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FARC: Não podemos negar que a paz avança

17.10.2017
 
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Não podemos negar que a paz avança, ainda que em meio às  as incoherências conhecidas

Nosso dever é resgatar a força do trabalho coletivo, aquele que sempre nos acompanhou nos longos anos de guerra, onde contribuíamos um para todos e todos para um.

Penso que o Acordo de Paz firmado em Havana com o governo, ademais de um bom acordo com base nas realidades existentes no momento, é uma acertada decisão política tomada por nossa organização.

Escrito por  Martín Cruz Vega

O Acordo reflete uma realidade que muitos esquecem na hora de fazer análises individuais ou coletivas, a correlação de forças. Se pode querer mais, porém em política se necessita força para impor os objetivos próprios.

Se examinamos a nossa contraparte nos diálogos, poderíamos falar de um governo dividido e com crescente perda de prestígio para implementar os acordos. Pior talvez, com a intenção planejada de descumprir para nos desmotivar. Isso dentro de um Estado que ainda conserva suas estruturas e concepções fascistas, raivosamente antipopulares. Uma forte oposição à paz e ansiosa de guerra, envolvida em graves responsabilidades frente ao paramilitarismo, em crimes de Estado e mergulhada na corrupção. Uma pesada burocracia à qual se soma o improviso, a tramitologia planificada ao extremo, entre muitos outros fatores.

Todas elas são grandes dificuldades que nos geram sérias preocupações. Há graves incoerências no processo de implementação e reincorporação integral das FARC. O que não quer dizer que não se avançou na implementação e sobretudo na reincorporação. Claro que foram feitos importantes avanços. Demos passos muito importantes, estratégicos, dissera eu, para ir consolidando o processo de paz. Ninguém se pôs a relacionar um a um os avanços, nos vamos sempre por todo o mau, e isto não é sensato. Vejamos algumas conquistas fundamentais: 

A passagem de movimento armado a partido político aberto e legal, a bancarização, o serviço de saúde, os documentos de identidade, o credenciamento, a certificação, ECOMUM, a capacitação e validação de saberes, as visitas a nossos familiares, os plenários nacionais, o congresso fundacional, a participação em distintos eventos nacionais, o trabalho de pedagogia, o afloramento de nossas expressões culturais e artísticas, Vozes de Paz, o CNR, os cursos de escoltas e sua implementação através de UNP, bolsas de medicina em Cuba, curso de segurança em Havana, a inscrição de nosso partido ante o CNE.

Somemos a anistia, a segurança prestada pela UNIPEP e a força pública nos distintos espaços e movimentos, as visitas de personalidades e pessoas humildes a nossos acampamentos, o apoio de governos estaduais, prefeituras e outros entes a nossos projetos em vários lugares, o reconhecimento e apoio a nossa organização por parte de distintos presidentes e da comunidade internacional. Agora mesmo poderíamos somar a sentença da Corte Constitucional que blinda juridicamente os Acordos de Paz pelos seguintes três períodos presidenciais.

O processo conseguiu um empoderamento e, se conseguimos generalizá-lo na opinião pública, com uma linguagem clara, inclusiva, que nos aproxime de todos os setores sociais, nos pode proporcionar importantes ganhos políticos a médio prazo. Creio que a Força Alternativa Revolucionária do Comum, FARC, vive um momento muito importante na construção da paz e do futuro do país. Oxalá nosso entusiasmo ultrapassasse a realidade e que os sonhos se cumprissem como os concebemos. Porém tudo é uma luta, um acumular permanente, com toda segurança estamos melhor que há 10 anos.

O Estabelecimento, por sua parte, seguirá fazendo o impossível para nos destruir e nos desanimar. Não podemos ignorar que em certa forma conseguiu isso com seus descumprimentos programados. Claro que devemos exigir do governo cumprimento em todo o pactuado, porém também devemos autogestionar nossos projetos econômicos com organizações sociais e solidárias. Não há caminho mais esperançoso que o que abre o esforço coletivo.

Pelo que se escuta, muitos ex-combatentes homens e mulheres, buscando soluções imediatas, fizeram suas próprias experiências laborais, uns com suas famílias e outros com particulares, deixando-nos só desesperanças. Nosso dever é resgatar a força do trabalho coletivo, aquele que sempre nos acompanhou nos longos anos de guerra, onde todos contribuíamos um para todos e todos para um. Nossa vitalidade foi o trabalho comunitário, cada quem ajudava segundo sua capacidade e todos tínhamos os mesmos direitos e deveres, segundo a capacidade de cada quem.

Esse interesse coletivo nos tirou de tremendas dificuldades. Agora será igual, se sabemos aproveitar todo o potencial humano, político-ideológico que possuímos. Há alguns "Espaços Territoriais de Capacitação e Reincorporação" onde o trabalho coletivo tem sido exemplar, e não somente no que tem a ver com a parte econômica como também na explosão das expressões artísticas e culturais que possuímos. Sim, é verdade, o Acordo de Paz fala de financiamento da reincorporação, porém se nos colocamos esperar estes dinheiros nos massacra a situação econômica. A autogestão social e solidária é bem importante.

É o que fazíamos na guerra em tempos de colheita. Isso não podemos esquecer. E, claro, se a população nos vê nessa atitude vai nos ajudar, como está acontecendo em muitas partes. Desde logo que há que somar a isto nossa luta para que o governo cumpra o acordado. O processo de paz, suas normas e implementação avançam. Me parece muito interessante o desembolso financeiro anunciado por nossa direção política para projetos existentes nos "Espaços Territoriais de Capacitação e de Reincorporação".

Para nós e o povo nada tem sido fácil. Construir as FARC-EP nos levou 53 anos. O processo de paz avança em meio às dificuldades e incoerências, porém existem por sua vez algumas possibilidades e realidades que não podemos desconhecer. Conseguimos com que o governo cumpra em algumas coisas substanciais que nos permitirão em seguir a luta política, como o fizemos toda a vida. Estamos certos de que mediante o trabalho coletivo de nosso partido Força Alternativa Revolucionária do Comum, FARC, e nossa unidade política, ideológica e organizativa faremos possíveis o cumprimento dos acordos e nossa reincorporação integral à vida civil

Tradução > Joaquim Lisboa Net

 

 


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