Pravda.ru

Mundo

O que você sabe sobre a Coréia?

16.12.2019
 
O que você sabe sobre a Coréia?. 32299.jpeg

O que você sabe sobre a Coréia?


Agora que a Coréia está novamente em evidência no noticiário internacional, talvez seja o momento adequado para falar um pouco da sua história milenar.


Embora já haja resquícios de ações de grupos humanos no período paleolítico, as primeiras formas de organização social na Península da Coréia aparecem por volta do ano 2.000 antes de Cristo, com o surgimento da dinastia Tangun, que governaria a região por 12 séculos, até a ocupação chinesa em 1.122 antes de Cristo.


A partir daí até o final do século XIX da nossa era, a história da Coréia registra uma série de retomada de reinos independentes e de ocupações chinesas.


No início do século XX, o Japão surge como a grande potência asiática. Em 1910, ele ocupa a Coréia e a transforma numa colônia. A partir da anexação, o japonês se torna língua oficial da Coréia e toda a sua produção industrial, já importante na época, é colocada a serviço da economia japonesa. A reação nacionalista, de início, pouco expressiva, cresce na medida em que o Japão aumenta o grau de exploração da colônia, até que explode em grandes manifestações em 1919, reprimida com extrema violência pelo Japão.


As lideranças nacionalistas coreanas se transferem então para Xangai, na China, onde organizam um governo no exílio, com o apoio expresso do governo americano, marcando o início da interferência dos Estados Unidos nas questões internas da Coréia.


Durante a segunda guerra, o Japão alistou 2,6 milhões de coreanos como força de trabalho. Mais de 700 mil pessoas foram enviadas para trabalhar em territórios ocupados pelos japoneses no exterior. Em janeiro de 1945, os coreanos representavam 32% da força de trabalho japonesa. Em agosto, quando os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, 25% dos mortos eram coreanos.


Com o fim da segunda guerra mundial na Europa e o anunciado colapso das forças japonesas no Pacífico, Estados Unidos e União Soviética decidiram na Conferência de Potsdam, em 1945, que elas dividiriam a Coréia em duas áreas de ocupação, os russos ao norte e os americanos ao sul, até que ocorresse a reunificação do país sob um governo independente, prevista para 1950.


É interessante notar que o modelo de divisão de um território ocupado pelo inimigo, no caso o Japão na Coréia, seguia o que fora acertado na mesma conferência em relação à Alemanha, também dividida em duas áreas de influência: o leste ficaria sob a tutela soviética e o oeste, sob controle de americanos, ingleses e franceses.


O início da guerra fria, já em 1945, esvaziou os planos de reunificação, tanto da Coréia como da Alemanha. Na Alemanha, o processo começou com a transferência, em 1948, do poder no lado ocidental para o partido liderado por Konrad Adenauer e a criação de uma nova moeda, o Deutschmark, ao que os soviéticos responderam no ano seguinte, apoiando a criação da República Democrática Alemã. A reunificação só se tornaria realidade 42 anos depois, em 1990.


Enquanto na Alemanha, apesar das constantes crises e ameaças de confronto armado, a paz foi mantida, na Coréia, as diferenças entre as duas zonas acabaram provocando uma sangrenta guerra entre 1950 e 1953, que quase provocou um novo conflito mundial.
Como no caso da Alemanha, a política americana foi a mesma na Coréia: apoiar o surgimento de um governo separatista na sua área de influência, invalidando a possibilidade de uma futura reunificação.


Impedidos de participar das discussões a respeito do seu futuro como nação, os coreanos, a partir de 1946 realizaram uma série de manifestações contra as tropas de ocupação, principalmente no Sul. A mais importante delas, ocorreu na Ilha de Jeju, onde cerca de 60 mil pessoas teriam sido mortas, levando as forças de ocupação americana a decretar a lei marcial no país.


Pondo fim a expectativa de um acordo que permitisse a reunificação, em 10 de maio de 1949 a Coréia do Sul realiza eleições que vão indicar Syngman Rhee (1875-1965) como presidente. A Coréia do Norte responde a 25 de agosto, escolhendo Kim Il-Sung (1912/1994), um herói da resistência contra os japoneses, como seu presidente.
Em junho de 1950, ano previsto para a reunificação da Coréia, tropas do Norte invadem o Sul e em poucos dias tomam a sua capital Seul.


Sob a bandeira da ONU, os Estados Unidos vão entrar na guerra e logo conseguem conter o avanço das tropas da Coréia do Norte e iniciam a invasão da área além do paralelo 38, a linha que separava as duas partes da Coréia a partir de 1945. Em setembro, a China entra na guerra ao lado da Coréia do Norte. A partir daí, o conflito vai oscilar com vitórias parciais dos dois lados, até que um armistício é assinado em 1953 e a Coréia volta a ser dividida pelo paralelo 38, como está até hoje.


O trágico saldo dessa guerra, além da imensa destruição das riquezas do país, foi a morte de 1milhão e 200 mil pessoas, entre coreanos, chineses e norte-americanos.
Uma lição que se espera que as partes envolvidas no conflito atual levem em consideração, antes que a situação chegue a um ponto em que não haja mais a possibilidade de um acordo de paz duradouro.


Para os coreanos, deve valer o mesmo que alimentou os sonhos dos alemães durante anos, o de viver num mesmo país, unificado e em paz. 

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS 

 


Fotos popular