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Onda de Protestos no Brasil: Primavera ou Massa de Manobra?

21.03.2016
 
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Onda de Protestos no Brasil: Primavera ou Massa de Manobra?

"A sociedade não se transforma, se não se transforma o ser humano, 

não o objeto mas aquilo que ele tem dentro da cabeça. Revoluções são culturais, ou não são tais"
Gustavo Pereira Prêmio Nacional de Literatura (Veneuela), 22.6.2013 (em entrevista à TV Telesur)

Desde que, em junho de 2013, milhares de brasileiros passaram a sair às ruas em massa para protestar em geral "contra tudo o que está aí" (discurso predominante), nenhum, absolutamente nenhum sociólogo tem sido capaz de explicar o fenômeno que envolve uma sociedade vítima do Estado que está, há décadas, no último lugar em gastos proporcionais com educação em todo o mundo. Se por um lado há total contradição nestes dois fatos que lançam inúmeros pontos de interrogação no ar, por outro faz todo o sentido a influência da CIA [aos mais desinformados pela mídia conservadora: trata-se de uma agência de Inteligência norte-americana que, reconhecidamente, aplica golpes de Estado nos mais remotos rincões do planeta, utilizando-se para isso, em diversos casos, de um velho e simples artifício: agitar sociedades internamente, jogando multidões às ruas para derrubar governos que, independente da orientação ideológica, contrariam os interesses do regime de Washington (pasmem!) e de seus parceiros, a nível global].

O próprio colunista da conceituada revista brasileira Caros Amigos, Gershon Knispel, observou no início de toda a efervescência social brasileira: "Quanto mais busco resposta nas inúmeras palestras de sociólogos que assisto, com mais dúvidas saio dali". Knispel sugeriu, como sempre fortemente embasado, que a agitação era artificial, com endereço bastante certo: Washington.

A onde de protestos no Brasil segue a mesma forma, idêntica de países que, comprovadamente, sofrem a Revolução Colorida formulada pelo cientista político norte-americano Gene Sharp (http://www.telegraph.co.uk/culture/film/filmmakersonfilm/8841546/Gene-Sharp-How-to-Start-a-Revolution.html). São vários e vários os fatores que apontam para tal revolução no Brasil, enquanto a tese de que se vive no país sul-americano uma Primavera é fragilíssima, para não dizer mesmo que é insustentável.

Envolvendo classes alta e média do Brasil, cidadãos saem às ruas repentinamente, sem nenhum tipo de liderança, e deixam as ruas por algum tempo da mesma maneira, de repente. Essas massas são conclamadas, via de regra, pela mídia conservadora e até pela própria classe política mais reacionária (ambas, paradoxalmente, sofrem de bem conhecido horror a protestos públicos, por questões óbvias). Exatamente assim, ocorreu às vésperas do fatídico 31 de março de 1964. Quem não se recorda ou desconhece a pauta canalha da mídia naquela época, e da tão reacionária quanto totalmente despolitizadaMarcha da Família com Deus, pela Liberdade?

Até o início das manifestações em junho de 2013, os índices de aprovação da presidente Dilma eram altos, acima dos 57%, repentinamente, passaram a cair vertiginosamente sem nada que motivasse de modo ao menos razoável tal queda. Mas junto dos protestos crescentes, enchiam as manchetes de jornais bombardeios contra o governo federal, recheados de verborragia e "previsões" de crise, política e econômica. Rebaixada à casa dos 30%, a aprovação ao governo Dilma seria o mais baixo desde Fernando Collor de Melo, ás vésperas de sua cassação em 2002.

Em agosto de 2013, a Câmara dos Deputados simplesmente conclamou a sociedade às ruas, sugerindo como suposto foco "eles [os políticos] não me representam". Outra grande curiosidade é que os meios de comunicação, um dos grandes promotores da atual onda de protestos, não raras vezes apresenta informações distorcidas do que ocorre nas ruas, cujas principais reivindicações, e aí vem outra curiosidade, jamais contrariam os interesses do regime norte-americano e dos sionistas, donos da mídia predominante internacional e dos grandes bancos (tais como defesa da Petrobras, da soberania contra a espionagem massiva pela comunidade de Inteligência dos Estados Unidos, por reforma política, regulação midiática, diminuição dos exorbitantes lucros bancários, reforma agrária, julgamento dos ex-ditadores militares e de políticos ligados a eles, etc).

Quanto à espionagem, vale recordar que o Brasil tem estado (por mera coincidência?) entre os países mais espionados em todo o mundo, desde a presidente da República até os mais comuns civis. Em determinados anos, segundo documentos revelados por Edward Snowden, o Brasil foi exatamente o mais vigiado do mundo. Para tanto, os meios eletrônicos funcionam, por mais fictício que possa parecer, como principal ferramente à CIA.

A cada novo mandato presidencial nos Estados Unidos, essa mesma CIA antecipa a geopolítica e a economia mundial ao novo ocupante da Casa Branca. Pois em janeiro de 2013, a agência de Inteligência norte-americana observou ao presidente Barack Obama, no relatório intitulado Global Trends 2030 - Alternative Worlds https://globaltrends2030.files.wordpress.com/2012/11/global-trends-2030-november2012.pdf (Tendências Mundiais 2030: Novos Mundos Possíveis),  que "[Os meios eletrônicos fornecem] uma capacidade sem precedentes para [os governos] vigiarem seus cidadãos".  

Pois tem sido através dessa vigilância, do controle e da manipulação de cidadãos sobretudo nas redes sociais e da injeção secreta de bilhões de dólares, que a CIA tem promovido revoluções coloridas mundo afora, como na tal Primavera Árabe: na Síria, segundo telegramas secreto emitidos pela Embaixada dos EUA em Damasco, intitulado Próximos Passos para uma Estratégia de Direitos Humanos, (http://wikileaks.tetalab.org/mobile/cables/09DAMASCUS306.html) foram aplicados nada menos que 12 bilhões de dólares entre 2005 e 2010, "investidos" em ONGs e em na mídia, a fim de "apoiar a reforma democrática" (leia-se derrubar o presidente Bashar al-Assad, já que o próprio documento, no final, registra a intenção dos porões da Casa Branca de "estabelecer um Senado que criaria o espaço legislativo para políticos da oposição trabalhar").

Outros trechos do documento secreto, que contam atividades culturais, midiáticos e em favor de ONGs por direitos humanos de fachada da CIA, dizem o seguinte: 

"(...) Envolvimento direto da Embaixada [dos EUA na Síria] em sua programação na sociedade civil. Como resultado, no Iniciativa de Parceria para o Oriente Médio e a Secretaria de Direitos Humanos e do Trabalho (DRL, na sigla em inglês) assumiram a liderança na identificação e no financiamento sociedade civil, e projetos de direitos humanos. Embora a Embaixada tenha tido participação direta em alguns desses esforços, especialmente com a DRL, a maior parte do programação tem prosseguido sem o envolvimento direto da Embaixada. (...)

"A DRL financiou quatro grandes programas específicos na Síria no último ano fiscal. Os beneficiados foram (1) Casa da Liberdade, a qual realizou várias oficinas para um seleto grupo de ativistas sírios, sobre 'mobilização estratégica cívica e de não-violência'; (2) a American Bar Association, que realizou uma conferência em Damasco em julho e, em seguida, continuou expandindo-se com o objetivo de implementar programas de educação legais na Síria, através de parceiros locais; (3) a American University, que realizou uma pesquisa na sociedade tribal e civil síria convidando os shaykhs [líderes religiosos, grifo nosso] de seis tribos para Beirute para entrevistas e treinamento, e (4) Entrevistas, que têm coordenado com o Arab Women Media Center a fim de apoiar acampamentos de jovens nos meios de comunicação entre os sírios em idade universitária, em Amã e Damasco.

 

"Também precisamos garantir que a programação aqui seja completamente coordenada, que a Embaixada tenha os recursos necessários para administrar os programas, e que os programas sejam compatíveis com as sanções econômicas norte-americanas contra a Síria."

 

Pois no Egito, na Líbia e na Síria, além da Venezuela, cabos liberados por WikiLeaks revelam a influência fundamental de Washington nas agitações sociais, da mesma maneira que tem sido feita na Síria.

 

Retornando ao caso do Brasil: até os mais desinformados e de mentalidade pautada pela grande mídia têm consciência hoje de que o Fez-Se Buque foi criado pela CIA, e que o sionista Mark Zückerberg é "laranja" da agência secreta norte-americana. Pois não é que o próprio Zückerberg, que não possui nenhum vínculo com o Brasil, apareceu repentinamente como um dos grandes incentivadores dos protestos maciços em 2013? Veja imagem dele abaixo com cartaz que diz, convocando a sociedade brasileira para sair às ruas: "Não é só pelos 20 centavos [do aumento da passagem de ônibus que se protesta]. Muda, Brasil!". Por coincidência ou não, foi ali mesmo no Fez-Se Buque que as agitações começaram no Brasil, e seguem até hoje. Assim como na "Primavera Árabe"

 

Nessa rede social, comprovadamente projetada e financiada pela CIA, logo que se iniciaram as maciças manifestações no final do segundo semestre de 2013, passou-se a surgirem milhares falsos perfis que recebiam dezenas de milhares de curtições, fazendo-os se proliferar e se tornar mais e mais populares, empurrando massas às ruas.

 

Sobre isso, observou o jornalista russo Nil Nikandrov em julho de 2013, no artigo Quem Agita o Brasil, e Por Quê", no sítio norte-americano Strategic Culture Foundation (http://www.strategic-culture.org/news/2013/07/01/who-is-shaking-up-brazil-and-why.html): 

 

"São bem conhecidos os laços que unem o início da carreira empresarial de Zuckerberg e a CIA. Os contatos foram muitos e sabe-se que a CIA financiou o início de seu negócio. Zuckerberg tem também contatos estreitos com a Agência de Segurança Nacional dos EUA [orig. U.S. National Security Agency (NSA)], os quais não são segredo para ninguém. Difícil acreditar que Zuckerberg tenha-se envolvido por iniciativa sua nos protestos no Brasil (e ainda mais difícil, que tenha passado, repentinamente, a preocupar-se com o preço dos transportes públicos por lá)."

 

Em julho de 2013, a própria rede de Tv venezuelana Telesur debatia em seu programa Mesa Redonda Internacional, a possibilidade e influência externa nos protestos que há um mês tiveram início. Em algumas entrevistas de brasileiros manifestantes à Telesur, muitos se atrapalhavam ao responder por que estavam nas ruas. Depois de muito pensar e olhar perdido, respondeu de maneira vaga: "Contra a corrupção". Outra, "contra tudo o que está aí".

 

Este vídeo abaixo, da Telesur, mostra fuzileiro naval à paisana infiltrado entre manifestantes, destruindo nada menos que o Palácio do Itamaraty a fim de gerar reação policial contra manifestantes, e o caos conhecido como Estratégia de Tensão:

 

https://www.youtube.com/watch?v=wvHqEw1NO4I

 

Tal prática, em nada isolada nos dias que sacodem o Brasil, tem sido sintomática no sentido de apontar influência externa nestas manifestações massivas do país. No vídeo abaixo produzido pelo jornal carioca A Nova Democracia, policiais com armas nas mãos apontam e intimam manifestantes; comandante da PM disse ser a favor do uso de armas de fogo para controlar os atos na cidade do Rio de Janeiro, em protesto contra o governador Sérgio Cabral por má administração e pelo hábito de sobrevoar a sociedade a bordo de helicópteros e jatos particulares.

 

https://www.youtube.com/watch?v=ys8iOiYBXHc

 

Outro ponto sintomático nesta atual festa da democracia nas ruas tupiniquins, é que o clamor dos principais organizadores têm sido retorno à ditadura militar de péssima memória. Proíbe-se, inconstitucionalmente, uso de camisetas vermelhas e de bandeiras de partidos políticos.

 

Antes de mais nada (e nada disso se discute no país por falta de conhecimento tanto quanto de "interesse", que se guarde essa palavra), a Constituição garante liberdade de ir e vir acompanhada da liberdade de expressão sem que o cidadão seja incomodado por isso. Nas manifestações de 2013, bandeiras de partidos foram queimadas por todo o país, e muitos portadores desses materiais acabaram agredidos verbal e fisicamente

 

Quanto à reação em cima de partidos políticos, outro aspecto negativo e que remonta ao golpe militar de 1964, do qual nenhuma lição foi tirada mais de 50 anos depois, vale ressaltar a anulação de partidos políticos, base da democracia e de debates públicos, é matéria-prima de regimes ditatoriais e totalitários. As manifestações poderiam ser apartidárias (talvez nestas circunstâncias hoje, já seja essencial a participação dos partidos para afirmar o Estado democrático), mas jamais anti-partidárias.

 

Não que os partidos brasileiros tenham desempenhado importante papel na "democracia" nacional, nem que sejam peça vital nas manifestações de rua hoje e nem sequer em uma ideal democracia em si, a participativa do povo, pelo povo, para o povo, muito pelo contrário: são sectários, politiqueiros, dominadores e corruptos em sua imensa maioria sendo, exatamente por isso tudo, muito mais obstáculo à ativa participação da sociedade na vida política do país que impulsores. Eis aí o sistema político brasileiro para falar por nós que necessita de reforma e de mais democracia, não de outro golpe contra ela.

O Ato Institucional 2, Artigo 18 de 27 de outubro de 1965 da ditadura militar (1964-1985), dizia: "A Revolução [ditadura militar] é um movimento que veio da inspiração do povo brasileiro para atender suas aspirações mais legítimas: erradicar uma situação e um governo que afundava o País na corrupção e na subversão [...]". Assim, foram extintos os partidos enquanto os militares apelavam para o discursos ufanisticamente patrióticos, "Brasil, ame-o ou deixe-o", Prá frente, Brasil!" etc, eliminando desta maneira a crítica e qualquer oposição (a "tática do nacionalismo" é tão antiga quanto a formação dos Estados, cujos exemplos mais recentes são o nazi-fascismo e Bush para eliminar todo e qualquer questionamento sobre as implicações do 11 de Setembro, e da subsequente "Guerra ao Terror", acusando os questionadores de apátridas, exatamente como se dava na época da Guerra Fria para colocar em descrédito quem contestava o sistema). 

A atual agressividade anti-partidária, em si mesma um ato político, pode nada mais ser que um meio disfarçado para que partidários ultraconservadores se apresentem e, como vem acontecendo, ganhem o controle da situação (exatamente o que ocorreu no golpe militar de 1964).

 

Outro fator profundamente sintomático é que meio a toda essa indignação seletiva contra a corrupção, quando se trata da oposição de direita trata-se como caso individual, porém quando se trara de políticos à esquerda do espectro político, o problema é considerado como sistêmico-partidário.

 

Pois os sintomas não param por aí tal fato nos remete ao fato que o espectro da direita está o PSDB, citado em cabos secretos liberados por WikiLeaks garantindo favorecimento aos interesses norte-americanos em relação à Petrobras no caso de vitória em eleições presidenciais (petróleo que é exatamente motivo de obsessão por parte do regime de Washington, e das artificiais "Primaveras" nos países mencionados mais acima).

 

Outra evidência - que não para por aqui, a lista é extensa - de que são artificiais estas ondas de protestos, é que a elitizada sociedade brasileira (em todos os segmentos) é tão reacionária e mal-informada (portanto, incapaz de mobilizações espontâneas e politizadas de tal magnitude) que não consegue enxergar cada um desses evidentes fatos, ou nenhum deles. Mas como disse Florestan Fernandes, "A elite brasileira sempre foi antissocial, antinacional e anti-de­mocrática".

 

"Povo que esquece seu passado, está condenado a vivê-lo novamente" (Nicolás Avellaneda, jurista argentino, 1837 - 1885). O mais grave é que no Brasil nem sequer se sabe, na maior parte dos casos, do passado nacional. Falar hoje, em meio a esse suposto senso de cidadania e patriotiotismo, nas implicações do golpe de 1964 é assunto de ignorância generalizada, bem como mal se sabe hoje quem foi João Goulart, presidente em momento dos mais importantes da história do Brasil não apenas por ter sido inconstitucionalmente derrubado pela ditadura militar, mas pelas políticas sociais que iniciaria, e pela defesa da soberania nacional que contrariava os interesses de Washington. 

 

Quanto ao PT, deveria ter se lembrado de que educação rende votos, sim, e muitos - a governos transparentes: quando vierem as tempestades, apoiar-se-ão na educação e na politização social para se sustentar. Azar dos deslumbres do poder: aí estão as massas de manobra, vítimas dos interesses da mídia grande que são os mesmos das classes dominantes e dos políticos mais conservadores, carentes de educação e de politização.

 

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Edu Montesanti é professor de idiomas, autor de Mentiras e Crimes da "Guerra ao Terror" (Ed. Scortecci, 2012), escreve para o Diário Liberdade (Galiza), para Truth Out (Estados Unidos), foi tradutor do sítio na Internet da ativista afegã pelos direitos humanos, Malalaï Joya, da ONG argentina Abuelas de Plaza de Mayo, e ex-colunista semanal do sítio na Internet do programa Observatório da Imprensa (TV Brasil). É editor do blog www.edumontesanti.skyrock.com

 


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