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Uma vitória histórica no Nepal

17.04.2008
 
Pages: 12
Uma vitória histórica no Nepal

por Carlos Aznárez

Não é pouca coisa o que aconteceu no Nepal. São anos de luta guerrilheira, de sacrifícios e resistências no campo de batalha, de milhares de trabalhadores, camponeses e camponesas massacrados pelas bombas e pelas balas de uma da piores ditaduras monárquicas da região, que agora revertem numa vitória popular impecável.

"Estamos surpreendidos", dizem os adoradores do "terrorismo mediático"; "estamos consternados", sustentam em Washington aqueles que bebem no discurso ingerencista de George W. Bush, porque não podem entender como aconteceu aquilo que para eles é uma hecatombe. Maoismo nestas épocas?, sussurrou, preocupado, a um jornalista o genocida espanhol Javier Solanas. A resposta foi-lhe dada nas ruas pelos e pelas nepalenses que com uma tenacidade e uma consciência blindada não só combateram na guerrilha como também – recordemo-lo – desafiaram a polícia e o exército do rei Gyanendra, e foram encarcerados, golpeados, torturados e até desaparecidos devido à sua rebeldia, mas nunca cessaram de combater.

Assim, durante anos, na selva e nas montanhas, como guerreiros e guerreiras, e a seguir em imponentes manifestações que a partir de 2005 inundaram as ruas de Kamandú e outros centros urbanos do país, exigindo a abdicação do monarca, foi-se gestando a vitória do presente.

Por isso, não se trata de nenhuma surpresa. Surpreendidos podem estar os cúmplices internacionais daqueles que afundaram o Nepal não acreditavam naquilo que há muito tempo era anunciado nos muros das ruas do Nepal: "A monarquia cairá e governará o povo dirigido pelo camarada Prachanda". Agora que chegou o momento, são os mesmos "observadores" europeus e ianques que têm de dar a "ingrata notícia" às suas diferentes metrópoles. Para eles, começa um pesadelo que não fora pensado. Para o povo do Nepal, abre-se um caminho de esperança e construção do poder popular.

Cabe assinalar que o Nepal é um pequeno país situado entre a região chinesa do também convulsionado Tibete e o norte da Índia, com uma superfície total de 140 mil quilómetros quadrados. Ali vivem aproximadamente 24 milhões de habitantes, a maioria deles em zonas rurais e em condições de extrema pobreza.

O actual Estado nepalês, criado há dois séculos e comandado por um punhado de feudais moribundos, adoradores do capitalismo, foi acossado por muitas contradições irreconciliáveis. Todos os esforços reformistas para remendar a superestrutura político-cultural, assim como a base económica, não puderam conter o deslizamento gradual para o seu colapso total, e dessa cinzas surgiram os fogos actuais.

O Nepal agora é o segundo país mais pobre do mundo. Como bem afirmou o PCN(M) em um dos seus apelos ao povo para que se rebelasse nas urnas: "A desigualdade económica, na qual 10% dos ricos é dona de 46,5% do rendimento nacional, é uma das piores do planeta; 71% da população vive abaixo do nível de pobreza absoluta; 90% da população vive no campo em condições primitivas e 81% trabalha em agricultura primitiva; só 10% da população tem trabalho e 60% está subempregada; quase um terço da força laboral viu-se obrigada a ir trabalhar na Índia e em outros países onde os salários miseráveis ou incorporaram-se às forças armadas mercenárias da Índia e da Inglaterra; o domínio imperialista e de potências expansionistas em todas as esferas está a aprofundar-se e mais de dois terços do orçamento para o desenvolvimento depende de empréstimos estrangeiros".

O contraste com esta situação de vida paupérrima é dado, no Nepal, pela sua belíssima geografia onde se situam os montes Himalaias e o monumental pico do Everest, tão visitado por excursões planificadas por sectores da alta burguesia europeia e não poucos aventureiros juvenis que com as suas mochilas costumam chegar à maravilhosa Kamandú.

Da luta armada ao triunfo nas urnas

Não são poucas as organizações político-militares que tentaram percorrer o caminho que hoje parecem estar a atingir os partidários do maoismo nepalense. Contudo, quase todos os esforços nesse sentido culminaram em negociações entre o poder que tentavam derrubar e as forças insurgentes. Aquilo que marca a diferença neste caso é que enquanto em outras experiências as guerrilhas encontraram-se frente à impossibilidade de obter uma vitória militar, neste caso o poderoso exército popular construído durante anos pelo PCN(M) e sua influência indiscutível entre o povo pobre (ali está a recordação das grandes greves contra a monarquia) foi forjando uma realidade de ferro que nem sequer a pressão internacional a favor da realeza pôde desconhecer.

Vejamos então quem são os vencedores deste presente nepalense e de que rincões da história recente do país provem este reconhecimento concedido pelo povo nas urnas.

O Partido Comunista do Nepal (Maoista) foi fundado em 1949, mas só em 1994 verificou-se o seu relançamento como organização político-militar maoista liderada por Pushpa Kamal Dahal (mais conhecido como Camarada Prachanda). Foi formado após uma cisão do Partido Comunista do Nepal (Centro de Unidade), cuja denominação utilizou até 13 de Fevereiro de 1996, quando seus seguidores decidiram levantar-se em armas contra o governo monárquico. Nesse dia, por todo o território nepalense, ouviu-se o grito de batalha que começou a guerra popular prolongada: "A rebelião justifica-se".

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