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Pela vida das mulheres: entenda por que 650 camponesas ocupam fazenda de João de Deus

15.03.2019
 
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Pela vida das mulheres: entenda por que 650 camponesas ocupam fazenda de João de Deus

 

Trabalhadoras rurais durante ocupação em fazenda de João de Deus em Anápolis (GO) / (Foto: André Vieira/Telesur)

 

 

Agricultoras promovem ação contra acusado de abusar de mais de 500 mulheres; ocupação também reivindica reforma agrária

 

 

Por Cristiane Sampaio e Lu Sudré, no Brasil de Fato | Brasília (DF)

 

As cerca de 650 trabalhadoras que ocupam, desde as 6 horas da manhã desta quarta-feira (13), a fazenda Agropastoril Dom Inácio, em Anápolis (GO), pertencente ao médium João Teixeira de Farias, conhecido como João de Deus, trazem como pauta a luta das mulheres no país. É o que destaca a militante Marina dos Santos, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Via Campesina no Brasil.

 

A dirigente aponta que a ocupação de uma fazenda de João de Deus é emblemática para as militantes pelo fato de o médium, que se apresenta há décadas como curador de enfermidades por meio da espiritualidade, ter sido preso, no ano passado, sob a acusação de abuso sexual. Ele é alvo de denúncias por parte de mais de 500 mulheres. A nota da ocupação afirma que "as mulheres Sem Terra ocupam hoje um território que é fruto do abuso, do estupro e da violência".

 

"Essa área dialoga com o momento que estamos vivendo, com essa escalada da violência contra a mulher no país. O Brasil é um dos países que estão vivendo maior violência, sejam agressões, feminicídios etc. E um outro elemento é que amanhã se completa um ano do assassinato da companheira Marielle Franco, e nós nos somamos a milhões de vozes neste país na pergunta de quem mandou matar Marielle. Nós também, como mulheres trabalhadoras rurais, como camponesas, queremos a resposta e que se faça justiça", afirma Marina dos Santos. 

 

A ação, que faz parte da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra,  inclui mulheres do MST e do Movimento Camponês Popular (MCP) e também conta com a participação de 150 homens. A dirigente afirma que a composição majoritária de mulheres carrega uma simbologia política de relevância para os movimentos.

 

A ocupação, segundo Marina dos Santos, é também mais uma etapa da luta pela reforma agrária, que está paralisada no país. Uma nota da ocupação afirma que o médium "é conhecido por concentrar lotes, terras improdutivas e terrenos na cidade". O documento aponta que João de Deus teria 27 registros de imóveis em seu nome na zona urbana e quatro na rural, totalizando 703 hectares, o equivalente à 985 campos de futebol.

 

A fazenda Agropastoril Dom Inácio está sub júdice desde janeiro deste ano, quando a Justiça autorizou o bloqueio dos bens de João de Deus, incluindo contas bancárias e imóveis, no âmbito do processo criminal em que o médium é réu.

 

Entenda o caso

 

Foram 45 anos desde o primeiro até o último abuso sexual cometido por João de Deus, segundo acusações. Logo que as primeiras denúncias surgiram, dezenas de mulheres se somaram ao coro de vítimas que desmascarou o médium de 76 anos, reconhecido internacionalmente por seus trabalhos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, município do interior de Goiás. 

 

Detido desde 16 de dezembro do ano passado, João Teixeira de Faria, real nome do médium, é investigado pelo Ministério Público de Goiás, que identificou 310 casos de violação sexual entre 1973 e 2018.

 

De acordo com o órgão, ao menos 15 meninas alegam terem sido vítimas de abuso sexual antes dos 13 anos. Os relatos são de mulheres de todas as faixas etárias, com uma maioria de denúncias formalizadas de vítimas entre 18 e 30 anos. Ele também é investigado por porte ilegal de arma de fogo, venda de pedras falsas e coação de testemunhas.

 

A cada novo depoimento, o império que João de Deus construiu na cidade com menos de 20 mil habitantes, começou a ruir. Com os holofotes focados no médium, outras informações tornaram-se públicas: João fez fortuna garimpando ouro em Serra Pelada, o "eldorado" do Pará, no início da década de 80.

 

Em 1985, chegou a ser detido sob acusação de contrabando de 300 kg de autunita, minério com alto teor de urânio. O seu patrimônio atual não é público, mas inclui um garimpo de ouro em Nova Era, Minas Gerais, do qual ele é sócio.

 

Sabrina Bittencourt, ativista que articulou as redes de denúncias contra ele - e se suicidou após receber ameaças de morte, segundo ela, de aliados de João de Deus - denunciava também que o médium praticava garimpo ilegal. A ativista ainda enviou mensagens a jornalistas relacionando o investigado ao tráfico internacional de crianças.

 

Nesta terça-feira (12), desembargadores da Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Goiás concederam um habeas corpus em favor de João de Deus e do seu filho, Sandro Teixeira. Foram 4 votos favoráveis e 1 voto contrário. Mas apenas o filho será solto, já que o médium possui outros mandados de prisão.

 

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira

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