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A Eurásia como nós (e os EUA) a conhecemos está morta

21.04.2015
 
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Vá andando, caia fora daqui, Move over, Guerra Fria 2.0. A verdadeira história, agora e no futuro próximo, em suas muitas e muitas declinações, e, claro, descontados os muitos solavancos pela estrada, é uma nova Eurásia integrada, que se vai forjando aí à nossa frente.

O projeto chinês imensamente ambicioso de uma Nova Rota da Seda continuará em intersecção com a União Econômica Eurasiana (UEE) liderada pela Rússia. E dia virá quando a União Europeia acordará e descobrirá um fervilhante eixo de comércio e trocas que se estenderá de São Petersburgo a Xangai. É sempre pertinente lembrar que Vladimir Putin vendeu visão similar e ainda mais abrangente, na Alemanha, há uns poucos anos - e que se estendia de Lisboa a Vladivostok.

Vai demorar - e serão tempos difíceis. Mas é inexorável esse face lift radical da Eurásia. Implica o sonho excepcionalista - os EUA como hegemon na Eurásia, que ainda parecia viável na virada do milênio - dissolvendo-se rapidamente, bem aí diante dos olhos de todos.

Rússia pivoteia-se para leste, e China, para oeste 

Algumas boas cabeças nos EUA ainda são essenciais para a completa desconstrução dos aspectos negativos, e porque apontam para os perigos da Guerra Fria 2.0. Dmitri Trenin, do Centro Carnegie Moscou, por sua vez, ocupa-se mais com os aspectos positivos e propõe um mapa do caminho para a convergência eurasiana.

A parceria estratégica Rússia-China - do comércio de energia à defesa e ao desenvolvimento da infraestrutura - só se firmará cada vez mais, com a Rússia em movimento de pivô para leste, e a China, para oeste. Geopoliticamente, não significa uma Moscou subordinada a Pequim, mas um relacionamento cada vez mais simbiótico, trabalhosamente desenvolvido em múltiplos estágios.

Os BRICs - que já virou palavrão em Washington - já têm apelo muito mais global, e tanta influência quanto o já superado G-7. O Novo Banco de Desenvolvimento dos BRIC, pronto para entrar em operação antes do final de 2015, é alternativa chave para os mecanismos controlados pelo G7 e para o FMI.

A Organização de Cooperação de Xangai (OCX) deve incorporar Índia e Paquistão já na próxima reunião na Rússia, no verão, e a inclusão do Irã como membro oficial, pós-sanções, é negócio praticamente sacramentado para 2016. A OCX está finalmente desabrochando como fórum chave para a cooperação para desenvolvimento econômico/político e de segurança, para toda a Ásia.

A "Grande Europa" de Putin, de Lisboa a Vladivostok - que significaria UE + UEE - pode ter de esperar, enquanto a China super turbina sua Nova Rota da Seda por duas vias, por terra e marítima. Enquanto isso, o Kremlin se concentrará numa estratégia paralela - para usar capital e tecnologia do leste da Ásia para desenvolver a Sibéria e o Extremo Oriente da Rússia. O yuan será moeda de reserva em toda a Eurásia em futuro muito próximo, e o rublo e o yuan regerão sem tumultos o comércio bilateral.

O fator alemão

A "Grande Europa" de Lisboa a Vladivostok inevitavelmente depende de uma solução para o quebra-cabeça alemão. Os industriais alemães veem claramente as maravilhas de a Rússia garantindo à Alemanha - muito mais que à UE como um todo - um canal geopolítico e estratégico privilegiado para o Pacífico Asiático. Mas não se pode dizer o mesmo dos políticos alemães. A chanceler Angela Merkel, seja qual for a retórica, continua a dançar conforme a música de Washington.

A estratégia do Oleogasodutostão Russo já estava implantada - via os gasodutos Ramo Norte e Ramo Sul -, quando o vai-e-volta interminável da UE obrigou Moscou a cancelar o Ramo Sul e lançar o Ramo Turco (o qual, no fim, aumentará os custos da energia para a UE). A UE, em troca, teria acesso virtualmente gratuito aos imensos recursos e ao mercado interno da Rússia. O desastre na Ucrânia significa o fim de todos esses elaborados planos.

Alemanha já é a condutora de facto, da UE, desse trem econômico expresso. Como poderosa usina de exportações que é, a única via para que a Alemanha avance  não é rumo ao ocidente ou ao sul, mas rumo leste. Daí aquele portentoso espetáculo de uma orquestra de industriais salivantes, quando Xi Jinping esteve na Alemanha na primavera de 2104. Xi propôs nada menos que uma linha de trens de alta velocidade para conectar a Nova Rota da Seda, de Xangai a Duisburg e Berlin.

Ponto chave que os alemães não deixarão de ver: um ramo vital da Nova Rota da Seda é o remix da linha Transiberiana, para trens de alta velocidade. Uma das linhas do BRIC amarelo para Pequim e Xangai faz um pit stop estratégico em Moscou.

Esse Império do Caos...

A estratégia de Pequim de "Rumo ao Ocidente" por terra está abençoadamente livre de intromissões da hiperpotência - do remix da Transiberiana às rotas ferroviárias e rodoviárias através dos "-stões" da Ásia Central, direto até Irã e Turquia. Além disso, a Rússia a vê como uma simbiose, considerando resultado de ganha-ganha que os "-stões" da Ásia Central saltem simultaneamente para bordo da União Econômica Eurasiana e do que Pequim chama de Cinturão Econômico da Rota da Seda.

Enquanto isso, em outros fronts, Pequim toma o máximo cuidado para não antagonizar os EUA, hiperpotência reinante. Vejam por exemplo, essa entrevista bastante franca, mas também altamente diplomática, ao Financial Times, do primeiro-ministro chinês Li Keqiang.

Um aspecto chave da parceria estratégica Rússia-China é que os dois países veem claramente que a política exterior massivamente incoerente de Washington é o principal alimentador do caos - exatamente o que também acho que seja, como escrevi em meu livro Empire of Chaos.

No que tenha especificamente a ver com China e Rússia, é essencialmente caos, tipo dividir para governar. Pequim vê que Washington está tentando desestabilizar a periferia da China (Hong Kong, Tibete, Xinjiang), além de ativamente interferir nas disputas do Mar do Sul da China. Moscou vê que Washington está obcecada com a expansão infinita da OTAN e não deixará pedra sobre pedra, no esforço para boicotar todo o trabalho da Rússia a favor da integração eurasiana.

Daí, pois, a morte por abandono da estratégia geopolítica russa, de antes. Acabou trabalhar para se sentir incluída, como membro do clube da elite ocidental, tipo o G-8. Acabou buscar alguma parceria estratégica com a OTAN.

Sempre especialista competente em planejar bem, com antecedência, Pequim também vê que a incansável demonização não só de Putin, mas da Rússia como um todo é uma espécie de ensaio geral do que poderá ser aplicado, no futuro, contra a China.

Apresento-lhe os imponderáveis 

Estão abertas as apostas sobre como evoluirá o fatídico triângulo EUA-China-Rússia. Uma das possibilidades é que siga o seguinte padrão: os norte-americanos falam grosso e levam um carregamento de porretes; os russos não se intimidam e falam de volta, enquanto silenciosamente se preparam estrategicamente para uma longa e difícil transformação; os chineses seguem uma doutrina do "Pequeno Timoneiro" Deng Xiaoping modificada - conversam muito diplomaticamente, mas já não se dedicam a manter a crista baixa [orig. while no longer keeping a low profile].

Pequim já está a par do que Moscou anda sussurrando: Washington, a excepcionalista - declinante ou não - jamais tratará Pequim como igual ou respeitará interesses nacionais chineses.

No grande capítulo dos imponderáveis, aceitam-se apostas sobre se Moscou usará essa grave, tripla crise - sanções, guerra do preço do petróleo, desvalorização do rublo - para aplicar processos que mudem radicalmente o jogo e lançar nova estratégia de desenvolvimento econômico. Sessão de Perguntas e Respostas de Putin, pela televisão, embora carregada de respostas intrigantes, nada trouxe de muito claro sobre isso.

Outro grande imponderável é se Xi, armado com soft power [poder suave], carisma e muito, muito dinheiro, conseguirá pilotar simultaneamente a ligeira correção de rumo do modelo econômico e uma avalanche Rumo ao Oeste, de modo que não terminem por alienar os muitos parceiros potenciais da China para a construção das estradas da Nova Seda.

Um último super imponderável é se (ou quando, se algum dia) Bruxelas decidirá assumir um simbiose mutuamente combinada com a Rússia. Isso, em direção completamente oposta à atual postura de total antagonismo que vai além das questões geopolíticas. A Alemanha, sob Merkel, parece já ter escolhido continuar submetida à OTAN e converter-se, portanto, em ninharia estratégica.

Temos aqui, portanto, os prolegômenos de uma Ásia Expandida, de Xangai a São Petersburg - incluindo, crucialmente, Teerã - em vez de uma Eurásia Total, de Lisboa a Vladivostok. A Eurásia Total pode ter sido partida, ou está partida, pelo menos por enquanto. Mas a Ásia Expandida move-se com grande pique. Haverá um tsunami de esforços, pelos suspeitos de sempre, para parti-la em pedaços.

E isso será fascinante assistir a isso. Como Moscou e Pequim olharão para o ocidente - politicamente, comercialmente e ideologicamente - sem arriscar-se a uma guerra? Como lidarão com tamanha pressão? Como venderão a estratégia dos dois países a grandes fatias do Sul Global pelas mais variadas latitudes asiáticas?

Mas uma batalha, pelo menos, está ganha. Bye, bye Zbigniew Brzezinski! O seu sonho hegemonista de um grande tabuleiro de xadrez acabou.

18/4/2015, Pepe Escobar, Ásia Times Online
http://atimes.com/2015/04/eurasia-as-we-and-the-u-s-knew-it-is-dead/

 


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