Pravda.ru

Mundo

Sobre a perigosa estratégia do Presidente Obama

20.04.2009
 
Pages: 123
Sobre a perigosa estratégia do Presidente Obama

Miguel Urbano Rodrigues: Cumpridos os primeiros três meses na Casa Branca, Barack Obama continua em estado de graça. Sobre o jovem presidente negro chovem elogios.

Uma máquina de propaganda bem concebida conseguiu que a promoção do sucessor de George Bush adquirisse características inéditas. Não somente assumiu proporções mundiais como a maioria dos epígonos é sincera na apologia do novo herói americano, não se apercebendo de que o coro dos elogios é estimulado por uma engrenagem made in USA.

No auge de uma gigantesca crise do capitalismo, inseparável de uma crise de civilização, Obama é apresentado como o sucessor dos pais da Pátria do final do século XVIII, o líder providencial sobre cujos ombros caiu a missão de salvar a humanidade dos perigos que a ameaçam, tarefa que somente o seu país, os EUA, poderá liderar e concluir com êxito.

O quase endeusamento do salvador é acompanhado por uma ofensiva mediática paralela sobre as virtudes do exemplar chefe de família. A esposa e as filhas tornaram-se tema de reportagens apologéticas na TV, na Internet e na grande imprensa. Até o cão das meninas inspirou artigos que correm pelo mundo.

Essa poderosa orquestração promocional empurra o cidadão comum, de Washington a Tóquio, de Brasília ao Cairo para a conclusão de que, afinal, o destino da humanidade depende hoje muito mais da grandeza de um homem excepcional que do quefazer dos povos.

Desmontar essa campanha e chamar à realidade centenas de milhões de pessoas que por ela são confundidas é, creio, um dever dos intelectuais progressistas.

Do mito à realidade

Barack Obama é um homem inteligente, mais honesto e bem intencionado do que a quase totalidade dos presidentes que o precederam.

Acredito que há meia dúzia de anos não lhe passaria pela cabeça a ambição de chegar à Casa Branca. Foram as circunstâncias e o seu grande talento oratório na comunicação com as massas que contribuíram decisivamente para que esse mestiço, filho de um imigrante de Quénia, fosse eleito presidente dos EUA.

Um factor importante pesou na vitória tida por impossível quando nas primárias disputou a candidatura pelo Partido Democrata: a sua experiência como senador proporcionara-lhe um conhecimento aprofundado da sociedade estadunidense e do sentimento de aversão do americano médio pelas engrenagens apodrecidas do Poder, em Washington.

Esses trunfos, muito importantes, não bastam, porem para transformar quase de um dia para outro o ex – senador pelo Illinois num estadista super dotado.

O apoio ostensivo do grande capital foi determinante para a eleição de Obama no contexto de uma crise do sistema mais complexa e profunda do que a iniciada com o crash de Wall Street em 1929.O mundo da Finança preferiu o politico que prometia mudar tudo ao republicano McCain, comprometido com a herança de Bush.

Os sacerdotes do dinheiro não são ingénuos.

Transcorridos três meses, o Presidente que popularizou os slogans «Sim, nós podemos!» e «Sim, é possível!», mudou muito pouca coisa.

Obama cultiva um populismo sem precedentes na Casa Branca.

O esboço de um grande futuro que ele ajudará a construir é uma constante no discurso retórico em que a ambição do projecto ganha credibilidade pelo tom humanizado do estadista pessoalmente desambicioso, inconformado com o sofrimento dos seus compatriotas pobres e decidido a materializar o velho sonho de uma paz perpetua na Terra, erradicando dela os flagelos do terrorismo e da guerra.

Mas, em vésperas de festejar os 100 dias, os actos do Presidente não correspondem às promessas e à esperança que suscitou.

No plano interno, na área estratégica da Economia, Obama formou um gabinete com alguns dos mais destacados cérebros que conceberam a desregulação do sistema financeiro dos anos 90, estopim da borbulha especulativa cujo estouro gerou o pânico no mundo do capital. Três dos colaboradores a quem tinha confiado postos-chave da Administração tiveram de renunciar por estarem envolvidos em escândalos. Outros, como Paul Volcker, Lawrence Summers e Timothy Geithner, não escondem uma fidelidade granítica ao neoliberalismo e às grandes transnacionais e bancos que o Estado se esforça por salvar da falência.

Afirmando que comparecia na Cimeira do G-20 sobretudo para ouvir e recuperar a confiança de velhos aliados, o Presidente Obama fez aprovar em Londres, no fundamental, a estratégia que a maioria dos Europeus, sobretudo Sarkozy e a chanceler Merkel recusavam.

Os 750 mil milhões atribuídos ao FMI e os 250 mil milhões de apoio a direitos especiais de saque, bem como os 100 mil milhões destinados ao Banco Mundial e a outros bancos confirmaram que a politica de socorro aos bancos e banqueiros corruptos, responsáveis pela crise, vai prosseguir, nela cabendo um papel importantíssimo à instituição financeira que comandou a imposição do neoliberalismo em escala mundial.

No tocante à política internacional, Obama, longe de trabalhar pela paz, não se desviou até agora da linha belicista da Administração anterior, traçada pelos neoconservadores bushianos.

Hillary Clinton, à frente do Departamento de Estado, está a desempenhar o papel que dela se poderia esperar. O seu sorriso permanente e o discurso recheado de promessas ocultam mal as suas posições de conservadora empenhada em aplicar com firmeza o conselho de Lampedusa no Il Gatopardo: mudar na aparência alguma coisa para que tudo fique, afinal, na mesma.

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular