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O ocidente e a crise da Geórgia, uma análise retrospectiva

18.05.2018
 
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O ocidente e a crise da Geórgia, uma análise retrospectiva

Em 1994, o governo americano deu início à política de expansão da OTAN, a qual absorveu doze países da Europa Central e Oriental (UNITED STATES, 1995). Em 2004, a OTAN, maior ameaça à URSS na Europa durante a Guerra Fria, incorporou os três países bálticos, Estônia, Letônia e Lituânia. A aliança atlântica, portanto, estava se aproximando de Moscou (MEARSHEIMER, 2014).

Fred Leite Siqueira Campos

Beatriz Marcondes de Azevedo

Iuri Endo Lobo

 

Em termos político-econômicos, as relações bilaterais Geórgia-União Europeia foram se intensificando, desde 2003, com o lançamento da Política Europeia de Vizinhança (EUROPEAN COMISSION, 2017; EUROPEAN UNION, 2017). No que diz respeito à "promoção da democracia", a Geórgia viveu a Revolução Rosa, em 2003, a qual foi instigada e financiada pelo Ocidente (SUSSMAN; KRADER, 2008; TUCKER, 2007). Por fim, no quesito militar, a OTAN declarou, em 2008, sua intenção de tornar a Geórgia membro da organização atlântica (MEARSHEIMER, 2014; NATO, 2008). A Geórgia pode ser vista como alvo da marcha do Ocidente a leste.

A declaração da reunião de Cúpula da OTAN de Bucareste, em 2008, dava as boas-vindas à Ucrânia e à Geórgia, afirmando que os dois países se tornariam, mesmo que sem data prevista, membros efetivos da aliança (NATO, 2008).

A Política Europeia de Vizinhança consistia em uma inciativa bilateral baseada em dois pilares (RINNERT, 2011). O primeiro, tinha em vista a instabilidade das regiões vizinhas, era o de "promover um cinturão de países bem governados a leste da União Europeia" (EUROPEAN UNION, 2003, p. 8). E o segundo se alicerçava no compartilhamento dos princípios fundamentais da organização com os países vizinhos, tais como "valores democráticos", Estado de direito e direitos humanos (RINNERT, 2011; EUROPEAN COMISSION, 2017).

Além do lançamento da Política Europeia de Vizinhança, outra força estimulou a Geórgia a se aproximar do Ocidente: a Revolução Rosa. Esse evento se enquadra na categorização de Tucker (2007) de revoluções coloridas. Essas mobilizações, como argumentam Sussman e Krader (2008), basearam-se no mesmo modelo de revolução, tanto é que há relação direta entre os movimentos que as promoveram. Financiados pela organização não governamental norte-americana Soros foundation, ativistas georgianos visitaram Belgrado, Sérvia, onde receberam treinamento do grupo Otpor poucos meses antes da queda de Shevardnadze, em 2003.

Ao retornar à Geórgia, os ativistas georgianos formaram o grupo Kmara (Basta). Sua ideia central era que o governo de Shevardnadze não cumprira suas promessas e era tempo de a população tomar alguma medida (ANTELAVA, 2003). Como incentivo inicial, a Soros foundation deu a esse grupo da juventude georgiana US$ 350.000. Não somente, a Soros foundation também financiou na Geórgia o canal de televisão Rustavi-2 e o jornal 24 Horas. (SUSSMAN; KRADER, 2008).

De acordo com Rinnert (2011, p. 6), "a Revolução Rosa e as mudanças políticas que a seguiram levaram a uma mudança de política externa na Geórgia orientada para o Ocidente". Desse modo, evidencia-se como o Ocidente interveio na Geórgia para: "promover a democracia", por meio da estratégia de mudança de regime expressa pela Revolução Rosa, e integrá-la ao Ocidente política e economicamente, mediante cooperação com a União Europeia. Além desses dois, há um terceiro elemento pelo qual o Ocidente buscou englobar a Geórgia à sua esfera de influência: o avanço da OTAN (MEARSHEIMER, 2014).

Segundo Mearsheimer (2014), o representante de relações exteriores russo, Grushko, afirmou que a adesão de Ucrânia e Geórgia representava grave erro estratégico, o qual poderia causar sérias consequências para a segurança europeia. Além disso, a admissão destes países à OTAN representaria uma ameaça direta à Rússia (MEARSHEIMER, 2014).

O conflito na Geórgia estourou quando tropas georgianas, na noite do dia 7 de agosto de 2008, respondendo a um ataque vindo da Ossétia do Sul, invadiram a região separatista para retomar controle sobre o território. Durante a investida das tropas georgianas, soldados russos foram mortos (KING, 2008). E, como resposta, a Rússia interveio a fim de defender a autonomia da Ossétia do Sul e da Abecásia (BANDEIRA, 2013).

De acordo com relatório da União Europeia (2009), a tensão na zona de conflito vinha crescendo há meses. No início de 2008, trocas de tiros haviam ocorrido entre os lados georgiano e osseto, incluindo artilharia pesada. Em julho do mesmo ano, ocorreu o exercício militar conjunto Immediate Response, próximo à capital da Geórgia, Tibílisi, em que mil soldados americanos treinaram as forças de Armênia, Azerbaijão, Geórgia e Ucrânia (BANDEIRA, 2013). No mesmo período, tropas russas executaram exercícios militares de grande escala na região do norte do Cáucaso, próxima à fronteira Rússia-Geórgia. E, no começo de agosto, dias antes do início do conflito, autoridades da Ossétia do Sul já iniciavam a evacuação de civis para território russo (EUROPEAN UNION, 2009).

Segundo Bandeira (2013), a importância da Geórgia para o Ocidente não é unicamente econômica, ou seja, não se limita ao papel de rota energética entre o Cáspio e o Ocidente. A importância da Geórgia é também geoestratégica, pois, o estabelecimento dessa rota pelo território da Geórgia e do Azerbaijão desvia da Rússia e do Irã o monopólio das rotas de fornecimento energético da Ásia para a Europa.

Em função da preocupação do Ocidente com a vulnerabilidade do abastecimento energético dependente da Rússia, o Cáucaso recebeu prioridade geopolítica dos EUA e de seus aliados (BANDEIRA, 2013). Conforme Saakashvili (2010), a Geórgia se afigurou para o Ocidente como porta de entrada para o enorme potencial energético do Mar Cáspio.

Assim, pode-se concluir que as tenções ocorridas na Geórgia (assim como todas as tenções ocorridas na Europa Oriental, Oriente Médio e Ásia) são resultantes das tentativas marcantes do Ocidente (destacadamente dos EUA) em ampliarem suas áreas de influência política, econômica e militar.

  

REFERÊNCIAS:

Antelava, Natalia. (2003). How to stage a revolution. Londres: BBC News. Disponível em:. Acessado em: 02 nov. 2017.

Bandeira, Luiz. (2013) A Segunda Guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

EUROPEAN COMISSION. (2017). Eastern partnership. Bruxelas: European Comission. Disponível em:. Acessado em: 18 out. 2017.

EUROPEAN UNION. (2003). A secure Europe in a better world. Bruxelas: European Security Strategy. Disponível em:. Acessado em: 02 nov. 2017.

EUROPEAN UNION. (2009). Independent international fact-finding mission on the conflict in Georgia report. Bruxelas: European Council, vol. 1. Disponível em:. Acessado em: 07 nov. 2017.

EUROPEAN UNION. (2017). Factsheet EU-Georgia relations. Bruxelas: European Union external action, Disponível em:. Acessado em: 28 out. 2017.

King, Charles. (2008). The five-day war: managing Moscow after the Georgia crisis. Nova York: Foreign affairs. Disponível em:. Acessado em: 05 nov. 2017.

Mearsheimer, John. (2014). Why the Ukraine crisis is the west's fault: the liberal delusions that provoked Putin. Nova York: Foreign affairs. Disponível em:. Acessado em: 12 jun. 2017.

NATO. (2008). A short history of NATO. Bruxelas: North Atlantic Treaty Organization. Disponível em:. Acessado em: 05 set. 2017.  

Rinnert, David. (2011). The eastern partnership in Georgia: increasing efficiency of EU neighborhood policies in the south Caucasus? Berlim: German Institute for International and Security Affairs, Working Paper FG 5, nº 1. Disponível em:. Acessado em: 01 nov. 2017.

Saakashvili, Mikheil. (2010). Why Georgia matters. Londres: Chatham House. Disponível em:. Acessado em: 15 nov. 2017.

Sussman, Gerald; Krader, Sascha. (2008). Template revolutions: marketing U.S. regime change in Eastern Europe. Westminster: Westminster Papers in Communication and Culture, v. 5, n.3, p. 91-112. Disponível em:. Acessado em: 20 set. 2017.

Trucker, Joshua. (2007). Enough! Electoral fraud, collective action problems, and post-communist colored revolutins. Cambridge: Perspectives on Politics, v. 5, n. 3, p. 535-551. Disponível em:. Acessado em: 03 out. 2017.

UNITED STATES. (1995). A national security strategy of engagement and enlargement. Washington: The White House. Disponível em:. Acessado em: 20 out. 2017.

Foto: Por Дмитрий Стешин - http://krig42.livejournal.com/120657.html, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4752401

 


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