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Jovens cubanos e mentiras da Globo

20.02.2008
 
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Jovens cubanos e mentiras da Globo

por Altamiro Borges*

Na semana passada, os vários telejornais da emissora fizeram alarde com um vídeo em que alunos da Universidade de Ciências Informáticas (UCI) de Havana aparentemente criticam duramente o regime cubano e o socialismo. Reproduzindo acriticamente o noticiário estadunidense, a ex-toda poderosa TV Globo informou que dois universitários teriam sido presos logo após a difusão do “incidente”. No seu afã anticomunista, ela sequer conferiu as fontes. “O vídeo, de quase uma hora de duração, mostra o desencanto da juventude”, decretou.

Na verdade, o episódio ocorreu em 19 de janeiro e só agora foi amplificado e manipulado pela mídia hegemônica. Tratou-se de uma reunião do presidente do Assembléia Nacional, Ricardo Alarcón, com os alunos da UCI, um projeto avançado de informatização do país. O vídeo não foi feito às escondidas, como insinua a TV Globo, mas sim transmitido livremente para os dez mil estudantes da escola. Ele retrata um debate natural, democrático, entre os jovens e o deputado, no qual são feitas críticas às dificuldades de Cuba – coisa comum de se ouvir nas ruas desta nação rebelde e irreverente. Não há qualquer repressão ou demonstração de “desencanto da juventude”.

Manipulação e silêncio criminoso

A mentira da TV Globo é tão grotesca que ela nem divulgou a entrevista de Eliécer Ávila, o tal universitário preso, que apareceu recentemente, livre e faceiro, zombando das manipulações da mídia. Num outro vídeo, que a Rede Globo não transmitiu em horário nobre, o aluno afirma que o encontro com Alarcón tratou dos problemas da juventude e que as críticas foram no sentido do “fortalecer a construção do socialismo cubano”. Segundo a Agência Reuters, Eliécer se mostrou indignado com as intrigas divulgadas, inclusive sobre a sua prisão. “Tudo o que estão dizendo é uma mentira total, que desvirtua o que opinamos... Agora me dei conta da maquinaria da mídia”.

A TV Globo também não repercutiu o protesto público dos alunos da UCI contra o “terrorismo midiático”. Também não registrou para os seus incautos telespectadores um manifesto assinado pelos estudantes, professores e demais trabalhadores da universidade que condena “a grosseira e mal-intencionada manipulação dos principais meios de comunicação do imperialismo e de seus lacaios”. O documento informa que 99% dos alunos e funcionários da universidade votaram na eleição cubana de janeiro. “Ratificamos a nossa inquebrantável disposição de cumprir qualquer tarefa da revolução e de continuar lutando para merecedor integrar a sua tropa do futuro”.

“Invasão militar da Venezuela”

Já em dezembro passado, o programa Fantástico, que se vangloriava de ser um dos campeões de audiência do país e hoje está em declínio – talvez devido ao seu péssimo jornalismo - apresentou reportagem provocativa intitulada “Brasil está preparado para a guerra contra a Venezuela”. Nos dias que antecederam ao programa, chamadas sensacionalistas incitavam: “Como reagiriam os brasileiros a uma invasão militar da Venezuela ao nosso país?”. De forma grotesca, repórteres sem escrúpulos percorreram as ruas de Pacaraima (RR), cidade na fronteira com o país vizinho, num carro decorado com as cores nacionais, convocando a população a se “alistar para a guerra”, fomentando o clima de hostilidade entre nações amigas, que têm vários acordos de cooperação.

A reportagem ridicularizou Hugo Chávez, apresentando-o como um militar truculento, e também ofendeu Evo Morales, tratado como “fantoche”, e o presidente Lula, taxado de omisso diante do risco da invasão. Numa mentira deslavada, afirmou que os venezuelanos possuem “a maior força bélica da América Latina” – quando se sabe que seu contingente e equipamentos são inferiores aos do Brasil e Colômbia. No final, os apresentadores do Fantástico ainda provocaram: “Se o tempo fechar entre Brasil e Venezuela, será que estamos preparados? Qualquer movimento estranho na fronteira, ligue para Brasília e reclame com o síndico”. Não por acaso, o programa foi ao ar quando Lula visitava os dois países citados para firmar acordos de cooperação.

O ocaso da “Vênus prateada”

Diante da vil manipulação, que fere os preceitos constitucionais favoráveis à integração regional, Ivan Pinheiro, dirigente do PCB, entrou com representação no Ministério Público Federal contra a TV Globo. Além de exigir o direito de resposta aos três governantes ofendidos, a representação requer que a Justiça analise a transgressão das leis que regulam a concessão pública de emissoras de televisão, “estudando a possibilidade de se postular a aplicação de sanções”. No mesmo rumo, intelectuais e lideranças populares redigiram um abaixo-assinado solicitando que o governo Lula tome as providências cabíveis contra as grosseiras e corriqueiras manipulações desta emissora.

Por estas e por outras, a ex-toda poderosa TV Globo perde audiência e prestígio no país. Hoje ela já não conta com a “inocência” do governo Lula, que investe na rede pública, é acuada por outras emissoras, em especial pela Record, e teme os efeitos da chamada “invasão” das multinacionais das telecomunicações no processo de digitalização das imagens. Apesar do reconhecido “padrão Globo de qualidade” e mesmo do seu papel na produção da cultura nacional, a empresa atravessa a pior crise da sua história. A linha editorial dos seus programas jornalísticos, sob o comando do direitista Ali Kamel, e até da sua teledramaturgia ajuda a entender o acaso da “Vênus prateada”.


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