Mundo

Quem matou Jango, JK e Lacerda?

16.01.2008
 
Pages: 123
Quem matou Jango, JK e Lacerda?

Reproduzo abaixo o artigo que escrevi em 7/3/04, a propósito do “enigma das mortes coincidentes” de Juscelino, Jango e Lacerda, justo quando a Operação Condor matava e esfolava no Cone Sul das Américas. O pretexto do artigo foi o um “romance-reportagem” de Carlos Heitor Cony, bem fraquinho, aliás, baseado nas investigações do autor sobre o tema.


Chamo atenção para a cronologia no final do artigo. Não há quem não fique impressionado. É imperioso que a Procuradoria Geral da República atenda ao pedido de investigação da família Goulart, sem dar atenção ao coro midiático que certamente nos tentará convencer de que tudo isso é apenas “fantasia”.


O enigma das mortes coincidentes


Num pseudo-romance, Cony examina o fim de Jango, Kubitschek e Lacerda


Os ex-presidentes João Goulart (Jango) e Juscelino Kubitschek (JK) e o ex-governador do ex-Estado da Guanabara, hoje cidade do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, simbolizavam respectivamente, mal ou bem, a esquerda, o centro e a direita na política nacional dos anos 60.


Primeiro Jango, logo adiante JK, quatro anos depois Lacerda, os três foram cassados pela ditadura militar instaurada em abril de 1964.


Entre agosto de 1976 e maio de 1977, em meio ao processo de “abertura” compulsória e relutante dos regimes militares sul-americanos, os três morreram de repente. JK de acidente rodoviário, Jango fulminado por infarto, Lacerda de infecção aguda.


De repente morreram também, na mesma época, entre outros líderes ou símbolos da oposição desarmada às ditaduras, o ex-ministro chileno da Defesa, Orlando Letelier, e o ex-presidente boliviano Juan José Torres. A diferença é que não morreram de morte natural. Ambos, ninguém discute, foram eliminados pela Operação Condor, convênio dos órgãos de segurança do Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai, com o fim de vigiar e assassinar adversários políticos.


Mas haverá mesmo essa diferença? Ou os brasileiros também foram assassinados pela repressão política?

 


Beijo da Morte – Um dos que sempre desconfiaram da versão oficial, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cruz, acaba de lançar um livro com o resultado de 25 anos do que chama de “obsessão” com o tema. Não um livro de história, de reportagem ou até de memórias, como seria de esperar-se, mas sim uma espécie esquisita de romance-reportagem. No dizer prolixo do autor, “uma interação entre a reportagem e o romance, um produto anfíbio que continua tendo cultores em diversos países” – e aí cita Zola, Truman Capote, Alexandre Dumas e até o Tolstói de Guerra e Paz.


Nada a ver. Entre outras razões, sem contar as evidentes, porque não há quase nada de romance no livro, e o que há é tão ruim que nem parece do cronista da Folha de S.Paulo e autor de Piano e Orquestra, sua obra mais admirada.


Para dar ares de romance a O beijo da morte (Ed. Objetiva, RJ, 2003), Cony entrega a exposição do “mistério” aos únicos personagens fictícios do livro, um repórter chamado Repórter –– alter ego escancarado do próprio Cony, com o só acréscimo ficcional de ter morrido antes do livro –– e uma amiga chamada Verônica, que vem a ser a repórter Ana Lee, co-autora da obra.


Repórter se expressa pelas anotações de um diário postumamente recolhido pela amiga, onde polemiza com as versões oficiais, examina parte da documentação disponível e exibe o magro resultado de suas investigações. Tudo isso entremeado de constante lamúria por ter sido desprezado e ridicularizado pelos colegas da imprensa por conta de sua “obsessão”.


Santo sudário – Ana/Verônica fala pouco. Seu papel, no enredo e nas explicações do posfácio bifronte, onde cada qual expõe seus motivos para fazer o livro, consistiu sobretudo em organizar a papelada confusa e incentivar o Repórter a desafiar os céticos. O nome da personagem diz tudo. O ex-seminarista Cony padecera anos sob a cruz da descrença e os espinhos do ostracismo. Adotado como cronista do primeiro time da Folha, continua sufocando a “obsessão”. Verônica enxugou-lhe o sangue e recolheu o santo sudário. Para arredondar a metáfora da Paixão, a narrativa começa assim: “Cismara em perseguir uma espécie de Santo Graal, uma obsessão que o destruiria...”.


O estilo das anotações do pseudodiário destoa completamente do gênero, mas o autor dá tão pouca atenção a isso que a certa altura abre parêntesis para indicar: “ver carta no anexo”. Trata-se de um diário ou da edição das memórias do herói?


Nas poucas passagens “romanceadas”, não há mais que pieguice e conversa fiada: “Ele não tinha nenhum futuro, mas tinha um passado”. (...) “Se o mundo está contra mim, eu estou contra o mundo”. (...) “Não fixou aquele olhar deformado pela doença, era uma forma de dizer que o amava e o amaria sempre.” Termina assim: “Sinto-me cansado, mas não desiludido. Agora... eu tenho apenas um desejo: dizer para Verônica que a amo”.

Pages: 123
| More

Fotos popular