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Intimidação de Jornalistas na Bolívia Atinge Pravda.ru

19.11.2019
 
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Intimidação de Jornalistas na Bolívia Atinge Pravda.ru

"Eles estão me vigiando", comentou no domingo de madrugada este jornalista com diretor de Pravda Brasil. Ao longo da segunda-feira, constatou-se que ambos os contatos estavam interceptados

Edu Montesanti

  

  

  

Está caótica a situação na Bolívia. O próprio presidente russo, Vladimir Putin,  chegou a comparar na semana passada o cenário boliviano com o líbio após a catastrófica invasão dos Estados Unidos, em 2011.

E os primeiros a sofrer com esta tragédia boliviana, como sempre em investidas anti-populares e corruptas como é o caso do país andino agora, são jornalistas e intelectuais que nao aceitam trilhar o caminho mais fácil, o da grande mídia e suas mentiras em favor das grandes corporações e dos porões do poder político, mas perseveram sobre a verdade através da investigação e insistem nas ideias alternativas.

O novo governo boliviano, ilegítimo já que o Congresso boliviano não se reuniu para aprovar ou rejeitar a renúncia do presidente Evo Morales em 10 de novembro, tem exercido guerra aberta contra jornalistas alternativos e independentes, "sejam bolivianos ou estrangeiros".

Segundo a ministra de Comunicação da presidenta interina Jeanine Áñez, Roxana Lizarraga, jornalistas que incitem a sociedade local serão sumariamente presos. Algo impreciso que, na prática, significa perseguição a comunicadores que denunciem todo a sorte de abuso incluindo graves violações dos direitos fundamentais do ser humano, que seu regime tem cometido especialmente contra os povos originários locais.

Eu Não Sabia com Quem Falava, e Vice-Versa

O jornalista argentino Mariano García da TV argentina Telefe, fez uma pergunta na noite de segunda-feira em La Paz que deixou visivelmente irritado Luis Fernando Camacho, o multimilionário que, apoiado pelos norte-americanos (provas aqui), lidera a promoção do caos em solo boliviano. 

A questão colocada foi como a Bolívia poderia se normalizar daqui em diante, dada a divisão entre os que apoiam o afastamento de Evo Morales (especialmente a grande maioria na branca e elitista Santa Cruz de la Sierra de Camacho), e os que se opõem (a maioria em cidades como La Paz, efervescente desde a renúncia do primeiro mandatário indígena da história do país sul-americano).

"Camacho já mandou vigiar o jornalista da Telefe", disseram a este que escreve três jovens no centro de Santa Cruz de la Sierra, na noite de quarta-feira (13) da semana passada.

Ate então, este repórter não sabia de quem se tratavam os dois rapazes e a moça, e vice-versa: eles não sabiam que o sorridente e questionador brasileiro que parecia não entender absolutamente nada do que estava acontecendo, acompanhado de uma bebê, era jornalista. E que escreve para um meio russo além da teleSUR, que apoia Evo Morales.

Mais adiante, quando os universitários bolivianos se identificaram como pertencentes à fascista Unión Juvenil Crucenista (movimento de extrema-direita reconhecido como extremista até pela Embaixada dos Estados Unidos em território boliviano, além de órgaos internacionais), veio a identificação deste autor junto de um pedido de entrevista. O desconforto teve claro início, então, entre os jovens cruzenhos.

Ficou claro quando, exibindo um dos documentos comprovando o exercício das atividades jornalísticas, um dos rapazes apontou o celular para o papel, permanecendo com o aparelho diante do documento.

Quando já estava evidente que os "promotores da democracia", como eles se auto-denominam, não concederiam entrevista nenhuma, pediram a este jornalista o número de celular.

O ambiente estava tenso. Os olhares entrecortavam-se eram entre os juvenis cruzenhistas unidos, dissimuladamente mas sob a clara percepção deste que escreve, dividindo atenção com a bebê entre tanta gente nas ruas daquela noite de quarta-feira, em Santa Cruz de la Sierra.

Como que para não demonstrar sentimento de intimidação, este autor concedeu-lhes, sem nenhum problema, o contato pedido consciente de que não haveria ligação nenhuma.

"Tudo bem, a gente vai ligar para você, então", disse a menina como que para se despedir. Uma maneira educada de acabar de vez com a conversa que havia se iniciado tão amigavelmente, para terminar (para eles) de modo entendiante para dizer o mínimo.

Pois o jornalista em questão entendeu bem a mensagem e, fazendo que não a entendeu, "pulou fora" daquela pequena reunião que já estava insuportável cheio de agradecimentos, e supostas expectativas pela entrevista que nunca viria a ser concedida.

Atmosfera Altamente Tensa

Entre sexta (15) e sábado (16), nove civis foram assassinados por forças policiais e militares: todos indígenas, apoiantes de Evo Morales. Desde a renúncia deste, contabilizam-se 23 mortos pelas forças do Estado golpista liderado pela fantoche Jeanine, ex-suplente de senador da oposição ao Movimento ao Socialismo (MAS) de Evo, ilustre desconhecida de todos os bolivianos até assumir a patética Presidência boliviana desde 12 de novembro.

"A lei será totalmente aplicada contra jornalistas, ou pseudo-jornalistas que são sediciosos. Sejam eles nacionais ou estrangeiros", disse Roxana Lizarraga na última quinta-feira (14). 

Os jornalistas estão na mira implacável dos violentos golpistas da elite boliviana, conforme confidenciaram os integrantes da UJC a este repórter no dia 13.

A propria Russia tem sido tragicomicamente mencionada pelos golpistas da vez, como inimiga a ser combatida. Chegou-se a dizer, no inicio dos violentos protestos, que "Putin ja mandou seus homens matar todo mundo na Bolívia". 

Anda-se criando fabulas e mais fabulas sobre a Russia entre os bolivianos mais abastados. No domingo (17), a socióloga boliviana Silvia Rivera Cusicanqui disse que existe uma mafia em seu pais "que inclue capitais chineses, russos [grandes temidos dos EUA por razoes economicas e militares] e venezuelanos [outros inimigos declarados do regime de Washington, por terem nacionaloizado as maiores reservas petroliferas do mundo, que estao em seu subsolo], que está vivinha, que contnua armando as pessoas e que continua armando mentalidades [grifo nosso]".

Liberdade e Democracia segundo os Velhos Fantoches de Tio Sam

Percebendo algumas movimentações um tanto exóticas nos últimos dias, este autor contou por correio eletrônico a Timothy Bancroft-Hinchey, diretor de Pravda Brasil e co-editor de Pravda.ru em inglês, no início da madrugada de domingo (17), horário de La Paz: "eles estão me vigiando".

Para receber a pronta resposta e total apoio pessoal, e de Pravda.ru no início da manhã de domingo, hora de La Paz: 

"Bom, se eles estão vigiando você, estão sendo vigiados por Pravda de maneira que qualquer abuso de direitos humanos será denunciado, eles serão denunciados, e seus líderes serão igualmente denunciados.

"Você tem o direito à liberdade de expressão em qualquer lugar do mundo, por lei. Se eles não puderem respeitar esse direito, serão criminosos e deverão ser responsabilizados pelos abusos."

Na noite daquele mesmo domingo, este jornalista enviou uma reportagem em inglês por correio eletrônico a Timothy "Timi" Hinchey, e um pouco depois em português sobre as comprovadas mentiras da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do atual regime insturado na Bolívia envolvendo a suposta fraude eleitoral de 20 de outubro, com depoimentos de entrevistados civis bolivianos com exclusividade.

Com um detalhe: a conta utilizada para os envios da reportagem em dois idiomas é a mesma vinculada ao número de celular do autor, fornecido aos mencionados jovens da extrema-direita boliviana dias antes.

O diretor de Pravda Brasil afirmou, na noite de segunda-feira (18), hora de La Paz, não ter recebido nada. Enviadas através de outras contas, este jornalista em meio à guerra civil instalada há quase um mês no país andino não obtem resposta do diretor de jornalismo russo.

O jeito será, de agora em diante, buscar outros meios para contactar Timi, e ter as reportagens publicadas.

Tudo isso, subproduto do que os golpistas bolivianos de turno andam chamando de defesa da democracia e da liberdade.

Inversamente proporcional ao escandaloso volume que apita a panela de pressao boliviana, é o ensurdecedor silêncio da OEA e dos Estados Unidos diante deste caos com uma diariamente cavalar dose de violação dos direitos fundamentais do ser humano em uma país que esteve, nos últimos 13 anos e meio, relativamente establizado política e economicamente.

Velho filme que a América Latina, desgraçadamente, conhece muito bem. O que o Império mais terrorista da história em parceria com as elites latino-americanas historicamente catadoras de migalhas de Tio Sam, melhor sabe fazer


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