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A crise capitalista mundial. E o inacreditável Marx

18.02.2009
 
Pages: 12
A crise capitalista mundial. E o inacreditável Marx

"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado".

Karl Marx, in Das Kapital, 1867.


por Sérgio Barroso*

“Para sustentar os preços e conter assim a verdadeira causa do mal, foi necessário que o Estado pagasse a preços vigentes antes de estalar o pânico comercial e que descontasse as letras de câmbio, as quais não representavam outra coisa senão bancarrota estrangeira. Em outras palavras, as perdas dos capitalistas privados deveriam ser pagas com o patrimônio de toda a sociedade, representada pelo governo” (Marx, “A crise financeira na Europa”, Editorial do New York Daily Tribune, 22 de dezembro de 1857). [1]

Quando da aprovação de mais um pacotaço bilionário (US$ 789,5 bilhões), pelo Senado e a Câmara dos Estados Unidos, o “mercado recebeu o plano de secretário de Tesouro de Barack Obama como se ele tivesse sido elaborado e apresentado pelo governo de George W. Bush” - decifra um mofado cenário Luiz Guimarães (“Bala de festim desaponta mercado”, Valor Econômico , C-2, 11/02/2009). Simultaneamente, as últimas estimativas do governo Obama apontam uma ampliação bem maior que esperada do déficit fiscal: de US$ 455 para US$ 1,2 trilhão, quer dizer para 8% do PIB, sem as contas do novo pacote. Pelo menos 10% do PIB, em 2009, essa é a conta que deve ser feita, por enquanto – cifra que, mesmo oficial, será ultrapassada. Para os alucinados apologistas da “haute finance” do “Wall Street Journal” – finos velhacos manipuladores do fetiche do capital –, “As perspectivas de recuperação econômica este ano começaram a desaparecer” ( Valor Econômico , 13/02/2009, C-3).

Ora – afirmo aqui -, os EUA estão encharcando os passos no pântano de uma grande depressão. [2] O que não significa estarmos marchando a uma depressão mundial, dada a “retranca” que, muito provavelmente, farão os países “em desenvolvimento” ou subdesenvolvidos. Ademais, poderão os imperialistas do norte decretarem um monumental calote de seus superindividamentos cruzados e inéditos (empresas, famílias, governos, estrangeiros), cujo círculo destrutivo está indo, incontornavelmente, em direção à insolvência!

Não há nenhuma ingenuidade no badalado Martin Wolf, economista sênior do influente diário burguês londrino Financial Times , quando abre seu artigo com a seguinte pergunta, desta feita algo menos sinuosa: “Será que a presidência de Barack Obama já fracassou? Em tempos normais, esta seria uma pergunta ridícula. Mas estes não são tempos normais. São tempos de grande perigo”. Eis, similarmente a Guimarães, o título de seu artigo: “Porque o plano de Obama fracassarᔠ( Valor Econômico , A-15, 11/02/2009).

Conforme Paul Krugman - sempre um conselheiro à espreita e espécie de “vigilantes do peso” frente ao abismo depressivo da economia norteamericana -, insistindo na insuficiência do novo pacote, a “economia americana está a beira de uma catástrofe, e boa parte do partido republicano está tentando empurrá-la por sobre essa beira” (“À beira da catástrofe” ( Estado de S. Paulo , 7/02/2009, B-4).

Revelaram-se agora perdas também bilionárias e situação “próximas da insolvência” de companhias Seguradoras. Desde 2007 as seguradoras norteamericanas tiveram perdas gigantescas, calculadas em US$ 243,6 bilhões. A Swiss Re, a maior dessas empresas no mundo, perdeu 1 bilhão de francos suíços, depreciando mais 6 bilhões em ativos. Menos expostas na Europa, ainda assim não ficaram ilesas na grande crise.

Europa afunda e a Ásia resiste

Europa? O presidente do BC do Reino Unido, Mervyn King anunciou estar a Grã-Bretanha “em profunda recessão”, com a taxa oficial de desemprego atingindo 6,3% da PEA, com o maior número de desempregados desde 1997. Depois de 15 anos a recessão chega e afunda a Espanha, jogando nas costas dos trabalhadores a maior taxa de desemprego da Europa: 14% da PEA (População Economicamente Ativa).


Pior ainda: a queda da produção industrial nos 27 países da União Européia atingiu 12% em dezembro, frente a dezembro de 2007; no setor de bens de capital, alarmantes 20%. “Esses dados são inéditos. A profundidade da crise é algo jamais visto”, disse Günter Verheugen, comissário para indústria da UE. Crise financeiro-econômica no continente que se mostra “mais longa e profunda do que imaginávamos”, arrematou Erkki Liikanen, da diretoria do Banco Central Europeu. O crescimento da economia da zona do euro será negativo em 1,3% (15 países), nesse primeiro trimestre, preveem eles. (“Indústria européia tem maior recuo desde 1990”, O Estado de S. Paulo , 13/02/2009, B-9).

Crescem e continuarão a crescer, especialmente na Europa, a xenofobia, o racismo e a violência. Problemas graves os quais o protecionismo, sempre presente em todas as grandes crises, só faz agravar.

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