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Cuba: Prós e contras

15.08.2006
 
Pages: 123
Cuba: Prós e contras

Oh, Ricardo Kelmer,

O teu texto é desonesto do ponto de vista intelectual e irresponsável do ponto de vista do compromisso comunitário, o mínimo que se pode pedir a quem escreve para o público, ocupando um espaço privilegiado num jornal da dimensão do o O Povo.

Desonesto intelectualmnete porque tu dizes, logo no inicio, que em uma semana é impossível falar sobre Cuba, pois o conhecimento da ilha seria insuficiente. Mas quando se lê todo o teu texto, tu demonstras tanta tranquilidade, tanta desenvoltura, que deitas falação sobre a vida na ilha como se tu já conhecesses o país de forma mais profunda. Tu não achas que revelaste muitas informações, repassadas sem a menor denotação de dúvida, com tanta segurança? Isso se chama desonestidade intelectual. Tu viste, tu sentiste, tu observaste tantos detalhes, que tua afirmação inicial de que uma semana só é insuficiente para dar uma opinião mais abalizada sobre o país, soa falso, soa desonesto. Tu viste tudo, huevon.

Tu só não reparaste as crianças vestidinhas, todas calçadinhas, todas com saúde, nenhuma faminta, nenhuma mal vestida, nenhuma desdentada, nenhuma abandonada, nenhuma pedinte, isto tu não viste, cabron. Tampouco viste as creches para todas as crianças do pré-escolar da Ilha, tendo à disposição, diàriamente, um médico e uma enfermeira. Isto tu não viste, concha de tu madre.

Mentiste quando dissseste que boa parte dos bairros de Havana é constituída de comunidades tão pobres, que tu escreveste assim : "Rodando pela cidade vi muita pobreza, casas desmoronando por falta de conservação". Outra vez mais tu foste desonesto. A pobreza que tu falas, huevon, não se compara com a pobreza das comunidades brasileiras. Então, porque tu não relativisaste o que observaste? Nessas, o esgoto é a céu aberto, o lixo se amontoa, quase não há abastecimento d’água, as casas são de papelão, de lata, de flandre, de reboco, seus habitantes são subnutridos, desdentados, boa parte das crianças não vão à escola ou só têm escola de um turno só, o acesso à saúde é precário, os rostos das pessoas denotam subnutrição, o desemprego predomina, as atividades criminosas ou ilegais é o quadro mais sentido, a violência campeia. Tu não viste isso em Havana ou em qualquer cidade que tu visitaste em Cuba, huevon podrido. És um intelectual desonesto. Os pobres de Havana - só há três bairros na cidade em condições subnormais - têm saneamento em suas comunidades, sem exceção, não têm esgotos a céu aberto, todas as crianças estão na escola em tempo integral, todas as crianças em idade pré-escolar têm creche à sua disposição, com médico e enfermeira, todos têm acesso à saúde, ninguém é analfabeto, não há ninguém subnutrido, todos têm a arcada dentária completa.

E mais, cara: quem quiser critica o governo - eu ouvi muitas críticas - mas eles são mais conscientes que tu, cabron: eles fazem a distinção do conjuntural do estrutural, do passageiro do que eles querem preservar: fazem crítica ao governo, mas defendem a revolução. Tu perguntaste a algum cubano, a alguma cubana sobre o que ele ou ela achava de Fidel, da Revolução? Tiveste essa sensibilidade?

Tu falaste em salário de 30 dólares e tomaste este valor na sua dimensão absoluta para deixar que teus leitores fizessem a comparação com 30 dólares no Brasil, como poderia ser na China, no Canadá ou nos Estados Unidos. O valor da moeda, huevon, nao está no cifrão, mas no seu poder de compra. Com 30 dólares no Brasil eu tomo vinte cervejas, enquanto que no Canadá eu não tomo nem cinco cervejas. Isso é elementar. Mas não tiveste essa preocupação. Sabes por que? Porque tu estavas mais preocupado em confirmar tuas idéias preconcebidas sobre Cuba, mais preocupado em como se manter em sintonia com teus patrões no Brasil. Já imaginaste se um médico brasileiro ganhasse 30 dólares e tivesse: escola integral para seus filhos gratuita, assistência médica, dentária e hospitalar gratuita, alimentação quase de graça, uma vida sem violência, sem stress, acesso a espetáculos musicais, teatrais e a cinemas quase de graça, quanto valeriam esses 30 dólares?

Falaste de liberdade. De que liberdade tu falas, cabron? A liberdade de que tu falas é a mesma liberdade que hegemoniza o pensamento liberal, a mesma que hegemoniza as redações dos jornais e da mídia: a liberdade política e a de ir e vir. Ora, se tu tivesses a mínima preocupação em pensar mais criticamente, ou seja, mais intelectualmente honesto, tu nao ficarias limitado a esse patamar. Que liberdade de ir e vir tem um miserável do Brasil que mal conhece o bairro onde mora? Que liberdade de se expressar tem um analfabeto, um semi-analfabeto, um analfabeto funcional? Que liberdade política tem o brasileiro - um canadense, até - de escolher seus representantes se estes ja lhes são oferecidos por articulações feitas nos bastidores, entre conciliábulos inescrupulosos, entre mandatos ja de antemão comprados, entre currais eleitorais, tudo sob o mando do vil metal? Mais liberdade tem um cubano que escolhe dentre os seus pares que foram indicados por seus círcuclos de trabalho e de vizinhança.

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