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Larijani: 'Os direitos humanos não são uma commodity do Ocidente'

17.10.2016
 
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Larijani, uma das figuras mais influentes do Irã, falou sobre reforma judicial no país e eleições americanas 

Renata Tranches/Estadão

Foto: Hamid Soltan Saleki/Divulgação

Defensor de uma reforma nas leis iranianas, o presidente do Conselho de Direitos Humanos do Irã, Mohamed Javad Larijani, diz acreditar que poderá reduzir o número de execuções no país em até sete meses. No entanto, ele rejeita as críticas do Ocidente sobre a situação dos direitos humanos no Irã e diz que o modo de vida ocidental não deve ser imposto ao povo iraniano. Em Brasília para discutir as relações bilaterais com o governo brasileiro, ele deu entrevista ao Estado.

Qual o propósito da visita a Brasília?

Minha agenda foi extensa, tratamos de melhorar nossas relações bilaterais. Tivemos uma longa discussão sobre diferentes questões e sobre como promover nossas relações comerciais, expandir a cooperação com investimentos mútuos. Temos muitos interesses comuns, como o combate ao narcotráfico, ao terrorismo, ao tráfico de pessoas.

O sr. disse que há dificuldades. Quais são elas?

As dificuldades não são entre Irã e Brasil, mas sim um tipo de sabotagem internacional com as transações financeiras internacionais do Irã que foram eliminadas, em sua maioria, após o acordo nuclear. Supostamente, todas as sanções negociadas deveriam ser levantadas após o Irã provar estar cumprindo suas obrigações no acordo. No entanto, muitos países não estão sendo capazes de ir em frente com as negociações. Os EUA são o principal obstáculo e muitos países europeus estão reclamando disso. No papel, eles dizem que as sanções seriam levantadas, mas no telefone eles ligam para os bancos e pedem para esperar e ver o que vai acontecer. Não mudou muito com relação ao que esperávamos do acordo, que é muito explícito sobre isso. Nós cumprimos todas as nossas obrigações, que puderem ser checadas. Infelizmente, os EUA não estão cumprindo sua parte. Isso foi discutiro entre o P5+1 em Nova York. Mas acreditamos que isso deve se resolver em breve. Esse acordo é bom para todos, mais até para os EUA do que para nós. Nós pagamos um alto preço. É parecido com o Brasil, que ficou sob pressão em razão da energia nuclear, mas achamos que nós, o Brasil, todos têm direito de desenvolver essa tecnologia.

O que mais foi discutido?

Discutimos como podemos cooperar na área de direitos humanos, o que é algo importante para Irã e Brasil. Os dois países estão sob críticas por razões diferentes. Mas o importante é como nós podemos promover os direitos humanos. Eles não são uma commodity do Ocidente, dos EUA, da Europa, que pode ser exportada. Direitos humanos devem ser promovidos indiscriminadamente. A democracia é o primeiro requisito para os direitos humanos. Um princípio importante é respeitar a diversidade. Não acreditamos que universalismo deva ser um pretexto. Um estilo específico de vida não deve ser imposto a outra cultura. Americanos, alemães, franceses não deveriam dizer que a única maneira de viver é como eles vivem em seus países. Outro ponto é a politização dessa questão. Por exemplo, EUA e Europa criticam o Irã, mas apoiam países na nossa região que nunca tiveram uma única eleição e as mulheres não podem se expressar. Parece que isso não os incomoda.

Há um movimento no Irã para amenizar penas para crimes ligados ao tráfico de drogas, punidos com a morte. Como é essa reforma?

O número de execuções no Irã é muito alto, todas de acordo com a lei. Mas execução não é uma coisa boa. Das execuções no Irã, 93% são ligadas ao tráfico de drogas. Eu apoio a mudança na lei, não porque acho que deveríamos parar de combater o tráfico de drogas. Temos 800 km de fronteira com o Afeganistão, que aumentou sua produção de ópio 40 vezes sob ocupação da Otan. O ópio produzido lá vai para consumo na Europa e nos EUA e é trocado por dólar. Esse dinheiro volta e cai nas mãos de terroristas. Não podemos tolerar essa situação. Esses traficantes não são pessoas comuns. Eles têm uma rede sofisticada, estão armados, são perigosos. Gastamos mais de US$ 200 milhões nesta guerra, mas não deveríamos lutar sozinhos, e sim com a ajuda desses países onde estão os consumidores.

Qual a proposta do Irã?

Não devemos deixar de combater os traficantes. Deveríamos aumentar nossa eficiência, trazendo outros países para essa guerra, expandindo nossa cooperação internacional, com tecnologias modernas. A segunda questão é que a própria lei deveria ser revista. No primeiro estágio, limitando a pena de morte para os principais chefes de cartéis. Isso imediatamente reduziria o número de execuções. A pena de morte deveria ser limitada a um número reduzido de pessoas. A ideia está em debate. Acho que, de maneira pragmática, podemos diminuir cada vez mais as execuções. Ninguém deve pensar que o Irã está afrouxando sua luta contra o tráfico de drogas, mas mudando de tática e a tornando mais efetiva.

Quando essa mudança deve ocorrer?

Temos de respeitar os trâmites legais. Acredito que em seis ou sete meses teremos os primeiros resultados da revisão. Gradualmente, haverá mais mudanças. A questão é que teremos eleições presidenciais em oito meses e é importante que essa questão não se torne uma bandeira política durante a campanha.

Os governos do PT eram muito próximos do Irã. O sr. teme uma mudança na política do Brasil?

Essa é uma questão interna e o Irã não interfere. Respeitamos a escolha dos brasileiros. Acreditamos que nossas relações estão em um bom contexto. Não vemos nenhum obstáculo. Na verdade, o novo governo tem mostrado bons sinais para o Irã.

O Irã teme o resultado das eleições dos EUA?

Não temos nada a temer. Em 40 anos de regime, temos visto muitos presidentes nos EUA: Jimmy Carter, Ronald Reagan, George Bush pai, George Bush filho, Bill Clinton, Barack Obama. Para nós, é interessante ver o nível da campanha eleitoral, que está muito baixo. Um candidato acusando o outro, de uma maneira nada educada. Sem competir com lógica, argumento. Não achamos que haverá uma mudança drástica na política externa americana.

Por quê?

A política americana para a região está em grande dificuldade. No Afeganistão, mais de dez anos de presença da Otan e o país está voltando a ser governado pelo Taleban. A Otan foi derrotada de uma maneira mais humilhante do que a União Soviética, nos anos 80. Na Síria, os EUA fracassaram também. Eles acreditavam que resolveriam o problema em seis meses, mas não conseguiram. A política americana para o Oriente Médio é como um navio que está afundando. Eles não querem outro problema na região.

 

 


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