi, a porta-voz do Departamento de Estado tentara inflar Kerry e desinflar a Nuland. "Não se pode lidar com questões diplomáticas, se não se faz diplomacia" - disse a porta-voz, dia 11 de maio. Dia 13 de maio, outro porta-voz foi perguntado se "os EUA estão preparados para pressionar a Ucrânia a cumprir plenamente os acordos Minsk-2", e fugiu da pergunta. 

Dia seguinte, no momento em que Nuland estava em Kiev reunida com o primeiro-ministro Arseny Yatseniuk e o presidente Petro Poroshenko, o mesmo porta-voz confirmou que "os EUA garantem pleno e inquebrantável apoio ao governo, à soberania e à integridade territorial da Ucrânia. Continuamos ombro a ombro com o povo da Ucrânia e reiteramos nosso profundo compromisso com uma nação ucraniana una, incluindo a Crimeia e as demais regiões do país." 

Seja qual for o diabo que se possa ler nesses detalhes, as declarações do governo dos EUA indicam algo de novo: que agora só há dois pares de ombros, e que Merkel levou uma ombrada para fora da turma. Se deve haver alguma solução para a questão ucraniana, ela será trilateral, segundo os EUA: entre EUA, Rússia e Ucrânia. Do ponto de vista russo, é claro que significa acordo entre Rússia e EUA, cabendo à Nuland a tarefa de manter em formação o governo ucraniano.

Nuland insistiu que estivera bem ao lado de Kerry nos encontros em Sochi. Nas fotos, não apareceu, provavelmente excluída pelos fotógrafos russos. No Kremlin, Lavrov e Kerry conversaram como se a Nuland não estivesse na sala.

Em Sochi Kerry ainda precisou mostrar à Merkel como se comportar à frente do memorial em honra aos russos mortos na guerra contra a Alemanha.

Segundo Kerry, "o memorial aqui em Sochi é onde estão sepultados mais de 4 mil dos milhões de corajosos então soviéticos (sic) que morreram na 2ª Guerra Mundial. É monumento muito bonito e fiquei muito comovido com as crianças que participaram na cerimônia. E acho que Sergey e eu saímos da cerimônia com lembrança poderosa dos sacrifícios que partilhamos para criar um mundo mais seguro, e do que nossas nações podem conseguir quando nossos povos trabalham juntos para o mesmo objetivo."

Kerry também deixou uma aviso ao regime de Kiev sobre como não interpretar fosse o que fosse que Nuland estivesse dizendo. "Se o presidente Poroshenko prega engajamento em movimento de força nesse momento", disse Kerry em Sochi, "nós solicitamos insistentemente que pense duas vezes antes de se engajar nesse tipo de atividade, que poria Minsk sob grave riso. E ficaríamos muito, muito preocupados com quais possam ser as consequências desse tipo de ação, dessa vez."

Agora que a Nuland foi posta porta a fora da tomada de decisões, das quais se encarregarão os rapazes maiores, a missão dela passou a ser ir a Kiev dizer aos rapazes menores de lá qual é a nova linha dos EUA. A versão de Yatseniuk - além da oportunidade de aparecer na fotografia - foi que "os tópicos chaves das conversações foram questões sobre como superar a agressão russa e a implementação dos acordos de Minsk, implementação de reformas econômicas e a luta contra a corrupção, além da assistência que os EUA darão a todos esses processos." Yatsenyuk e Nuland discutiram "o status da implementação do programa de cooperação com o FMI, além da preparação para uma zona franca de comércio entre a Ucrânia e a União Europeia a partir de 1/1/2016."

Poroshenko não arreda pé do juramento de fidelidade: "a coordenação de nossas ações com os EUA é vitalmente importante" - era a única notícia que se lia na página internet da presidência, depois do encontro. Até as cenas para fotografias foram racionadas.

A versão da Nuland, segundo transcrição da embaixada dos EUA, foi enfatizar o quanto [os EUA estamos ansiosos] "para aprofundar nosso envolvimento na ajuda às partes, para que se chegue à plena implementação - de tudo, com completo cessar-fogo e retirada da linha de controle, e volta das partes políticas às devidas fronteiras". Por "partes políticas", Nuland referia-se às mudanças constitucionais para o leste da Ucrânia nas quais Putin insiste e que Kerry mencionou, enquanto a Nuland mordia a língua. 

Nuland também ignorou os pedidos de mais dinheiro que lhe fez "Yats", porque Washington nem declarará que é favor de um calote ucraniano dos seus bônus soberanos em poder dos EUA ao final desse mês, nem fornecerá mais dinheiro para impedir o calote.

Em vez disso o Tesouro mandou seu ex-secretário Lawrence Summers anunciar que o FMI "fez tudo que se poderia razoavelmente pedir". Summers, na ponta recebedora do Tesouro do oligarca ucraniano Victor Pinchuk, esta semana não pediu dinheiro novo da União Europeia nem contribuições aos oligarcas ucranianos. 

Summers diz que se opõe também à oferta de novo dinheiro extraído dos contribuintes norte-americanos. Em vez disso, o jogo do Tesouro dos EUA é que "os credores da Ucrânia - liderados pela empresa de investimentos Franklin Templeton, mas também com o apoio de vários dos maiores administradores de fundos dos EUA, que estão tão embaraçados por sua própria posição egoísta e não construtiva que se negam a deixar-se identificar publicamente -, estão fazendo jogo duro e recusando qualquer tipo de redução."

Em Kiev, Nuland pôs Merkel no lugar que lhe cabe, relegando-a, com o francês, a uma única menção, no último lugar no processo para decidir o resultado do acordo ucraniano. Os EUA, disse ela em Kiev, estão "em passo alinhado com nossos aliados e parceiros europeus". "Passo alinhado" significa que o de trás tem de caminhar acorrentado ao homem da frente: a Alemanha tem de obedecer às ordens dos EUA. Depois do "MerkelKaput!" veio o "Merkel kibosh"! *****  

A expressão Kaput começou a ser usada em francês, significando "perder em jogo de cartas"; daí passou ao inglês, pelo alemão caput durante a 1ª Guerra Mundial. 

Kibosh, em inglês, "descartado"; derivado do irlandês caidhp bháis, "máscara do carrasco" - ou o saco posto na cabeça do condenado antes da execução. Também designa pequeno chapéu preto (de fato, quase um lenço, sobre a peruca) que os juízes ingleses usavam ao pronunciar a sentença de morte.

18/5/2015, John Helmer, Moscou - http://johnhelmer.net/?p=13387

 


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