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Ofensiva Imperialista. EUA Parte para 'Tudo ou Nada' Global

14.10.2017
 
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Ofensiva Imperialista. EUA Parte para 'Tudo ou Nada' Global

 

Mergulhado em crise econômica e escândalos de corrupção, Império agonizante ataca da maneira mais agressiva dos últimas 30 anos


Edu Montesanti, em Global Research

"A era moderna do imperialismo é uma guerra contra a democracia, ameaça ao poder ilimitado que não pode ser tolerada. Por isso, desde o final da Segunda Guerra Mundial, a maioria dos governos dos Estados Unidos tem derrubado ou tentado derrubar verdadeiras democracias", afirma para esta reportagem o jornalista e cineasta australiano John Pilger enquanto, desde que Donald Trump chegou à Casa Branca em 20 de janeiro, o mundo vive efervescência que, para determinados especialistas, é a mais grave pós-Segunda Guerra. 

O historiador e especialista nuclear estadunidense Peter Kuznick observa à reportagem que o discurso do medo e do ódio possui objetivos tão antigos quanto claros, isto é, justificar políticas linha-dura, aumento de gastos militares em detrimento de investimentos sociais, e no caso particular dos Estados Unidos, ampliação de suas bases militares mundo afora: "As pessoas sacrificam liberdades para obter mais segurança. Vimos isso ocorrer nos Estados Unidos após o 11 de Setembro". No caso particular de Trump, o diretor de Estudos Nucleares da Universidade Americana de Washington D.C. avalia que o acirramento da intolerância e da criação de inimigos hoje "também serve como distração dos escândalos que envolvem sua administração".

'América Grande de Novo'


Na ambígua campanha presidencial o magnata nova-iorquino dava a entender, por um lado, que diminuiria o belicismo estadunidense, mas logo nos primeiros dias na presidência já ficou claro que o Trump belicista dos comícios, por outro lado impossível de ser escondido, impunha-se na Casa Branca evidenciando o que significava "fazer a América grande de Novo", lema do então candidato republicano. 

Em 26 de janeiro, o estadunidense Bulletin of the Atomic Scientists emitiu o anual Doomsday Clock (Relógio do Dia do Juízo Final) destinado a avaliar riscos de guerra nuclear, apontando alarmantes "2,5 minutos para a meia-noite", ou seja, confronto atômico. Consideração mais crítica desde 1953 quando apontava 2 minutos, o principal motivo para o alerta agora é a ascensão à Casa Branca do imponderável bilionário de direita. "Na campanha presidencial, Trump fez comentários perturbadores sobre uso e proliferação de armas nucleares", considera o Boletim. Perguntado sobre o alarme, Kuznick manifesta-se preocupado: "Quando há imbecis como Trump e Lindsay Graham (senador republicano pela Carolina do Sul) que não parecem valorizar a vida humana, mas agem como palhaços valentões, a ameaça torna-se real". 

Até 31 de julho Trump, que promete fazer de seu país potência militar nunca vista antes, despejou 20.650 bombas, 80% do total de Barack Obama em todo o ano de 2016, e assassinou civis no Afeganistão a um nível superior em 67% comparado ao mesmo período do ano anterior, segundo relatório da ONU. Trump eleva Washington a uma maquinaria da guerra sem precedentes na história moderna (nada pacífica) do país ao norte do Rio Bravo, e anuncia aumento do efetivo militar em território afegão. 

Contrariando retórica da campanha presidencial de normalização das relações com a Rússia e distanciamento dos Estados Unidos em relação à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), as tensões entre Washington e Moscou aumentam em decorrência das declarações e medidas agressivas de Trump. Desde julho a OTAN, que repentinamente passou a ser valorizada pelo novo ocupante da Casa Branca, realiza exercícios militares nas fronteiras russas que, até novembro deste ano, totalizarão 18 com o objetivo de garantir sua presença permanente ao redor da Rússia. "Os Estados Unidos escarneceram do direito internacional durante a Guerra Fria, e fazem o mesmo hoje", critica Kuznick. 

Especificamente sobre a histeria norte-americana contra os russos, o historiador aponta o cinismo da mídia e dos tomadores de decisão de seu país. "É quase cômico ouvir os Estados Unidos se queixarem de que a Rússia raqueou correios eletrônicos e praticou roubo cibernético, enquanto Edward Snowden expôs a extensão das operações cibernéticas de Washington que atingiram todos os países do planeta. É quase cômico ouvir os Estados Unidos se encherem de ódio pela incorporação russa da Crimeia ou pela intervenção na Ucrânia enquanto invadiram país por país, operando atualmente em cerca de 135 nações". 

E acrescenta, sobre uma das campanhas presidenciais mais baixas da historia dos Estados Unidos: "Com 17 adversários que discutiam quem era mais ignorante quando se tratava de mudanças climáticas e ciências gerais, além de debater quem tinha o pênis maior, a Rússia precisava mesmo intervir para desacreditar a democracia norte-americana?", ironiza o historiador e especialista nuclear estadunidense Peter Kuznick, também ouvido por esta reportagem para comentar o cenário político internacional enquanto, na velha busca desesperada por criação de inimigos, internos e externos a fim de justificar e ampliar sua política coercitivo-expansionista apoiada no medo, no ódio e na desinformação, a mídia e a classe política dos Estados Unidos acusam os russos de terem interferido em suas eleições presidenciais de 2016. "Os norte-americanos estavam fazendo um grande trabalho (para desacreditar sua democracia), sem ajuda da Rússia".

Projeto de muro fronteiriço com México, proibição da entrada de cidadãos de certos países de maioria islamita em território norte-americano, manutenção da prisão de Guantánamo, apoio aberto a métodos de tortura e assassinato de familiares de terroristas além de sinais de simpatia à Ku Klux Klan. Dentro dos Estados Unidos, ditos e feitos carregados de ódio de Trump transferem-se, naturalmente, à vida cotidiana dos cidadãos: assassinatos e os mais diversos atos de terror majoritariamente por estadunidenses brancos, protestantes e das classes mais abastadas, crescem a níveis alarmantes. "Quando você pensa sobre a doutrinação dos norte-americanos, que diz que seu país é modelo de ideais, a ironia é medonha", observa Pilger. 

Tensão no Leste Asiático


Pequena ilha a oeste do Oceano Pacífico a 3,425 quilômetros da Coreia do Norte, Guam tem estado no centro do noticiário internacional pelas supostas ameaças norte-coreanas de ataques com mísseis: colônia norte-americana desde 1898, o território guamês tem sido mais vítima da grande mídia e dos próprios Estados Unidos que do ditador norte-coreano Kim Jong-um. LisaLinda Natividad, professora de Serviço Social na Universidade de Guam e ativista pela descolonização, comenta à reportagem de sua residência no pequenino povoado de Inarajan, que os guameses não se sentem seguros com a presença do exército norte-americano mas que, por causa dele, sua sociedade traz traumas da Segunda Grande Guerra quando foi zona ativa de conflito por três anos, vive na miséria entre outros graves problemas sociais e na condição de cidadãos estadunidenses de terceira classe, além do estado de medo pelas tensões entre Washington e Pyongyang. "É a presença dos Estados Unidos aqui que nos torna alvo preferencial [de possíveis ataques por parte dos norte-coreanos]", denuncia Lisa.

Em 8 de agosto, aniversário de 72 anos do lançamento das bombas atômicas pelos Estados Unidos contra Hiroshima e Nagasaki, Trump não poderia ter sido mais original nos discursos: ameaçou atacar com bombas atômicas a Coreia do Norte. Isso porque, no mesmo dia, Pyongyang havia anunciado o desenvolvimento de ogiva nuclear miniaturizada que pode caber dentro de seus mísseis. Em 4 e 28 de julho, Pyongyang havia executado testes com mísseis de alcance intercontinental capazes de atingir o território norte-americano, e em 1ºde agosto, em entrevista à CNN, o senador Graham afirmara ainda que "se houver uma guerra para brecá-los [os norte-coreanos], será por lá mesmo. Se milhares morrerem, será por lá mesmo, não aqui enquanto (Trump) disse na minha cara... Eu estou dizendo que (opção militar) é inevitável, se a Coreia do Norte prosseguir". 

Diante disso, no dia 9 de agosto o porta-voz do exército norte-coreano disse que Pyongyang observava cuidadosamente Guam, onde há duas bases militares dos Estados Unidos, considerando enviar foguetes Hwasong-12 ao litoral guamês a cerca de 40 quilômetros da ilha: foi o suficiente para a grande mídia, inclusive guamesa que segundo Lisa defende os interesses de Washington, alardear um iminente risco de ataque nuclear de Kim contra a ilha vizinha. Em 10 de agosto, Trump disse: "Se ele fizer algo com Guam, ocorrerá algo que ninguém nunca viu antes".

No mesmo dia o Pacific Daily News, principal jornal de Guam, trazia na primeira página com letras garrafais: "14 Minutos!", referindo-se ao tempo estimado que um míssil norte-coreano leva para chegar à ilha da Micronésia. Questionada sobre as posições de Pyongyang, Lisa diz que mantém constantemente posição defensiva, ao contrário de Washington: "A Coreia do Norte sempre diz que atacará os Estados Unidos apenas se for atacada antes", diz a docente e ativista de ascendência chamorro, principal etnia da ilha da Micronésia. Também perguntada pela mídia local, Lisa não hesita em responder: "É usada para promover a agenda global dos Estados Unidos, apenas contando um lado de situações geopolíticas e justificando o complexo industrial militar dos Estados Unidos". 

Em 3 de setembro, a Jong-un confirmou o sucesso na realização do teste de uma bomba de hidrogênio mais avançada, carregada em um míssil de longo alcance, o sexto teste nuclear de Pyongyang até agora. Embora tenha condenado tanto Washigton quanto Pyongyang, o presidente russo Vladimir Putin reconhece o direito norte-coreano à auto-defesa. Kim, por sua vez, lembra o que aconteceu com Iraque em 2003, e Líbia em 2011 após terem se desarmado. E no dia 14, Pyongyang lançou um míssil que sobrevoou a ilha de Hokkaido, norte do Japão, até cair no oceano, acirrando anda mais as tensões: Tóquio realizou sessão emergencial do conselho de segurança nacional no mesmo dia, e desde então o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, passou a clamar por medidas duars de Washngton contra os norte-coreanos que possuem 20 ogivas nucleares, diante de ao menos 80 de Israel e 6.800 dos Estados Unidos de acordo com o sueco Stockholm International Peace Research Institute.

Diante das declarações de Lisa e dos últimos acontecimentos, vale recordar que em outubro de 2011 a então secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, publicou na revista Foreign Policy análise intitulada America's Pacific Century (Século dos Estados Unidos no Pacífico), argumentando que a região do Pacífico é "chave" à afirmação do domínio global norte-americano. "Os mercados abertos na Ásia fornecem aos Estados Unidos oportunidades sem precedentes de investimento, comércio e acesso à tecnologia de ponta. (...) Nosso desafio agora, é construir uma rede de parcerias e instituições em todo o Pacífico tão permanente quanto consistente aos interesses e valores norte-americanos", o que pode explicar as tensões atuais no Leste da Ásia, e a sede dos "falcões" estadunidenses por severas ações militares naquela região. Vale ressaltar que, desprezando reivindicações chinesas de soberania, a Marinha dos Estados Unidos tem navegado pelo Mar da China Meridional. "À medida que os neocons se proclamaram com a queda da União Soviética, os Estados Unidos querem mesmo um mundo unipolar onde exista apenas uma superpotência, sem rivais", alerta Kuznick. 

Entrevistado pela reportagem, o economista canadense e diretor de Centre for Research on Globalization, Michel Chossudovsky, ressalta que os Estados Unidos, violando o artigo 13b do Armistício Coreano de 27 de julho de 1953, mantém há mais de meio século instalações nucleares na Coreia do Sul e que a cada ano, após o teórico final da Guerra da Coreia, o exército norte-americano realiza exercícios militares na Península além de gerar competição entre coreanos, para justificar sua presença militar na região em ameaça sobretudo a chineses e russos. "Reunificada, a Coreia se tornará grande potência mundial", o que é temido pelos norte-americanos para Chossudovsky que aponta, ao mesmo tempo, que a sociedade e a política dos Estados Unidos não servem de modelo a ninguém. 

De acordo com ArmsControl.org de abril de 2013, o regime norte-americano possui nada menos que 5.133 ogivas nucleares, em contraste com a Coreia do Norte cuja estimativa é que possua de 4 a 8 dessas ogivas. "Pyongyang revelou a instalação de uma centrífuga em 2010, mas a capacidade de produzir urânio altamente enriquecido para armas permanece obscura", informa ArmsControl.org. Além disso, segundo oNational Resources Defense Council os Estados Unidos têm fornecido armamentos nucleares a cinco Estados europeus identificados como "Estados nucleares não declarados": Holanda, Bélgica, Alemanha, Itáila e Turquia, além de Inglaterra e Grécia ameaçando, desta maneira, Rússia e os próprios rivais asiáticos em defesa dos interesses estratégicos e econômicos de Washington que se outorga o direito do armamento atômico indiscriminado sob alegação de zelar pela segurança global, fato clamorosamente contrariado por toda a história e pelos fatos mais recentes. Sobre o arsenal nuclear mantido na Europa pelos norte-americanos, observou em 2010 George Robertson, ex-secretário-geral da OTAN entre 1999 e 2004: "Longe de tornar a Europa mais segura e distante de produzir uma Europa menos dependente do território nuclear, [a política] pode acabar trazendo mais armas nucleares para o continente europeu e frustrar algumas das tentativas que estão sendo feitas a fim de se obter o desarmamento nuclear multilateral". O próprio Estado de Israel, maior aliado estadunidense no Oriente Médio e quiçá no mundo, igualmente considerado "Estado nuclear não declarado", possui as 80 armas nucleares já mencionadas apoiado fundamentalmente pelos Estados Unidos. 

Enquanto isso, pesadas sanções econômicas através da Resolução 2375 da ONU de 11 de setembro à pequena nação norte-coreana, estrangulando a já traumatizada sociedade local pela genocida Guerra da Coreia, são impostas pelas grandes potências, sempre lideradas nessas contraditórias medidas por Tio Sam. Contra Pyongyang, a ordem hoje é a mesma de Richard Nixon contra o Chile de Salvador Allende, "Façamos a economia gritar!", ideia colocada em prática também por Bush filho no Iraque que não possuía bombas de destruição massiva conforme jurava a Casa Branca. No caso de hoje, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, disse ao Conselho de Segurança após a votação que "estas são, de longe, as medidas mais fortes já impostas à Coréia do Norte". 

A história é muito clara ao apontar que tais efêmeras sanções não são aplicadas para promover paz nem segurança nacional de nenhum Estado, porém servem como pretexto a fim de ampliar a dominação das grandes potências imperialistas especialmente aos governos que não acatam seus ditames. Haja vista o descaso dos próprios Estados Unidos em relação às históricas barbaridades cometidas pelos governos de Arábia Saudita, Israel, Colômbia e México, entre outros aliados de Washington mundo afora. Como observa Carla Stea, correspondente do sítio canadense Global Research em Nova Iorque, além do imensurável estrago econômico, tais embargos humilham, atentam psicologicamente e ferem a dignidade das sociedades sancionadas. "Quanto mais força a vítima tem para resistir, mais anertas serão as agressões contra ela".

Recordando que a Guerra da Coreia - das mais arrasadoras desde o final da II Grande Guerra que apenas no Norte da Península destruiu completamente suas 78 cidades e milhares de povoados matoando entre três e quatro milhões de pessoas (o que significa cerca de um terço do total de sua população à época) - não terminou, visto que foi assinado apenas o Armistício (trégua) e não Acordo de Paz por objeção dos Estados Unidos, o pesquisador canadense enfatiza que sem entender a história não se pode compreender os riscos de guerra nuclear atualmente: "Quem representa ameaça à humanidade? Washington, sem dúvida. 30 por cento da população da Península da Coreia foi morta pelos bombardeios entre 1950 e 1953, 97 por cento de toda a paisagem foi destruída assim como todas as cidades e povoados do Norte, completamente destroçado. Alguma nação ameaça a segurança dos Estados Unidos? A resposta é não". O general norte-americano que combateu na Coreia, Curtis Emerson LeMayobservou: "Durante um período de cerca de três ano, matamos vinte por cento da população". 

Em concordância com Chossudovsky, a cientista política filipina e editora assistente do Global Research Jezile Torculas diz à reportagem que a posição da Coreia do Norte é simplesmente defensiva. "Nesta era da desinformação, a vítima torna-se vilã e o verdadeiro agressor, heroi", critica a analista residente da capital Manila do arquipélago malaio, no sudeste asiático bem próximo de Guam. Stephen Lendman, analista de Global Research, autor de diversos livros e ex-militar por dois anos dos Estados Unidos, aponta no mesmo sentido quanto ao que diz ser "direito sagrado" da Coreia do Norte se defender. Procurado pela reportagem, Lendman lembra que a Coreia do Norte, ao longo de toda a história, jamais atacou ninguém, mas que "teme mesmo a possível agressão dos Estados Unidos, por isso buscando poderosos meios de dissuasão a fim de salvar a nação e sua liderança da destruição". 

A própria revista norte-americana Newsweek, bem conhecida por suas posições pró-imperialistas, reconheceu em abril deste ano os crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos contra o povo coreano no início da década de 1950: na reportagem intitulada What War with North Korea Looked Like in the 1950s and Why It Matters Now, o historiador e escritor estadunidense Bruce Cumings afirmou que "A maioria dos norte-americanos desconhece completamente que destruímos mais cidades no Norte do que fizemos no Japão ou na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial... Todos os norte-coreanos sabem disso. Nós nunca ouvimos falar disso".

Até 2002, quando o então presidente George Bush colocou a Coreia do Norte no chamado "Eixo do Mal", Pyongyang havia abdicado do armamento nuclear. Atualmente, Jong-un sinaliza disposição em negociar desde que as as forças militares norte-americanas retirem-se da Península Coreana. Em 21 de junho o embaixador norte-coreano na Índia declarou, em entrevista televisiva, que seu governo "está pronto para negociar, a qualquer momento". Na realidade, Pyongyang sempre se mostrou disposto a negociar, ao contrário de Washington. Enquanto grande parte da classe política norte-americana, inctada pela mídia, clama por uma ação militar de Trump contra Pyongyang, o Pentágono tem um plano específico para realizar um ataque preventivo, aguardando apenas uma ordem presidencial. 

Consultada pela reportagem para analisar do ponto de vista jurídico um suposto ataque dos Estados Unidos contra a Coreia do Norte, Azadeh Shahshahani, fundadora e diretora jurídica do Project South e ex-presidente de National Lawyers Guild, condena o tom belicista do regime de Trump afirmando que qualquer ação militar contra os norte-coreanos violaria gravemente o direito internacional. "O lançamento de um ataque militar contra a Coreia do Norte seria muito problemático. A Carta da ONU apenas permite o uso da força militar pelos Estados para autodefesa, ou quando há uma ação coletiva pelo Conselho de Segurança da ONU. Nenhum desses pré-requisitos é encontrado neste caso". 

Há muito tempo, China e Rússia vêm tentando aliviar as tensões através de diálogo entra ambas as partes, e fazer com que a Coreia do Norte interrompa testes nucleares e que os Estados Unidos, em contra partida, suspendam exercícios militares na fronteira sul-coreana com o Norte: Washington se recusa a fazer isso, prosseguindo com as atividades em parceria com Seul. O ex-agente da CIA John Kiriakou, preso por dois anos e meio a partir de 2012 por ter denunciado métodos de tortura da Agência Central de Inteligência a mando de George Bush contra prisioneiros de guerra, suspeitos de práticas de terror, revela com exclusividade a esta reportagem que um general sul-coreano afirmou a ele, em anonimato, que Seul observa exagero intencional nas ameaças do presidente norte-americano contra os norte-coreanos, e que o governo sul-coreano, que tem condenado a recente postura agressiva de Washington contra o Norte, aposta que a China mediará uma negociação. Kuznick avalia que não existe solução militar. "Uma negociação é o que quase todos no mundo esperam, mas improvável nas circunstâncias atuais: todos sabemos o que ela implicaria". O historiador não acredita que Washington cederá nas investidas imperialistas. "A China vem promovendo acordo negociado há anos, como a Rússia. A Coreia do Norte repetidamente se mostra pronta a aceitá-lo: os Estados Unidos recusam".

Dada as mais recentes trocas de ameaças entre norte-coranos e norte-americanos, contudo, o especialista nuclear diz que se deve mover os ponteiros do Relógio do Dia do Juízo Final para ainda mais próximo da meia-noite. "Uma esquerda revitalizada é a chave para salvar este planeta. Estamos correndo contra o tempo, que se esgota. O caminho pela frente não será nada fácil, mas podemos e devemos prevalecer". Assim como a Rússia salvou a Síria de uma catástrofe made in USA em setembro de 2013, hoje a China funciona como contrapeso à ofensiva estadunidense no Leste Asiático. Em Pequim está a esperança de que seja evitada a maior tragédia da espécie humana, em nome da ganância desenfreada de um Império combalido.

Guerra à Democracia na América Latina


Pilger considera que um dos principais focos imperialistas hoje é a retomada do que sempre chamou de seu "quintal", a América Latina, região mais rica em biodiversidade do planeta. "Os Estados Unidos querem seu 'quintal' de volta. Há muito a perder na região". No caso particular da Venezuela, onde a Revolução Bolivariana nacionalizou as maiores reservas petrolíferas do globo e transformou a vida da sociedade para muito melhor, a analista norte-americana Whitney Webb, do sítio Mint Press dos Estados Unidos, pontua para esta reportagem que Rex Tillerson, secretário de Estado norte-americano, foi diretor da Exxon Mobil sendo ele quem, "há muito tempo e não Trump, usa todas as armas contra a Venezuela". A socióloga canadense-venezuelana Maria Páez Victor concorda, e adverte à reportagem: "O perigo à Venezuela intensifica-se, enquanto os Estados Unidos realizam os bem conhecidos planos de desestabilização historicamente executados na América Latina, para se livrar de governos que não se submetam aos seus interesses".

A convite de Michel Temer e em parceria com governos de Peru e Colômbia, em novembro militares estadunidenses realizarão exercícios de dez dias na região amazônica brasileira próxima à fronteira com a Venezuela. Pela riqueza em petróleo a nação caribenha vive, desde que Hugo Chávez chegou ao Palácio de Miraflores em 1999, entre a plena democracia e os constantes ataques dos Estados Unidos que financiam grupos violentos e personagens envolvidos em graves casos de corrupção. Em agosto, Trump já disse que considerava intervenção militar à Venezuela pela votação da Assembleia Constituinte de 30 de julho, composta por cidadãos comuns de fora da elite econômica e dos partidos políticos, assim como ocorreu na aprovação da Constituição Bolivariana de 1999, referência democrática mundial. 

Em represália, o Departamento de Tesouro dos Estados Unidos congelou ativos financeiros sob jurisdição norte-americana de diversos funcionários do governo bolivariano, inclusive do presidente Nicolás Maduro. Outras sanções proíbem negociação da dívida venezuelana e impedem a estatal petrolífera PDVSA de vender novos títulos a cidadãos ou instituições financeiras estadunidenses. A resposta do mandatário venezuelano em seguida foi, uma vez mais, amplamente apoiada pela sociedade local: "Não obedecemos ordens dos governos imperialistas. Sancionem o quanto desejam, porque o povo da Venezuela decidiu ser livre. Sou um presidente livre e independente, e também anti-imperialista, anticolonialista e anti-racista ". Em entrevista à rede venezuelana de TV Telesur em setembro, o secretário do Partido Comunista Congolês, Sylvere Boswa, questionou o que significaria por exemplo ao Brasil hoje, vítima de golpe parlamentar-jurídico-midiático, Assembleia Constituinte. "O Brasil é apontado com desdém internacionalmente. O mundo livre apoia a Assembleia Constituinte venezuelana, exemplo à América Latina e ao mundo". 

Maria Páez observa que os setores violentos que tentam passar a impressão de "árbitros da democracia" são os mesmos que, em 2002, apoiaram golpe de Estado contra Chávez. "Durante aquelas tensas 48 horas, uma das primeiras atitudes que tomaram foi abolir a Constituição de 1999, a que agora dizem defender". A socióloga teme que, "perigosamente ignorante", Trump arme a oposição e gere guerra civil na Venezuela. "E que oposição! Racista, classista e antidemocrática, que desencadeia abertamente o terrorismo de rua, aprova abertamente que se queimem jovens até a morte devido à pele escura, que para eles indica que se tratam 'chavistas'. Incitam que os linche pelo mesmo motivo". 

Questionada sobre os grandes desafios da Venezuela, Whitney Webb considera que a área econômica é um deles. "No entanto, ao contrário da narrativa ocidental (a crise econômica) não é resultado da má gestão do governo venezuelano, mas das sanções dos Estados Unidos e da manipulação artificial dos preços do petróleo aos mínimos históricos - 'política' encoberta, articulada por Estados Unidos e sauditas para atingir, principalmente, a Rússia. Mas outros produtores de petróleo fora dos Estados do Golfo, como Venezuela e Equador, têm sido extremamente atingidos por essa manipulação de preços. Além disso, empresas pertencentes à oligarquia venezuelana, anti-chavistas, são flagradas gerando intencionalmente escassez (especialmente de produtos básicos)". 

"A América Latina tem sido o parque temático do poder corrupto dos Estados Unidos, a fim de impor sua vontade", pontua o cineasta australiano. "Este é um momento perigoso para a América Latina. Os ganhos obtidos pelas democracias sociais estão mais arriscados que nunca", acrescenta. Já o pesquisador da Universiade Americana de Washington prevê que, para consolidar essa "reconquista", Trump acentuará a tônica das guerras contra o terror e as drogas como pretexto "para manter as desigualdades que George Kennan traçou há 68 anos". Kennan (1904-2005) foi um dos inspiradores da Doutrina Truman, que ampliou as áreas de influência dos Estados Unidos no mundo pós-Segunda Guerra Mundial.

 


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