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Caso Madeleine: Um caso de estudo

20.09.2007
 
Caso Madeleine: Um caso de estudo

O caso Madeleine McCann vai constituir um caso-estudo em várias disciplinas, sempre pelas piores razões. Como pode o desaparecimento de uma menina indefesa resultar quase numa batalha campal entre portugueses e ingleses, uma verdadeira guerra mediática entre os órgãos de comunicação social, um estado de “nós” e “eles” com acusações baratas, insultos, mentiras e coscuvilhice a serem vendidos como “a verdade”? Aonde foi a decência comum?

O caso Madeleine McCann vai constituir um caso-estudo em várias disciplinas, sempre pelas piores razões. Como pode o desaparecimento de uma menina indefesa resultar quase numa batalha campal entre portugueses e ingleses, uma verdadeira guerra mediática entre os órgãos de comunicação social, um estado de “nós” e “eles” com acusações baratas, insultos, mentiras e coscuvilhice a serem vendidos como “a verdade”? Aonde foi a decência comum?

A tragédia: Madeleine McCann desapareceu no dia 3 de Maio na Praia da Luz, Algarve, Portugal.

Ora bem, passados 4 meses e meio, vejamos em que estado fica esse lamentável caso. Depois de um período de graça, em que o mundo inteiro se uniu atrás dos país, constituindo um fundo milionário para compensar quem oferecesse informações quanto ao paradeiro da menina, outro fundo para pagar as despesas dos McCann em acções para procurar a filha, outro para pagar as despesas legais, visitas ao Papa, ao Primeiro-Ministro do Reino Unido e ao Presidente dos Estados Unidos, torneios em vários países europeus, a constituição de um website que deve ter batido todos os recordes em termos de hits em tão pouco tempo…agora, vaias, apupos, acusações vazias sem qualquer fundamento ou prova que foram os próprios pais a matarem sua filha.

Quantos leitores não terão dito ou pensado “Sempre achei aquela mulher estranha! Não era normal a reacção dela, o marido deve estar a protegê-la!” Mas o que é comportamento “normal” quando uma mãe perde a filha de três anos? Alguns ficariam em casa a chorar, outros percorreriam as ruas a fazer uma exteriorização pública da sua dor. Outros, fecham-se e interiorizam os sentimentos, demonstrando um exterior frio, escondendo mas vivendo de forma particular o vulcão de emoções lá dentro. Alguns chamam-na a fleuma inglesa.

Seguindo o preceito de que qualquer pessoa é inocente até ser considerado culpado, depois de um devido processo legal, é de lamentar as mentiras publicadas em jornais e apresentadas como factos em canais de televisão, que viram neste caso não a tragédia de uma família mas sim uma maneira de vender exemplares e aumentar os ratings. As provas contra os McCann continuam a ser tão poucas que não há de momento qualquer plano para os interrogar. Os testes ainda não foram concluídos (a saber, como é que os EUA apresentaram a prova do ADN de Saddam Hussein em tão poucas horas quando no caso de Madeleine, está a levar meses?) e os vestígios encontrados não são conclusivos.

Cães pisteiros, de acordo com um estudo recente norte-americano, são muito pouco eficazes e se enganam muito – testes recentes revelaram uma taxa de eficácia de apenas 20 a 38 por cento. Peritos em ADN no Reino Unido declaram que nada daquilo que foi apresentado até hoje condena os McCann e que seria de esperar haver matéria genética da menina nos sítios onde foi encontrada.

Sem um corpo, qualquer título como “Vocês deram sedativos às crianças?” é um absurdo e todo o resto, pura especulação sem qualquer fundamento legal ou científico. Os órgãos da média que espalharam esse fofoquice, chegando ao ponto de entrevistar como fontes pessoas que disseram que “ouvi alguém dizer”, “o padeiro disse”, “minha cunhada disse que ouviu as pessoas dizerem que…” desceram à estaca zero em termos de jornalismo, profissionalismo e decência humana.

E se os McCann são inocentes?

Entre os pontos mais salientes, como é que os McCann poderiam andar por aí a carregar cadáveres cinco semanas depois do desaparecimento da filha, quando mal saíam de casa, tinham 345 papparrazzi nos calcanhares? Como é que as roupas da mãe poderiam ter estado em contacto com um cadáver, a não ser que a filha fosse morta muitas horas antes “daquele jantar”? Faz algum sentido os pais, um cardiologista e uma médica de clínica geral, estarem a jantar normalmente com os amigos e a irem ver se os filhos estavam bem, de meia em meia hora?

E qual o fundamento dos boatos (não passam disso) que Gerry não é pai da Madeleine, que os filhos foram fertilizados in vitro, que Kate era uma mãe dura e que castigava os filhos, que eram “swingers” e trocaram de parceiros sexuais? O que mataram a sua filha?

Também do lado britânico, insinuações que a Polícia Judiciária não fez o suficiente são absurdas, porque a PJ é talvez uma das melhores formações policiais e tem muita experiência em casos de crianças desaparecidas, pois como no Reino Unido, há centenas destes casos todos os anos. A PJ fez deslocar mais que uma centena de detectives à zona, cancelou férias e fez o que pôde para encontrar a menina.

Mas se a Madeleine tinha sido levada para fora de Portugal após o rapto, não se pode encontrar o que não existe. Se os pais de Madeleine forem levados a um tribunal no futuro, baseado em provas científicas e não boatos, se forem julgados e considerados culpados, então que o sistema caia por cima deles. Porém, a atitude mais correcta e decente seria seguir a norma de que são inocentes até então. E sendo assim, não será que já sofreram o suficiente?

Haja dó, haja decência.

Timothy BANCROFT-HINCHEY

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