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Exclusivo: Oliver Stone sobre Eleição na Venezuela

18.05.2018
 
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Oliver Stone sobre Eleição na Venezuela

Em entrevista exclusiva a Pravda.Ru, cineasta estadunidense conversa com Edu Montesanti sobre eleições presidenciais no país caribenho, e sua importância à América Latina. 

"A direita não oferece soluções para os problemas de injustiça econômica e social. Desta maneira, a  esquerda regressará na América Latina, mais cedo ou mais tarde", afirma Oliver Stone, autor do documentário Mi Amigo Hugo, e co-autor do livro A História Não Contada dos Estados Unidos, com o historiador Peter Kuznick (assista documentário), entre inúmeras obras.


Edu Montesanti:  Grande Oliver Stone, Pravda e eu, pessoalmente, gostaríamos de agradecer imensamente pela honra de poder entrevistá-lo, e parabenizá-lo por suas incomparáveis contribuições à paz e à justiça social em todo o mundo. 

O que você acha do boicote da Mesa de Unidade Democrática (MUD), e do regime de Washington às eleições presidenciais venezuelanas do próximo dia 20?

Oliver Stone: É parte da estratégia, tanto da MUD quanto da administração de Trump, rejeitar a eleição em favor da ilegal mudança de regime. Também é conveniente à MUD, porque a oposição não pode entrar em acordo para um candidato, e se eles tivessem múltiplos candidatos facilmente perderiam.

É claro que tanto a administração de Bush quanto a de Obama, buscaram mudanças de regime durante a maior parte do tempo nos 15 anos anteriores a Trump. Exemplos incluem o golpe militar de 2002, em que Washington esteve envolvido; e no apoio às manifestações violentas de rua de 2013, que rejeitaram os resultados das eleições presidenciais que não deixaram dúvidas.

Os Estados Unidos também despejaram muitos milhões de dólares na Venezuela através do National Endowment for Democracy, da USAID e de outras fontes públicas incluídas no orçamento federal dos Estados Unidos - para não incluir os auxílios secretos -, a fim de promover a troca de regime.

Edu Montesanti: Como você vê os dois lados desta campanha, o presidente Nicolás Maduro, que busca a reeleição, e a oposição?

Oliver Stone: Bem, sua primeira pergunta foi sobre a MUD, e eles estão boicotando. Mas na verdade existem quatro candidatos que se opõem a Maduro, um deles está à frente de todos os outros e, de acordo com as pesquisas mais confiáveis, têm boa chance de ganhar se os eleitores votarem. Este é Henry Falcon, ex-governador [do Estado de Lara, no centro do país] e oficial militar que é mais um centrista do que a coalizão da MUD, liderada pela extrema-direita.

O governo dos Estados Unidos ameaçou-o com sanções financeiras pessoais se ele entrasse na corrida, porque, como eu observei, eles não querem eleição. E eles não querem um candidato centrista que possa tentar fazer as pazes com os chavistas, se vencer.

Basicamente, Washington e a MUD acreditam que o governo pode ser derrubado à medida que a hiperinflação se acelera, e a economia continua declinando.

Ao mesmo tempo, o governo Trump impôs um embargo financeiro à Venezuela, o que torna quase impossível ao governo venezuelano contrair empréstimos internacionais, ou reestruturar a dívida externa.

Então, eles estão basicamente dizendo ao povo venezuelano que seu sofrimento vai piorar enquanto Maduro permanecer no poder, e exacerbando a escassez de alimentos, remédios e muitos outros bens, além de prejudicar a produção de petróleo, da qual a economia local depende.

Apesar da depressão e das dificuldades do cotidiano, o país continua politicamente polarizado. Se você observar as multidões de manifestantes pró-governo e antigoverno ao longo dos anos, poderá ver a diferença de classe e de raça - já que as duas são altamente correlacionadas na Venezuela, assim como na maioria das Américas.

E milhões de venezuelanos obtiveram assistência médica, educação universitária e aposentadorias pela primeira vez no século 21, sob Chávez e seu partido [PSUV, Partido Socialista Unido da Venezuela].

Assim, embora a depressão e a hiperinflação tenham eliminado muitos desses ganhos, o governo ainda tem uma base de cerca de um terço do eleitorado.

É por isso que, não importando quem vença a eleição, terá que haver uma solução negociada para resolver a crise política. E quem vencer terá que consertar a economia.

Edu Montesanti: Qual a importância desta eleição para a América Latina, especialmente neste momento de agressivo avanço do ódio, da intolerância e do atentado contra os direitos humanos e a justiça social em favor das elites locais, em toda a região?

Oliver Stone: Bem, os últimos anos foram, definitivamente, um período de ressurgimento da direita na América Latina.

No Brasil, a presidente Dilma Rosseff foi impedida em 2016 sem sequer ser acusada de crime, e substituída por um governo de direita.

E agora Lula, que continua sendo o político mais popular do Brasil, foi preso sob o mais dúbio dos procedimentos legais.

Condenado sem evidência material, com base em depoimentos de uma testemunha eliminada da barganha até que ela acabou dizendo o que o juiz - que não escondeu suas motivações políticas - queria. E tudo isso para impedir que Lula concorresse nas eleições presidenciais de outubro, na qual ele tem uma vantagem considerável nas pesquisas.

E na Argentina, há um presidente de direita desde o final de 2015, o qual também está usando o sistema legal para perseguir a ex-presidente Cristina Fernandez, e outras autoridades de seu governo.

Esses novos governos são muito leais ao governo dos Estados Unidos, que os ajudou, e muito aliados em termos de política externa na região. Desta maneira, houve uma  séria reversão.

Há uma tentativa de se livrar do governo da Nicarágua também, e Washington está, igualmente, investindo milhões de dólares nesse esforço, de acordo com o orçamento federal dos Estados Unidos.

Acontece que os governos de esquerda que foram eleitos no século XXI - na Argentina, no Brasil, na Venezuela, no Equador, na Bolívia, no Uruguai, no Paraguai, na Nicarágua e em outros países- afirmaram seus direitos à autodeterminação e à soberania nacional como talvez nunca antes na história da região, e em uma escala tão grande.

E assim, naturalmente, esses países tiveram problemas com os Estados Unidos, que consideram a região seu "quintal". Acho que é uma parte muito importante desse contexto, através do qual podemos ver o que está acontecendo na Venezuela embora o papel dos Estados Unidos quase nunca sejam mencionados nos principais meios de comunicação.

Mas essa reversão é temporária. A direita não oferece soluções para os problemas de injustiça econômica e social que impulsionaram os movimentos de esquerda, pró-autodeterminação e os governos ao poder.

O presidente do Brasil é profundamente impopular e, na Argentina, o presidente Macri também está em apuros no meio do mandato. E no México, o candidato esquerdista Andres Manuel López Obrador (AMLO) deve ganhar a presidência em seis semanas, um evento histórico sem precedentes se as pesquisas estiverem corretas, e se o pleito ocorrer.

Desta maneira, a esquerda regressará na América Latina, mais cedo ou mais tarde.

Por nicolas genin from Paris, France - 66ème Festival de Venise (Mostra), CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=8470118

 


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