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Haiti: a saga que não é de apenas um povo

16.01.2011
 

Por PEDRO VALS FEU ROSA

No dia 12 de janeiro de 2010 a humanidade presenciou, com justificada angústia, o violento terremoto que sacudiu o Haiti, deixando o país em ruínas e vitimando 250 mil semelhantes nossos.

Como seria de se esperar, logo em seguida movimentou-se a consciência mundial em solidariedade ao povo do Haiti - afinal, como dizia Descartes, "não ser útil a ninguém equivale a não valer nada". E assim foram arrecadadas pelo planeta afora verdadeiras fortunas para atenuar o sofrimento dos haitianos.

Enquanto todos estes recursos eram coletados, li no jornal "San Francisco Chronicle" uma interessante pergunta: "para onde irá todo este dinheiro"? Em um notável exercício de futurologia, antevia-se que uma imensa parte da ajuda conseguida não chegaria às ruas do país ajudado.

Passados seis meses, li no jornal "The Skanner" uma séria reportagem sobre este assunto. Uma jornalista, após visitar as áreas destruídas, registrou que "os bilhões de dólares levantados para a reconstrução do Haiti se resumiam a um grupo de pessoas removendo entulhos". Denunciou-se, ainda, que nem bem a poeira dos escombros havia assentado e "os empreiteiros já salivavam em torno dos contratos para a reconstrução do Haiti".

Passados mais alguns meses nova reportagem, desta feita nas páginas do "Iran Daily", anunciava a realidade chocante de que "225 mil crianças do Haiti trabalham como escravas", muitas delas sofrendo abusos psicológicos e até sexuais.

As crianças não são as únicas condenadas ao sofrimento e à dor. Há também os amputados, estimados em 100 mil distribuídos por hospitais improvisados dentro de barracas, e que passam os dias a esperar próteses que dificilmente chegarão.

Diante de um quadro desses, ganhou notoriedade o gesto de um médico local, de nome Claude Surena, que decidiu acolher mais de cem infelizes em sua própria casa - um gesto que, apesar de numericamente pequeno diante da magnitude da tragédia, destaca de forma emocionante  uma questão moral que não deveria existir no seio de uma humanidade que se diz civilizada.

Foi assim, de escândalo em escândalo, que o primeiro aniversário daquele terremoto encontrou mais de 800 mil haitianos vivendo dentro de barracas montadas em 1.150 campos de refugiados. Nos últimos dias eles tem se ocupado em conviver com a epidemia de cólera que os flagela, e que já vitimou milhares deles.

Algum desavisado poderia imaginar, diante de tudo isto, tratar-se do drama de um povo. Nada mais falso. O drama existe, mas não é ele relativo a um povo, e sim a toda a humanidade. O Haiti é apenas um exemplo do que a ganância dos homens pode produzir- feio, intenso, chocante, mas apenas um exemplo.

Estarei exagerando? Não creio. Olhe em volta. Contemple as favelas. Vá aos corredores fétidos de alguns hospitais públicos. Compareça aos enterros de algumas das 20 crianças que diariamente morrem em nosso país por falta de um simples esgoto sanitário. Aliás, sobre crianças, a cada cinco segundos uma delas morre de fome pelo mundo afora - tente calcular quantas são por hora, dia, mês ou ano, vítimas inocentes da ganância de alguns poucos. E perceba que, na verdade, o Haiti é lá, é aqui, é acolá - é em todo lugar.

Em 1940 o escritor norte-americano Ernest Hemingway escreveu um romance cuja mensagem central é a de que quando morre um homem morremos todos, pois somos parte da humanidade. Perguntava ele: "por quem os sinos dobram"? Eles dobram por nós.

PEDRO VALLS FEU ROSA é Desembargador do Poder Judiciário Brasileiro, presidente do Tribunal Eleitoral do Estado do Espírito Santo.

 


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