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Band no Donbass: jornalismo simplista, distorcido e cheio de estereótipos

16.07.2018
 
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Band no Donbass: jornalismo simplista, distorcido e cheio de estereótipos

 

Série jornalística sequer menciona o apoio dos EUA ao golpe de Estado de 2014 e a infestação de neonazistas dentro do Estado ucraniano; Rússia novamente é a agressora

 

Eduardo Vasco, Pravda.Ru

 

Na semana que passou, a TV Bandeirantes exibiu uma série de reportagens in loco sobre a guerra no Leste da Ucrânia, com sérias deficiências informativas possivelmente motivadas pela linha editorial da empresa.

 

A série, batizada de "Terra esquecida", bate diversas vezes na desgastada tecla que reza que os combatentes da região do Donbass não passam de "rebeldes separatistas apoiados pela Rússia". Este país, nas palavras do repórter, "invadiu e anexou a Crimeia, depois fomentou o movimento separatista de duas das principais províncias do leste da Ucrânia - Donetsk e Lugansk".

 

Fica claro que a narrativa trata a Rússia como o agressor, escondendo (propositalmente, pois seguramente seus autores não são ignorantes) os verdadeiros protagonistas do cenário de caos abatido sobre aquela região da Europa Oriental.

 

Entre o final de 2013 e o início de 2014, manifestações violentas tomaram conta de Kiev, pedindo a demissão do então presidente Viktor Yanukovich, que balançava entre aderir à União Europeia (UE) ou permanecer aliado de Moscou. Durante os mesmos atos, ficou claro que tratava-se de uma "revolução colorida", seguindo o manual de golpes de Estado modernos promovidos pelas agências internacionais dos EUA.

 

Finalmente, com participação explícita de funcionários do governo norte-americano e da UE, altas somas de dinheiro enviadas para a mobilização que ficou conhecida como Euromaidan e o desenvolvimento de um amplo e assustador movimento neonazista, um golpe de Estado violento derrubou o presidente e instalou no poder um multimilionário de extrema-direita, Petro Poroshenko.

 

A reportagem da Bandeirantes chama esses acontecimentos de "revolução ucraniana", resumindo-os a protestos cobrando "menos dependência da Rússia" e uma "aproximação maior" com a UE e os EUA.

 

Devido ao golpe de Estado e à crescente repressão contra russos étnicos e partidários de esquerda - como massacres e censura violenta -, a parte Leste do país, de maioria russa e mais identificada com os ideais soviéticos, que repudiou o Euromaidan, se insurgiu e criou o movimento armado antifascista. Na mesma época, a população da Crimeia, de maioria russa absoluta, percebia o perigo da repressão e realizava um referendo em que 97% de seus habitantes escolheu a volta à Rússia (país ao qual a península pertencia até 1954). Obviamente, Moscou acolheu a decisão, haja vista a localização estratégica da Crimeia.

 

Esse apoio, assim como aquele concedido aos separatistas que proclamavam as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, foi uma reação do Kremlin ao claro avanço imperialista em direção às fronteiras russas. Hoje, a parte europeia do país está praticamente cercada por bases da OTAN, que tem trabalhado para a incorporação da Ucrânia desde o golpe de 2014.

 

Além disso, o apoio dado pela Rússia às repúblicas do Donbass (que não são reconhecidas oficialmente por Moscou, ao contrário do que afirma a reportagem) não tem comparação ao que é realizado pelo Ocidente à junta fascista de Kiev. EUA, UE e Israel têm fornecido grande ajuda financeira, política, diplomática e militar ao regime ucraniano, incluindo armamento e treinamento a forças neonazistas que estão na frente de batalha no Leste do país.

 

Mas, para a Band, o que há é uma "eterna provocação" entre os dois lados, chegando ao cúmulo de afirmar que separatistas e governistas/nazistas são "duas forças quase com a mesma capacidade". Entretanto, as imagens e relatos não podem esconder as destruições causadas constantemente pelos ucranianos.

 

Uma imperdível oportunidade de explicar a impregnação de nazistas nas instituições do Estado ucraniano e o apoio indiscreto dos EUA a tudo isso seria a fala de um guerrilheiro de Donetsk acusando Washington de patrocinar os fascistas de Kiev. Mas não foi o que ocorreu na peça televisiva: o comprovado e fundamental apoio estadunidense sequer foi mencionado, enquanto a referência ao fascismo foi utilizada somente para lembrar que ucranianos do Oeste apoiaram a Alemanha na II Guerra Mundial - o que, no entanto, serviu como mote para citar o alegado sofrimento dos povos não-russos durante o "domínio comunista", especialmente nos "duros anos em que o ditador Josef Stalin esteve no poder".

 

Apenas rapidamente foram mencionados e exibidos os símbolos nazistas em postos de controle do exército ucraniano no Donbass. É como se fosse normal ser nazista, tão normal que nem é necessário se aprofundar no assunto. Obviamente, muito pior - quase uma heresia - é ser pró-russo ou comunista. Pelo menos é o que deixa implícito a reportagem simplista da TV Bandeirantes.

 

Essa produção jornalística evidencia mais uma vez a linha editorial totalmente pró-EUA, simplificadora e distorcida do noticiário internacional dos grandes veículos de mídia brasileiros. Sutilmente (ou, talvez, nem tanto), a russofobia tenta se impregnar também no Brasil.

 

Foto: Militares dos EUA comandam treinamento de tropas ucranianas em Yavoriv (Ucrânia), 2017. Photo by Sgt. Anthony Jones, 45th Infantry Brigade Combat Team/7th Army Training Command (CC BY 2.0) https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/

 


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