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Síria: Obama reexamina a opção militar

18.02.2014
 
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A narrativa dos EUA sobre a Síria mudou dramaticamente durante a última quinzena. O presidente Obama discutiu publicamente a opção militar contra a Síria.

Uma mão invisível parece ter alterado a ordem dos arquivos sobre a Síria que se empilham sobre a mesa de Obama no Salão oval e pôs bem em cima da pilha a pasta "todas as opções estão sobre a mesa" datada de 31/8 do ano passado, que foi quando Obama parou de falar do seu plano de lançar ataque "limitado" contra a Síria e enveredou pela trilha lateral de pedir aprovação do Congresso para usar força militar para "deter, destruir, impedir e degradar" o potencial sírio para ataques químicos.

Em duas audiências no Senado, fartamente divulgadas, com depoimentos de espiões-chefes norte-americanos, durante a última quinzena, o governo Obama trabalhou para outra vez atrair a atenção da opinião pública norte-americana para a Síria. Simultaneamente, fez saber, mediante vazamentos pela mídia, que, com aprovação pela Congresso, os EUA estão fornecendo armas aos rebeldes sírios.

Entre uma e outra audiência no Senado, o governo Obama avaliou o problema al-Qaeda na Síria. O diretor da Inteligência Nacional James Clapper avaliou a força de oposição que combate dentro da Síria em algo entre 75 mil e 115 mil combatentes, dos quais "algo na vizinhança de mais ou menos 20 mil, chegando talvez a um máximo de 26 mil, nós [a inteligência dos EUA] consideramos como extremistas. E eles têm influência desproporcional, porque estão entre os combatentes mais efetivos no campo de combate."

A mensagem para a opinião pública norte-americana tem três faces:

  • A Al-Qaeda está convertendo a Síria em sua principal base operacional.

 

  • A "segurança da pátria" está ameaçada, dado que extremistas estão sendo treinados em campos com planos específicos para atacar os EUA e seus aliados.

 

  • O conflito sírio ameaça prolongar-se, o que cria graves perigos à segurança internacional e a interesses vitais dos EUA.


Além disso, disseram-se várias coisas naquelas audiências no Senado: (a) O governo sírio não arreda pé de implementar o acordo sobre armas químicas; (b) um "desastre apocalíptico" (usando a expressão de Clapper) ameaça a Síria em termos da crise humanitária e nível aterrorizante de mortes de civis; e (c) na "avaliação profissional" de Clapper, o governo sírio cometeu atrocidades em larga escala.

Clapper avaliou que qualquer expectativa em torno de Genebra-2 tem de ser "muito modesta" e possibilidades de solução política de longo prazo para o conflito que já dura três anos continuam "problemáticas".

Destacou também que, entre os extremistas estrangeiros que combatem na Síria, há veteranos da al-Qaeda que já lutaram no Afeganistão e no Paquistão e que aspiram a atacar a Europa e os EUA. Para resumir: as audiências no Senado serviram para implantar na opinião doméstica nos EUA a imperiosa necessidade de os EUA agirem contra a Síria.

Claramente a sinergia que se desenvolveu entre o governo Obama e o Capitólio sobre a Síria refletiu-se imediatamente na visita que o presidente da França Francois Hollande fez a Washington essa semana. O que se percebe é que Obama parece ver Hollande como o homem certo para assumir os riscos na Síria (ou Líbano) que, digamos, o primeiro-ministro britânico David Cameron ou a chanceler alemã Angela Merkel preferirão não correr. De fato, Hollande já acumula considerável currículo no campo das intervenções militares longe de casa - Líbia, Mali e República Centro-Africana.

As intervenções francesas parecem impressionar Obama, que reluta em engajar-se militarmente no ultramar, por causa de um orçamento apertado e porque os norte-americanos estão absolutamente fartos de guerras. No que tenha a ver com a Síria, Hollande também é aliado íntimo da Arábia Saudita, e a França alega que seria seu legado histórico e sua obrigação assumir papel de liderança nos assuntos do Levante. Desnecessário dizer que há interesses comerciais franceses substanciais, aí, também.

Em resumo, a França, da noite para o dia, virou o melhor aliado dos EUA na Europa, "pelo menos, sob o prisma do gerenciamento de crises e da cooperação militar", como observou, sardonicamente, o destacado analista francês Frederic Bozo. É. Quando quer, Obama pode ser homem muito sedutor.

Garantiu que Hollande recebesse recepção de luxo, sabendo que a França adora as pompas - acolhida calorosa, com Michelle Obama ao seu lado, nos gramados da Casa Branca (apesar de Hollande ser solteiro militante), guarda de honra cerimonial, jantar de Estado, em traje de gala, para 300 convidados, um voo reservado para pouquíssimos no avião da presidência dos EUA, visita acompanhada pela propriedade de Thomas Jefferson, nos arredores de Charlottesville, Virginia, e efusivo discurso de boas vindas, no qual Obama disse que "Creio, sim, que a aliança EUA-França jamais foi mais forte, e os níveis de cooperação que vemos adiante numa ampla gama de questões são mais profundos do que, me parece, há cinco anos, dez anos, 20 anos.".

Dito de outro modo, as longas referências ao conflito sírio na conferência de ambos com a imprensa, depois das conversas bilaterais na 3ª-feira têm sempre alta ressonância e de3vem ser cuidadosamente anotadas.

Obama executou quatro movimentos. Primeiro e mais importante, marcou uma distância entre EUA e Rússia quanto ao problema sírio. Marcou a posição dos EUA e pôs sobre a Rússia o ônus de garantir que o governo sírio cumpra o acordo das armas químicas. Não disse, mas sugeriu muito fortemente que a Rússia está impedindo que a ajuda humanitária alcance as comunidades sírias colhidas em fogo cruzado. Obama usou palavras extremamente duras: "A Rússia é atrasada [orig. Russia a holdout]. E o secretário [de Estado John] Kerry e outros levaram mensagem direta aos russos".

Em segundo lugar, Obama manifestou ceticismo sobre a possibilidade de o preocesso de Genebra-2 ajudar em alguma coisa. Reiterou a decisão de Washington de "fortalecer a oposição [síria] moderada". Em terceiro lugar, Obama proclamou a concordância EUA-França sobre a Síria: "É ruim para a segurança global que haja extremistas que entraram no vácuo em certas partes da Síria, de um modo que pode nos ameaçar no longo prazo. Essa portanto é uma das nossas mais altas prioridades nacionais, e sei que François [Hollande] sente o mesmo."

Finalmente, Obama discutiu a moribunda opção militar contra a Síria. Destacou sua "enorme frustração" sobre o impasse sírio e disse: "Sempre reservo o direito de exercer ação militar em nome dos interesses da segurança nacional dos EUA. Mas é ação a ser empreendida com sabedoria (...) No momento não pensamos que haja solução militar, per se, para o problema. Mas a situação é fluida, e estamos sempre explorando todas as possíveis vias para resolver esse problema."

Desde então, o Washington Post já noticiou várias vezes, sempre citando funcionários do governo, que há "discussões internas" dentro do governo Obama sobre "estender os poderes presidenciais para usar força letal contra organizações terroristas" na Síria. Citou o secretário de imprensa do Pentágono almirante (aposentado) John Kirby, que insistia que os militares norte-americanos "realmente têm a autoridade necessária, nos termos da lei doméstica e internacional, para enfrentar a ameaça representada pela al-Qaeda e outras organizações terroristas."

Contudo, parece improvável que os EUA consigam autorização do Conselho de Segurança da ONU para uma intervenção militar direta na Síria. Nem parece que tal intervenção esteja hoje na cabeça de Obama.

Qual, então, é o plano de jogo? Uma explicação pode ser que Washington conte com aplicar pressão máxima contra o governo sírio para que renuncie e abra espaço para um cenário 'transicional' em Damasco, com o presidente Bashar al-Assad, simplesmente, fazendo 'a coisa certa' e partindo rumo ao ocaso. Segundo a versão Obama, foi a ameaça que fez, de "ataque limitado" à Síria, que forçou Moscou e Damasco a ceder e produzir o acordo das armas químicas, ano passado. Provavelmente, espera, agora, que o 'evento' se repita.

Por outro lado, o governo Obama muito argumentou, ao longo da última quinzena, falando para seu público interno, que continua farto de guerras, que algum tipo de intervenção na Síria está-se tornando necessária, porque a segurança nacional está sob mira.

É perfeitamente concebível que Obama, em algum momento, ordene que os drones dos EUA ataquem alvos na Síria. De início, serão alvos da al-Qaeda, mas a 'ação' pode ser gradativamente ampliada de modo a alterar o equilíbrio militar e fazê-lo pender a favor de agenda mais ampla de 'mudança de regime'... É onde a recente visita de Hollande à Turquia - a primeira de presidente francês, nos últimos 22 anos - ganha significado especial.

Fato é que tudo indica que o governo Obama está retomando a opção de usar diplomacia muscular armada contra a Síria. ****

14/4/2014, MK Bhadrakumar, Strategic Culture
http://www.strategic-culture.org/news/2014/02/14/obama-revisits-military-option-on-Síria.html


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