Pravda.ru

Mundo

A Cuba que eu vi

21.02.2008
 
Pages: 123

Se comparada com o resto da América Latina, Cuba é um avanço no que diz respeito aos índices sociais. No ano passado a taxa de crescimento da República Socialista do Caribe registrou 12,5% enquanto a média da América Latina ficou entre 5,3%. No setor educacional, de cada dez jovens cubanos, sete concluem curso superior em Universidade gratuita e de excelente nível.

“Infelizmente tornou-se clichê dizer que Cuba tem atendimento médico público de qualidade, que leva este auxílio a outros países, que mantêm cursos abertos a estrangeiros para que aprendam sobre seu sistema de saúde; ou que seus índices de analfabetismo estão entre os mais baixos do mundo. De tão clichê, isso parece ter perdido importância. O discurso de que a ilha vive uma ditadura é mais forte e tem mais apelo. É como se em cada país do mundo a ditadura contemporânea do mercado, do consumo e da estética não nos oprimisse. Ao discutir a ditadura cubana, não devemos esquecer o que é falso em nossas democracias, vide as últimas eleições dos EUA e a brutal farsa da última eleição mexicana.” me diz o historiador Lucas Neves.

A escola em Cuba é fator principal na articulação da sociedade. A educação no país é democrática, estatal e gratuita.

Em 1960, o governo resolveu combater o analfabetismo com toda a sua força. Decorrido um ano da vitória revolucionária foram criadas 4.680 salas de aula, com vários quartéis sendo convertidos em escolas. Assim ocorreu a primeira garantia real de combate ao analfabetismo: escola para todos.

As universidades de Cuba recebem um grande número de estudantes estrangeiros. A bolsa prevê a concessão de moradia no país, alimentação e estudo gratuitos.

Atualmente; dentre os 9.600 matriculados na Escola Latino-americana de Medicina, muitos são de 19 países latino-americanos e 4 nações africanas.

O governo brasileiro não reconhece automaticamente os diplomas cubanos, mas estuda uma solução para o caso. Nelson Maculam, secretário de educação do MEC, diz que Cuba merece um tratamento especial, pois outros países não dão bolsa para brasileiros e devemos valorizar a ajuda que Cuba nos está dando.

No mercado negro, os produtos, em geral roubados das fábricas ou contrabandeados dos centros de distribuição e restaurantes estatais, são bem mais baratos. E como em qualquer lugar do mundo, a ilegalidade na ilha rende dinheiro. O charuto Cohiba, marca famosa cubana que é vendido a 385 dólares a caixa em lojas, nas ruas chega a 25 dólares. “Não é falsificado, trabalho na fábrica”, explica o rapaz que me oferece uma caixa ilegal ao reparar que eu observava os charutos numa vitrine de loja.

Quando vou tentar remarcar a data de meu vôo, um senhor na fila observa meu sotaque e pergunta se sou brasileira. Ele apresenta-se e logo engatamos uma longa conversa em um dos cafés de Havana. Seu nome é Rubén Carthy, 55 anos e músico. É cubano, casado com uma brasileira e mora em São Paulo , onde trabalha em apresentações de jazz.

Rubén não consegue e nem parece querer disfarçar sua indignação. Com os olhos cheio de lágrimas diz: “É a primeira vez que volto a Cuba em vinte anos. O que vejo me deprime. Meus amigos, os que eram contra o governo, estão desaparecidos e ninguém sabe deles. Os outros estão com aspecto sofrido, mal cuidado e envelhecido. Posso falar o que penso porque não moro aqui, eles não. Apoiei a revolução e servi pelo exercito cubano em Angola. É triste ver no que Cuba transformou-se. Estou contando os dias para ir embora. Vou lhe dizer uma frase: Se o mar virasse gelo não restaria um cubano aqui, pois todos sairiam correndo.”

Rubén acompanhou-me até o hotel e antes de ir embora destacou: “Não esqueça, se por acaso quiser comprar charutos pelo mercado negro eu consigo quem pague 600 reais pela caixa.”.

O acesso à internet em Cuba é limitado e também há um controle sobre os programas televisivos.

Segundo José Alves que morou no país e foi tradutor do Granma, o conteúdo dos meios de comunicação em Cuba é voltado a outros valores.

“É muito fácil dizer que há liberdade em outros países. Você pode trocar os canais de notícias da televisão colocando em CNN, FOX, ou outro qualquer que as notícias são exatamente as mesmas.” destaca José Alves.

O cientista social Clayton Mendonça esteve na ilha socialista em fevereiro deste ano e disse reconhecer que a vida de um cubano é relativamente dura. Segundo ele os salários são baixos e por conta do bloqueio as coisas são caras. O transporte público também chamou sua atenção de forma negativa.

“Seria muito fácil concluir que Cuba é um fracasso e melhor seria restaurar o capitalismo, mas isso porque eu tive a sorte de nascer na classe média. Lá há saúde e educação de qualidade para todos e ninguém passa fome. Pode não haver luxos, mas todos têm uma casa digna, favelas com esgoto a céu aberto como
aqui não tem. Nosso transporte público pode ser melhor, mas não está ao alcance de todos: muitos não utilizam porque não podem pagar.” Conclui Clayton.

Cuba é um lugar polêmico e cheio de contrates. A sociedade cubana está fragilizada. Sabe que vive um período de transição e teme o futuro.

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular