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Estratégia continental

20.03.2008
 
Estratégia continental


Boaventura de Sousa Santos


SOBRE A INCURSÃO do Exército colombiano em território do Equador para eliminar um grupo de guerrilheiros das Farc parece estar tudo dito, tanto mais que é um caso encerrado -e bem encerrado. Na verdade, assim não é. O que sobre ela se revela é tão importante quanto o que se oculta.


Primeira ocultação: os processos políticos na América Latina estão pondo em questão o controle territorial continental que os EUA precisam para garantir o livre acesso aos recursos naturais do continente. Trata-se de uma ameaça à segurança nacional dos EUA que, perante o iminente fracasso das respostas "consensualizadas" (comércio livre e concessões de bases militares), tem de ter uma resposta musculada e unilateral. Ou seja, a guerra global contra o terrorismo chega ao continente -chegou com o Plano Colômbia, mas a "deriva" no Oriente Médio provocou algum atraso- e assume aqui as mesmas características que tem assumido em outros continentes:


1) utilizar um aliado privilegiado -seja Colômbia, seja Israel, seja Paquistão-, a quem ao longo dos anos são fornecidas ajuda militar e informação de espionagem sofisticada que o põem ao abrigo de represálias e lhe permitem ações dramáticas de baixo custo e êxito certo;


2) incitá-lo ao isolacionismo regional como preço a pagar pela aliança hegemônica. A guerra contra o terrorismo inclui ações de grande visibilidade e ações secretas. Entre estas estão os atos de espionagem e de desestabilização de que a Bolívia, a Venezuela e a tríplice fronteira (Paraguai, Brasil e Argentina) são os alvos privilegiados. Na Bolívia, bolsistas norte-americanos da Fundação Fulbright são chamados à Embaixada dos EUA para dar informações sobre a presença de cubanos e venezuelanos e movimentos suspeitos dos indígenas, enquanto os separatistas extremistas de Santa Cruz são treinados na selva colombiana por paramilitares. Fato novo: nas ações de desestabilização, podem participar empresas militares e de segurança privadas, contratadas pelos EUA ao abrigo do Plano Colômbia, dotadas de imunidade diplomática e, portanto, impunidade perante a Justiça nacional.


Segunda ocultação: a verdadeira ameaça não são as Farc. São as forças progressistas e, em especial, os movimentos indígenas e camponeses. De fato, a permanência das Farc é fundamental para manter a justificativa da guerra contra o terrorismo e criar o clima de medo e a lógica belicista que bloqueiam a ascensão das forças progressistas, nomeadamente do Pólo Democrático na Colômbia. Pela mesma razão, a intervenção humanitária a favor dos reféns teve de ser dinamitada para que dela não tirasse dividendos políticos Hugo Chávez.


As forças políticas progressistas ameaçam a dominação territorial dos EUA com medidas que procuram fortalecer a soberania dos países sobre os recursos naturais e alterar as regras de repartição dos benefícios da sua exploração. Mas a maior ameaça provém daqueles que invocam direitos ancestrais sobre os territórios onde estão esses recursos, ou seja, dos povos indígenas. É eloquente a esse respeito o relatório "Tendências Globais 2020", do Conselho Nacional de Informação dos EUA, sobre os cenários de ameaça à segurança nacional do país. Nele se afirma que as reivindicações territoriais dos movimentos indígenas "representam um risco para a segurança regional" e são um dos "fatores principais que determinarão o futuro latino-americano".


"No início do século 21, há grupos indígenas radicais na maioria dos países latino-americanos, que em 2020 poderão ter crescido exponencialmente e obtido a adesão da maioria dos povos indígenas (...) Esses grupos poderão estabelecer relações com grupos terroristas internacionais e grupos antiglobalização (...) que porão em causa as políticas econômicas das lideranças latino-americanas de origem européia."


À luz disso, não surpreende que o presidente do Peru se pergunte "se não haverá uma internacional terrorista na América Latina". Tão pouco surpreende que já hoje centenas de líderes indígenas do Peru e do Chile estejam incriminados ao abrigo de leis antiterroristas promulgadas nesses e noutros países (por pressão dos EUA) por defenderem os seus territórios.


A estratégia está, pois, delineada: transformar os movimentos indígenas na próxima geração de terroristas e, para os enfrentar, seguir as receitas indicadas no relatório: tolerância zero; reforço das despesas militares; estreitamento das relações com os EUA. A responsabilidade das forças políticas progressistas é fazer com que essa estratégia falhe.


BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 67, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de "Para uma Revolução Democrática da Justiça" (Cortez, 2007).


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