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Um califa numa selva de espelhos

16.10.2014
 
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Ele é invencível. Ele degola. Ele contrabandeia. Ele conquista. Ele é totalmente o bamba dos bambas. Nem Tomahawk nem Hellfire conseguem tocá-lo. Ele sempre obtém o que quer, em Kobani; na província Anbar; com a Casa de Saud (que ele quer substituir), para ver se faz Putin (que ele quer degolar) sofrer por causa dos preços baixos.


I'm aiming at you, lover / Estou mirando você, amor,
Cause killing you is killing myself
/ Porque matar você é matar-me eu mesmo
- Orson Welles (dir.), The Lady from Shanghai,1947


Ele é invencível. Ele degola. Ele contrabandeia. Ele conquista. Ele é totalmente o bamba dos bambas. Nem Tomahawk nem Hellfire conseguem tocá-lo. Ele sempre obtém o que quer, em Kobani; na província Anbar; com a Casa de Saud (que ele quer substituir), para ver se faz Putin (que ele quer degolar) sofrer por causa dos preços baixos.


15/10/2014, Pepe Escobar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/MID-01-151014.html
Se fosse versão remake do clássico noir de Orson Welles, A Dama de Xangai na sequência do espelho, o advogado (norte-americano?) e a femme fatale (xiita?) também acabariam mortos; mas O Califa do Estado Islâmico sobreviveria como um Welles maior que a vida, livre para vagar ao léu, saquear e "oferecer meu amor ao nascer do dia" - como num Bravo Mundo Califado fulgurante no "Siriaque" sobre as cinzas do Acordo Sykes-Picot.

Ele está ganhando todas na província de Anbar, no Iraque. Os bandidos d'O Califa estão agora já próximos de - e logo que lugar! - Abu Ghraib; ex-Central de Tortura de Dábliu, Dick e Rummy. Estão a meros 12 km do aeroporto internacional de Bagdá. Podem derrubar um jato de passageiros com um míssil terra-ar disparado do ombro (ou MANPAD). Com certeza, não algum voo da Emirates - afinal, são importantes patrocinadores.

Hit, na província de Anbar, é agora território d'O Califa. As forças policiais e o comando operacional da província já perderam quase completamente o controle sobre Ramadi. O Califa controla agora o eixo crucial formado por Hit, Ramadi, Fallujah; a Autoestrada 1 [Highway 1] entre Bagdá e a fronteira da Jordânia; e a Autoestrada 2, entre Bagdá e a fronteira síria.

Os bandidos d'O Califa já estão tomando nada menos que todo o famoso cinturão de Bagdá, antigamente chamado "triângulo da morte" naqueles dias linha-dura da ocupação pelos norte-americanos, nos idos de 2004. Mensagem para Donald Rumsfeld: lembra-se dos seus "remanescentes"? Voltaram. E estão no comando.

As duas cidades, Ramadi e Fallujah, foram reduzidas a um acúmulo de escolas, hospitais, mesquitas e pontes bombardeadas. As ruas residenciais estão já virtualmente abandonadas. Segundo a ONU, já há pelo menos 360.803 desalojados internos na província de Anbar, além de 115 mil outros em áreas sob o controle d'O Califa. Pelo menos 63% das 1,6 milhão de pessoas que vivem na província estão classificadas como "carentes" - acesso apavorantemente mínimo à água, comida e cuidados de saúde, e recebendo de pouca a absolutamente zero ajuda humanitária daquela ficção, a "comunidade internacional". A embaixadora dos EUA à ONU Samantha Power não está pondo os bofes pela boca de tanto gritar a favor da "responsabilidade de proteger" (R2P).

Como seria possível que a espetacular Dominação de Pleno Espectro do Pentágono não veja acontecer nada disso? É claro que veem. Mas não dão a mínima. O Pentágono vez ou outra usa helicópteros Apache AH-64 para atacar alguns dos bandidos d'O Califa em Ramadi e Hit. Mas Apaches podem ser facilmente atingidos com MANPADS. Estão estacionados no Internacional de Bagdá e sua única missão é proteger o aeroporto. Quem liga para "dano colateral" local e civil?

De caso com a Máfia

Em Kobani, antes a terceira maior cidade no Curdistão Sírio, no extremo nordeste, O Califa também matou a pau. Outro êxodo de proporções bíblicas já chega a 300 mil refugiados - e continua a aumentar, com mais de 180 mil deles a caminho da Turquia.

O Califa conta com ajuda indireta de O Sultão (ou Califa alternativo), também conhecido como presidente Tayyip Erdogan da Turquia. Teerã está - com toda a razão - furiosíssima, ao ver o "ocidente" - e a Turquia - traindo os curdos outra vez. Não é segredo que O Sultão Erdogan nada está fazendo, porque quer ferrar os guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e o Partido da União Democrática Sírio-Curdo (PYD); eles que morram, em vez de repelir a dominação turca sobre aquelas áreas imensas, essencialmente curdas, da Anatolia. Assim, a única coisa que O Sultão Erdogan faz é apoiar o bombardeio sem alvo pelo Pentágono cum a tal coalizão dos covardes-sem-noção.

Qualquer um que acredite no que o Comando Central anda espalhando, que os jatos da Casa de Saud e dos Emirados Árabes Unidos conduzem "ataques com bombardeio" nos arredores de Kobani ganha passagem só de ida para Oz. Imaginem se aqueles palhaços seriam capazes de usar bombas guiadas de precisão ou detectores a laser treinados. Para começar, o Pentágono tem inteligência-zero, do local - porque há zero operadores capazes de apontar os alvos, com laser. Assim sendo, a "coalizão" mal e porcamente consegue acertar o tanque velho (dos 25 em torno de Kobani) ou o Humvee, dos 2.000 que enchem um vale já agora por duas semanas.

Mas a "coalizão" com certeza consegue - miraculosamente! - acertar a infraestrutura síria, como instalações de energia. Em junho, a desculpa oficial do Pentágono era "Não temos drones no Iraque". Agora já não há desculpas para os drones capazes de ler que "Esse produto é prejudicial à saúde" num maço de Marlboro não acertarem os homens d'O Califa em Kobani - ou na província de Anbar, se for o caso. Portanto, a coisa resume-se a uma mistura de incompetência e negligência. Muito mais fácil foi atingir festas de casamento de pashtuns nos Waziristões. Sobretudo porque, então, ninguém estava prestando atenção.

Os bandidos do próprio Erdogan, entrementes, instituíram um toque de recolher em todas as principais cidades e vilas no sudeste, na Anatolia, e já estão fuzilando até manifestantes curdos pacíficos. 15 milhões de curdos na Anatolia não podem estar errados: Erdogan quer que Kobani caia. Ankara permanece, para todas as finalidades práticas, principal eixo logístico para os bandidos d'O Califa. O Sultão está usando O Califa como exército 'por procuração' para esmagar os curdos.

Evidência definitiva foi dada pelo líder do PYD curdo, Salih Muslim, que se encontrou com militares da inteligência turca e pediu ajuda. Condições: desistir que qualquer esperança de autodeterminação para os curdos sírios; entregar todas as cidades e regiões autogovernadas por vocês; e assistam aí enquanto nós instalamos uma "zona tampão"/zona aérea de exclusão turca, dentro de território sírio.

Que ninguém espere que o governo "Não façam merda estúpida"/"Não temos estratégia alguma" de Obama sentencie que "Erdogan tem de sair". Além do mais, o patético clube da Conselheira de Segurança Nacional Susan Rice e seu vice, Ben Rhodes, não têm nem ideia do que se passa.

Para a Zona Verde!

Teerã, por sua vez, identificou claramente o jogo imundo de Erdogan. O Sultão sabe que bombardeiros-monstro B1-B sobrevoando Kobani são absolutamente inúteis - enquanto os bandidos d'O Califa usam explosões massivas de carros-bomba e continuam a avançar. Serão necessários "coturnos em solo". Entra a Turquia, agente da OTAN. Mas com uma condição: mudança de regime em Damasco, ou, pelo menos, prelúdio disso, com a tal zona "tampão"/zona aérea de exclusão sobre a Síria.

O Grande Quadro permanece o mesmo. O Sultão Erdogan e a Casa de Saud querem mudança de regime em Damasco (Erdogan sonham com um fantoche sunita como vassalo de Ankara; os sauditas querem seu próprio agente wahhabista). Israel concorda esfuziante. E se a coisa vier com brinde - atacar o novo governo do Iraque, ainda apoiado pelo Irã, na Zona Verde fabricada pelos EUA -, melhor ainda. Resumo de tudo isso: "Não faça merda estúpida" traduz-se como: Conselho de Cooperação do Golfo, Turquia e Israel estão usando Washington para fazer avançar sua agenda bastante explícita.

O Sultão Erdogan, como capo mafioso, parece ter assimilado uma coisinhas do filme Os bons companheiros, de Martin Scorsese. Está extraindo o maior naco de carne possível da completamente desentendida equipe do "Não façam merda estúpida". O Sultão tem em vista pôr coturnos turcos em solo para gloriosamente invadirem a Síria em modo "intervenção humanitária" padrão OTAN. E tudo isso vendido como se a OTAN estivesse oferecendo "proteção" a estado-membro. O novo secretário da OTAN, ex-primeiro ministro da Noruega Jens Stoltenberg, acaba de visitar Ankara. A Arábia Saudita já "votou" a favor da zona "tampão"/aérea de exclusão. O mesmo vale para o general François Hollande, aquele lamentável arremedo de presidente da França.

Mais uma vez, Teerã aparece para o resgate. O ministro de Relações Exteriores anunciou devidamente que o Irã está pronto para libertar Kobani do jugo dos bandidos d'O Califa (e pode fazê-lo), se o presidente Bashar Al-Assad solicitar. Agora, o tabuleiro de xadrez é assim: a OTAN ficou sem qualquer pretexto para montar uma invasão à Síria, com ou sem participação de Erdogan, capo mafioso.

Operação "Tire as Mãos do meu Toyota"

O Califa também ganha muito no departamento "faça-sangrar o Pentágono". Um único "ataque" contra os bandidos d'O Califa - envolvendo F-15s, F-16s ou F-22s - custa até US$500 mil. O Pentágono acaba de informar que já gastou nada menos que $1,1 bilhão contra O Califa desde junho.

E para quê? Virtualmente todos os bens que estão sendo destruídos pelas bombas norte-americanas são fabricados nos EUA, entregues ao exército do Iraque e depois capturados na ofensiva de O Califa. Eis aí pois o Império do Caos gastando uma fortuna do Tesouro dos EUA para detonar tanques, Humvees e outros itens pelos quais os contribuintes norte-americanos pagaram. Não surpreende que os mesmos contribuintes estejam furiosos. Eis a Operação Tire as Mãos do meu Toyota.

Além do mais, o Pentágono não tem nem ideia de como construir sua força "rebelde" por procuração, como Obama mandou, para combater contra O Califa (sem soldados ou marines norte-americanos, só fanáticos wahhabistas e sortimento variado de mercenários).

Para começar, não têm nem ideia de o que, diabos, seria um "rebelde moderado". A malta deve ser "avaliada" - e, se aprovada, deve então ser mandada para a Arábia Saudita (mas... para a Arábia Saudita?!) para ser treinada. Lá, o sujeito encarregado será - e o que mais poderia ser - um honcho das Operações Especiais, major-general Michael Nagata. Mesmo sob o mais otimista dos cenários, o Pentágono não conseguirá pôr esse seu exército de "rebeldes moderados" no solo, na Síria, antes do verão de 2015.

Podem-se apostar caixas e caixas de Chateau Margaux, que esse primor de armamento acabará capturado pelos bandidos d'O Califa. Aplica-se também aos "rebeldes" confiáveis em solo.

Mas a obra-prima de dadaísmo real é que, primeiro, esses rebeldes serão polidamente solicitados pelo Pentágono a esquecer qualquer plano de livrar-se de Assad, para lutar contra O Califa. Pelo menos por enquanto. Re-entra em cena Stoltenberg, novo comandante da OTAN: "Ano que vem, na reunião ministerial, tomaremos decisões sobre a chamada frente de ataque, mas, mesmo antes de estar estabelecida, a OTAN, afinal, tem um exército forte. Podemos deslocá-lo para onde quisermos." Oh, grande homem! Por que não para o "Siriaque"?

Se tudo isso parece roteiro da série de sucesso Blacklist, é porque é. Por que não escalar Red (James Spader) para lugar contra O Califa? E depois, quem sabe... e se Red é O Califa? Finge que se persegue, ele contra ele mesmo - e sempre ganha, maior elegância. De volta à Dama de Xangai, de Welles: "Matar você é matar-me eu mesmo". O caso é que ninguém quereria ver morto O Califa, quando é tal, tamanho, imenso, indiscutível sucesso de bilheteria. *****

 


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