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Fábula no Atacama (Parte 1)

20.02.2016
 
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Resolvi escrever uma fábula ambientada no Deserto do Atacama. Pensei num diálogo entre um urubu e um preá agonizante. Já estava tudo fantasiado, porém foi aí que pintou uma dúvida assaz atroz: não sei se no Atacama existem preás e urubus. Dizem que, nos oásis e margens das lagoas, podem ser encontrados flamengos, lhamas, guanacos e outras espécies. Bom, nesses locais, pode-se encontrar tudo isso, creio que até preá. Urubu, jamais; pois sabe-se que urubu prefere lugares mais hostis, onde preás morrem de fome e sede. Além disso, oásis não é deserto, é desvio de conduta, como a honestidade no meio político. 

Fernando Soares Campos
Pensei em exportar alguns urubus pra lá. Botei fé na verve e dedos no teclado: "Xô! Xô! Xô!", espantei uma meia dúzia, afinal, a viagem é longa, e um urubu só não faz. Verão. 

Nada. Só consegui fazê-los alçar voo e ficar lá em cima planando em espiral e corujando a gente aqui embaixo. 

Liguei para um amigo, falei das minhas intenções, ou pretensões, literárias e pedi sugestão sobre como levar uns três urubus até o Deserto do Atacama. 

- Como é que eu faço? 

- Digite "teco-teco". 

 
- Pronto, digitei "teco-teco". 

- Agora, em vez daquelas faixas que os teco-tecos rebocam, digite "galinha morta". 

- Tá digitado, "galinha morta". E daí? 

- Amarre a galinha numa corda de uns vinte metros, presa à cauda do teco-teco, e decole rebocando a isca. 

- Saquei! Obrigado, amigão. 

- Cara, não se diz mais "obrigado". É "valeu". 

- Tudo bem, valeu, cara! 

Com uma galinha morta a reboque, decolei do aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, com destino ao Chile.

 

Depois de quinze minutos de voo, olhei pra trás. A corda esticadinha. Lá na ponta, uma galinha planadora, linda, leve e solta, apesar de espetada num arame anzolado. 

"Quando a gente cruzar os Andes, vai arrastar uma revoada de condor excitado."

 

Epa! E os urubus?! Cadê-los?! (Se esse texto fosse de escritor consagrado, ia virar objeto de interpretação nos cursinhos pré-enem, e os professores classificariam o uso do "cadê" como "verbo de interrogação"). Os urubus continuavam lá distante, espiralando numa corrente aérea qualquer. A galinha não provocou o menor tesão no pedaço. 

Aterrissei e liguei novamente para o meu amigo diqueiro. 

- Cara, não valeu, não! Os urubus não deram a menor bola pra galinha. 

- Você levantou voo hoje mesmo?! 

- Claro, tenho pressa! Quero mandar, ainda hoje, o primeiro capítulo da fábula para a editora. 

- Assim não dá! Você precisa dar um tempo, pelo menos uns dois dias, até a galinha apodrecer. Urubu só se interessa por putrefatos. 

- Valeu! 

Digitei: "Uma semana depois..." 

Decolei o teco-teco rebocando a galinha bichada. A duzentos pés de altitude, dei uma olhada em volta, a fim de localizar os urubus e atraí-los rumo ao Atacama. Céu mais limpo! Olhei pra trás e só vi a corda tremulando. Porém, lá embaixo, no final da pista, vi uma mancha preta se movimentando. Mais de não sei quantos urubus estraçalhando a carniça!

Aterrissei. 

Liguei para outro amigo escritor; este, gaúcho radicado aqui no Rio de Janeiro; na época, ele habitava os bares e botecos cariocas, ainda não havia cantado pra subir.

Falei da minha intenção de transportar uns três urubus até o Atacama, onde pretendia escrever uma fábula tendo como personagens um preá agonizante e um urubu faminto. Contei sobre a minha frustrada tentativa de atrair os urubus com uma galinha podre e tal. Até protestei: 

- Porra! Se fosse o Veríssimo, esses voluntários da defesa sanitária já estariam lá, e ele já teria escrito a fábula. 

- Mas, do Veríssimo, tu só tens o Fernando. Ainda falta muita letra pra tu chegares lá, tchê! 

- Já é alguma coisa... 

- Mas vou te dar uma dica. Já que se trata de uma fábula, urubu sabe ler. Então tu não precisas de isca natural. 

- Como assim?!

- Tu já tens o teco-teco digitado, o aeroporto, os urubus e até plano de voo. Confere? 

- Tá tudo aqui na tela do monitor. 

- Digita "faixa". 

- "Faixa". 

- Bom, agora... 

Aí o amigo mandou todas as coordenadas: faixa de cambraia, largura, comprimento e nome da isca na cor marrom. Escrevi, e ele finalmente recomendou: 

- Decole com a faixa enrolada, só deve soltá-la quando atingir uns quinhentos pés de altitude. 

- Valeu! 

Pronto. Tudo nos conformes, decolei. O teco-teco atingiu a altitude ideal. Soltei o laço do barbante que mantinha o rolo de cambraia preso à cauda. Deflagrou-se a faixa com o nome da isca. Dois minutos de voo e eu já estava sobrevoando o oceano. Olhei pra trás.

 

"Não! Cadê a cidade?!" 

Tremenda tempestade se aproximando. Era uma nuvem só! "Esse toró vai me pegar!" Não, nada disso! Tempestade coisa nenhuma! Era tudo urubu! Nunca vi tantos numa só revoada. Revoada? Não! Revoada é de ave com pedigree. Urubu é bando. 

 

Avante, um céu de almirante; lá embaixo, um mar de brigadeiro; à ré, uma umbrática visão... quer dizer, "urubrática". Milhares de urubus! Acho que exagerei na isca artificial. Olhei pra ela, senti náuseas. Adernei a boreste e vomitei. Parte da urubuzada mergulhou atrás do vômito.

 

"Eca! O meu amigo poderia ter sugerido alguma coisa menos nojenta. Esse troço é muito asqueroso!" 

Os urubus mais malhados já estavam bem próximos. Acelerei, velocidade máxima, deixando pra trás tudo quanto é vírgula, ponto, ponto-e-vírgula, parênteses, o escambau... 

Se no Atacama não tiver preá legítimo, deve ter pelo menos algum roedor parente. E daqui pra lá esse bando de urubu vai diminuir, os mais fracos vão cair no oceano. 

"Oceano?!"

Peralá! Estou indo pra África! Chegar no Atacama por aqui, só se eu der a volta à Terra! Essa geringonça não tem autonomia pra isso! Se eu deletar "teco-teco" e digitar "jatinho", os carniceiros não vão conseguir me acompanhar. Preciso voltar, pegar a rota oeste. Aí pintou um baita problema: se eu der uma guinada de 180 graus, vou estourar o teco-teco na nuvem de urubu. Olhei pra trás, observei que considerável parte do bando havia desistido, já dava pra ver grandes falhas na nuvem. Buracos brancos. Acho que entenderam que é pouca carniça pra muito bico. 

Resolvi arriscar, guinei a bombordo e mirei num espaço vazio. Vupt! Mergulhei. Senti o maior alívio quando vi a cidade do Rio de Janeiro lá na frente. Maravilhosa! Quando pousei, os urubus fizeram a farra, não sobrou um fiapo da isca artificial. 

À noite, avaliando a minha malograda tentativa de atrair urubus até o Atacama e usar um deles como protagonista da minha fábula, concluí que fui salvo pela pressa e pelo escasso material de que dispunha.

 

Explico.

 

Como vocês leram e talvez sentiram, milhares de urubus desistiram do banquete porque entenderam que, apesar de ser uma considerável porção, a apetitosa carniça não ia dar para todos. Também houve aqueles que se contentaram com o vômito. Foi aí que apareceram os buracos brancos, e através de um deles mergulhei o teco-teco de volta ao aeroporto. Acontece que, devido à minha pressa para chegar no Atacama, escrevi o nome da repugnante isca abreviadamente. Usei pequena quantidade de dejetos e pintei apenas CONG. NAC.

 

Todos sabemos que nem todo urubu pode deleitar-se com tão requintada iguaria, muitos se conformam em degustar ASSEMB. LEGIS., PREF. MUNI., ou mesmo uma popular CAM. DE VER. Tem gosto pra tudo.

 

 

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoon

 


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