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O capitalismo selvagem e a máquina de guerra

14.12.2016
 
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No Polo Naval de Rio Grande, 3.200 trabalhadores foram demitidos essa semana pela Engevix. Considerando que cada trabalhador representa em média uma família de 4 pessoas, são mais de 10 mil pessoas que, repentinamente vão engrossar as estatísticas sobre a pobreza no País.

Rapidamente, os meios de comunicação trataram de circunscrever o problema à uma crise setorial. No polo, se fabricavam cascos de navios petroleiros para Petrobrás e a estatal está em crise, os preços caíram no mercado internacional de petróleo e a Engevix está em processo de recuperação judicial.

Poderíamos lembrar que este é um efeito perverso, ainda que secundário, da Operação Lava Jato, que em vez de só perseguir políticos e empresários corruptos, está também destruindo empresas, o que no caso da Petrobrás parece atender também ao plano de privatizar a empresa.

Só que o problema é muito mais amplo: ele indica uma crise estrutural no sistema capitalista global, que age descontroladamente destruindo milhões de postos de trabalho no mundo.

O milagre capitalista dos anos 70 se esgotou e ele hoje ele é composto de voláteis mercados de capital, garantidos pela força militar dos Estados Unidos.

Em 1961, ao deixar a Presidência dos Estados Unidos, o general Eisenhower denunciou o crescimento da indústria de guerra, criando um neologismo aplicado até hoje, o complexo industrial-militar. 

É sobre ele que o capitalismo tem hoje suas bases. Um estudo do Stockholm International Peace Research (SIPRI) mostra que a indústria das armas absorveu em 2014, a espantosa soma de 1 trilhão e 800 bilhões de dólares no mundo inteiro, mais da metade em favor das forças armadas americanas. Nesse ranking perverso, China e Rússia ficam em segundo e terceiro lugares, bem distantes dos Estados Unidos. Surpreendentemente, um pequeno país, a Arábia Saudita fica em quarto lugar, possivelmente porque é usada pelos Estados Unidos como testa de ferro dos Estados Unidos. 

Segundo o SIPRI, o Brasil, figurou em 2014 em décimo primeiro lugar, gastando 31,7 bilhões de dólares com suas forças militares, o que corresponde a 1,4% do PIB do País, o que talvez explique um pouco a opção do governo Temer de cortar despesas nas áreas da saúde e educação como compensação.

Esta semana, os jornais anunciaram que o orçamento militar dos Estados Unidos, que havia decrescido um pouco nos últimos 2 anos, voltará a subir em 2017, com a previsão de gastos de 583 bilhões de dólares.

Isso significa para todos os países citados, inclusive o Brasil, menos investimentos em programas sociais, na saúde e na educação.

Os estados do bem-estar social europeu de alguns anos atrás vão desaparecer rapidamente, sucumbindo diante das hordas de milhões de desesperados migrantes que fogem de suas terras de origem para invadir um mercado de consumo que se esgota rapidamente.

Países colonialistas como a Inglaterra, França, Bélgica, Espanha e Portugal, que durante décadas exploravam as riquezas da Ásia e da África, estão quase explodindo, atacados por ondas humanas vindas dos confins desses espoliados continentes.

Num primeiro momento, ainda podem resistir a Alemanha, a Rússia, a China os Estados Unidos, mas até quando?

Eles dependem de um mercado de consumo, que tende a desaparecer, porque os consumidores estão desaparecendo como tais, já que, cada vez mais, seus empregos se evaporam.

Os avanços das novas técnicas de produção, provocam a demissão cada vez maior de trabalhadores e o estreitamento do mercado de trabalho.

Istvan Meszaros lembra com razão que o grupo etário da "geração útil" (aquela que ainda está em condições de ser absorvida pelo mercado de trabalho) está encolhendo para uma faixa entre 25 e 50 anos. 

Milhões de jovens não conseguem conquistar as cada vez menores vagas disponíveis nesse mercado, enquanto as gerações mais velhas são aposentadas precocemente, engrossando os grupos de dependentes da previdência social, onde ela ainda existe, ou são simplesmente entregues à marginalidade.

Para o filósofo húngaro, essa geração intermediária, comprimida entre jovens e velhos inúteis, vai também se tornar também supérflua, logo que assim determinar os interesses do capital.

As relações entre capitalistas e trabalhadores na busca de um objetivo comum, que os partidos reformistas de esquerda pregavam depois da guerra, não existem mais. 

Um mercado de trabalho quase escravo se formou no sudeste asiático para atender a sede de lucros dos grandes capitalistas e adiar o possível fim do sistema.

Hoje, o tênis Nike que você pode estar usando, foi costurado por vietnamitas, possivelmente filhas e netas de algumas daquelas vítimas dos bombardeios de napalm que americanos usaram no Vietnam.

Durante 20 anos, os Estados Unidos comandaram a guerra mais selvagem que o mundo já viu contra um povo quase desarmado, provocando mais de 3 milhões de mortos.

A guerra, que as forças armadas americanas perderam em 1975, está sendo ganha pelo capitalismo ainda que apenas por algum tempo

Algum tempo, porque sua crise é estrutural e não tem mais como ser resolvida por guerras. Mesmo as guerras localizadas, que permitiam manter funcionando segmentos de produção, são hoje arriscadas, na medida que podem se ampliar repentinamente, sem que os interessados possam circunscrevê-las a uma determinada região.

Veja-se o caso da Síria, que de repente envolve questões que interessam a todo o Oriente Médio.

Repetindo então aquela pergunta que Lenin fez há quase 100 anos: o que fazer?

O remédio seria simples - fim do capitalismo e criação de um sistema socialista -  não fosse a atual correlação de forças no cenário internacional.

Desde a Revolução Soviética de 1917, as esquerdas no mundo inteiro abandonaram o caminho da insurgência radical ao sistema, passando a lutar por algumas vantagens pontuais dentro do sistema parlamentar e através de seus partidos de classe.

Um fracasso atrás do outro -  o "compromisso histórico" do PCI com o PDC, na Itália; a estalinização do Partido Comunista Francês; o fracasso da "terceira via", com o Partido Trabalhista Inglês, ainda não ensinaram que o caminho parlamentar está fechado para as esquerdas.

Hoje, transformados em grandes centros de corrupção, como parece ser o melhor exemplo o parlamento brasileiro, os parlamentos viraram balcões de negócios, onde os empresários dão as cartas nas questões mais importantes.

Os que imaginaram que governos de tendências populares, como o PT, no Brasil, pudessem fazer uma grande reforma social, já perderam as esperanças. Foram tolerados, com suas políticas assistencialistas, durante os anos de prosperidade relativa, dentro da grande crise estrutural do capitalismo, mas logo que a ela recrudesceu, foram afastados.

Hoje, o grande capital é quem comanda os parlamentos no mundo inteiro - no caso brasileiro, com poucas exceções senadores e deputados chegam à Brasília, com um compromisso com os empresários que financiaram suas campanhas - e qualquer questionamento sobre a continuidade do atual sistema espoliativo, se perde nos discursos de uma minoria, tolerada, para ilustrar a falsa imagem de que se vive num sistema democrático.

Um exemplo: Cláudio Melo Filho, que chegou às manchetes essa semana como o grande delator da Odebrecht, implicando nas suas denúncias, desde Temer até o mais obscuro dos deputados, foi em 2.012, agraciado com a Medalha do Mérito Legislativo, iniciativa do então líder do PSDB, Bruno Araújo, não coincidentemente, hoje Ministro das Cidades de Temer.

O único caminho possível para reversão desse quadro está nas ações extras parlamentares. Infelizmente, hoje a direita, parece mais competente para mobilizar a classe média para movimentos moralistas e conservadores, do que a esquerda, para movimentos revolucionários, embora o grande teórico do socialismo atual, Istvan Meszaros, veja como uma atualidade histórica, a ofensiva socialista no mundo inteiro.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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