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Europa: Mais uma vez, duas medidas

14.11.2006
 
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Europa: Mais uma vez, duas medidas

 Em maio deste ano, a república de Montenegro decidiu separar-se da Sérvia, destruindo definitivamente o que sobrava da antiga Iugoslávia. 55% por cento dos votos foram a favor da independência. Por todo o mundo ocidental, celebrava-se a vitória da vontade popular: o povo montenegrino havia exercido seu direito à auto-determinação, e escolhera livremente o caminho da soberania.

A União Européia foi particularmente entusiasta, dando inclusive início a acordos com o novo estado, que podem incluir a adesão de Montenegro na UE.

O apoio dado à independência de Montenegro foi o mais recente sucesso da União Européia, dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) no desmembramento da Iugoslávia. Mas aparentemente, não o último: agora, querem também desmembrar a Sérvia, fazendo do Kosovo um país independente.

 A UE já admitiu que não reconhece a atual constituição sérvia, aprovada em setembro deste ano em plebiscito popular, que declara que Kosovo é parte da Sérvia. No dia 12 deste mês, a república da Ossétia do Sul decidiu separar-se da Geórgia, da qual ela é parte. Nada menos que 98% da população votou pela separação.

Depois disso, há duas possibilidades a ser decididas pelos ossétios: a independência, ou a integração com a Rússia. O presidente russo, Vladimir Putin, até agora desmentiu que seu governo esteja negociando pela integração da Ossétia do Sul. Existem diferenças entre o separatismo montenegrino e o ossétio. Os primeiros não são uma etnia diferente dos sérvios, falam a mesma língua, tem as mesma religião, cultura e tradições.

A Sérvia sempre reconheceu a autonomia montenegrina na administração dos assuntos internos, e nunca tentou manter a união pela força. Os ossétios falam uma língua completamente diferente da georgiana, são outra etnia, com cultura distinta. Depois do fim da URSS, encontram-se divididos em dois países: metade na Rússia (na república da Ossétia do Norte) e metade na Geórgia.

Este país não reconhece a autonomia ossétia desde 1989, antes ainda do fim da URSS, e tentou manter a união à força, numa guerra que só terminou com a chegada da missão de paz russa, em 1992. E desde 2004 a Geórgia está comprando armamentos em grande quantidade e fazendo constantes ameaças, aparentemente preparando-se para uma nova guerra.

Racionalmente, não há o que discutir: se a independência de Montenegro foi reconhecida, mais motivos ainda existem para reconhecer a da Ossétia do Sul. Apesar disso, a reação da UE e da OTAN é completamente diferente: em vez de celebrar a auto-determinação e soberania dos ossétios, recusam-se por completo a aceitar os resultados.

O Secretário-Geral do Conselho da Europa, Terry Davis, havia dito antes sobre o referendo: “As autoridades secessionistas da região georgiana da Ossétia do Norte estão desperdiçando seu tempo e esforço na organização de um ‘referendo sobre a independência’ em novembro.

Não penso que alguém reconheça os resultados de um tal referendo. Se as pessoas no poder na Ossétia do Sul estão genuinamente comprometidas com o interesse de seu povo que eles alegam representar, eles deveriam entrar em negociações com o governo georgiano para encontrar uma solução pacífica e internacionalmente aceitável.”

Agora, ao saber sobre o resultado do referendo, o mesmo funcionário afirmou que ele é “desnecessário, contraprodutivo e injusto.” A diferença de discursos europeus sobre os referendos montenegrinos e ossétios é aberrante: de um lado, as mais calorosas e entusiásticas felicitações; do outro, uma dura condena, como se nota pelos termos “autoridades secessionistas”, que “alegam representar” seu povo, e que organizaram um referendo “injusto”. Por quê? Porque a Sérvia sempre foi contra o desmembramento da Iugoslávia, nunca foi muito favorável a entrar na União Européia, e menos ainda na OTAN.

 E como se não bastasse, também mantém excelentes relações com a Rússia. Por outro lado, o regime do presidente georgiano Mikhail Saakshavili, que chegou ao poder através de um golpe de estado patrocinado pelas potências ocidentais, quer a todo custo entrar na OTAN, se possível na UE, e não perde uma oportunidade de provocar a Rússia — a mais recente, de prender 4 oficiais russos em missão de paz na Ossétia do Sul, sob a acusação de espionagem.

Em vez de intimidar a Rússia, tudo o que Saakshvili conseguiu foi o bloqueio terrestre, naval e aéreo de seu país, a duplicação do preço do gás vendido pela Rússia, e um embargo bancário. Quem paga pela incompetência e submissão de seu presidente é a população georgiana.

 Enfim, a OTAN e a UE consideram a Geórgia e Saakshvili grandes amigos, e é preciso ajudá-los a qualquer preço. Não importa que a quase totalidade de um povo tenha manifestado o repúdio ao governo central georgiano, que não aceita conceder-lhes autonomia regional.

Também não importa o fato que a Geórgia mais que duplicou seus gastos militares, apesar de uma péssima situação econômica, preparando-se para uma guerra contra a Ossétia do Sul e a Abkházia (outra república que quer separar-se da Geórgia, pelos mesmos motivos).

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