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Os perigos do voto visceral

16.09.2008
 
Pages: 123
Os perigos do voto visceral

Quase é possível visualizar o sorriso felino de John McCain ao seus estrategistas sussurrarem em seu ouvido: "Os eleitores são basicamente estúpidos. Não é a substância que importa; é o estilo. Não se trata de conhecer os assuntos; trata-se de apelar para o que há de pior em a natureza humana, enquanto finge estar apelando para o que há de melhor nela."

"Pense nisto, John! Os eleitores já elegeram artistas de cinema e de televisão para governos estaduais, para o Congresso, e até para a presidência. Frequentemente, se esses artistas morrem enquanto ainda exercendo o cargo, os eleitores elegem seus cônjuges, como se a osmose desse às esposas e maridos das autoridades eleitas falecidas alguma forma inusitada de perspicácia política. Até pessoas que ajudaram outros a roubar eleições ganharam eleições elas próprias!"

"Como os 'compadres' da Virgínia Ocidental mostraram, você já garantiu determinado número de votos simplesmente pelo fato de seu opositor ser africano-estadunidense. E o voto de uma pessoa intolerante vale tanto quanto o voto de uma pessoa não preconceituosa. O que você precisa fazer é persuadir aqueles eleitores que estão desconsolados com a derrota de Hillary Clinton. Você pode fazer isso escolhendo uma mulher para sua companheira de chapa. Ela pode ser tão diametralmente oposta aos pontos de vista políticos de Hillary Clinton quanto George W. Bush é oposto à sanidade, isso não terá a menor importância."

Embora o autor deste artigo não possa afirmar taxativamente que o discurso acima teve lugar, quando li pela primeira vez que John McCain havia selecionado a governadora do Alasca Sarah Palin como companheira de chapa, perguntei-me imediatamente "Será que ele é realmente tão cínico, ou tão ingênuo, que não imagina que os eleitores perceberão sua clara tentativa de explorar essa tática relativa a sexo?"

Poucos dias depois, descobri que meus pensamentos encontravam eco no comentador vencedor do Prêmio Pulitzer Leonard Pitts, do Miami Herald. Em sua coluna, Pitts também observou a "ironia" de McCain escolher Palin, visto que o partido político que McCain representa "passou anos investindo contra a assim chamada 'política de identidade.'"

Na verdade, durante suas campanhas, George W. Bush incessantemente alcovitou os males gêmeos do racismo e do sexismo ao denunciar as políticas de ação afirmativa — voltadas para minorar a discriminação contra as minorias e as mulheres — como "tratamento preferencial."

Obviamente demasiados eleitores ignoravam o fato de que Bush, por meio da riqueza e da influência de sua família, beneficou-se de "tratamento preferencial" a vida inteira. Como a miúdo enunciei em artigos anteriores de Pravda.Ru, Bush não é adverso a "tratamento preferencial," desde que ele, e seus ricos partidários brancos, sejam os preferidos.

Poucos dias depois do anúncio de McCain, as pesquisas de opinião pareciam indicar que sua estratégia estava funcionando. Subitamente uma superabundância de eleitores "indecisos," em particular mulheres brancas, emprestou seu apoio à chapa McCain/Palin.

Uma preeminente feminista chegou a afirmar que as mulheres têm sofrido discriminação pior do que os africanos-estadunidenses, porque os homens africanos-estadunidenses gozaram do direito de voto décadas antes das mulheres.

Embora isso seja cronologicamente correto, trata-se todavia de um argumento especioso. É verdade que os homens africanos-estadunidenses ganharam o direito de voto, constitucionalmente concedido, em 1870, enquanto que as mulheres só receberam permissão para votar em 1920.

Na realidade, entretanto, os direitos de voto de todos os africanos-estadunidenses, dos sexos masculino e feminino, especialmente no Sul posterior à Guerra Civil, foram invalidados em 1877 depois que Rutherford B. Hayes, para vencer uma disputada eleição para a presidência, concordou em retirar tropas nortistas dos antigos Estados Confederados, condenando os africanos-estadunidenses que neles residiam a um sistema de segregação e de subtração do direito de voto que o cartunista Thomas Nast descreveu como "pior do que a escravidão."

Essa subtração do direito de voto durou quase um século, e evidência de seu poder, e do racismo que engendrou, pode ainda ser vista ao se considerar a história e a atual composição do Senado dos Estados Unidos. Dezenove mulheres já serviram no Senado, das quais dezesseis estão servindo hoje. Em contraste, apenas três africanos-estadunidenses foram até hoje eleitos para o Senado, e apenas um, Barack Obama, está atualmente servindo.

Indubitavelmente muitas pessoas argumentarão que não há nada de errado em apoiar Palin unicamente devido ao sexo dela, visto que africanos-estadunidenses há que estão apoiando Barack Obama unicamente devido à raça dele.

Esse argumento, entretanto, deixa de lado o fato de que muitos africanos-estadunidenses não apóiam políticos africanos-estadunidenses quando esses políticos atuam adversamente em relação aos interesses daqueles.

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