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A derrota do fascismo nas eleições peruanas

14.06.2011
 

O povo peruano deu um importante recado nas urnas. O fujimorismo, um dos partidos mais estruturados, que nunca perdeu uma eleição, e único movimento que há décadas apresenta um eleitorado fiel de pelo menos 20% do eleitorado nacional, foi derrotado.

Dep. Ivan Valente

Senhor Presidente, senhoras e senhores Deputados,

A derrota do fascismo nas eleições peruanas. 15144.jpegNeste final de semana, o povo peruano deu um importante recado nas urnas. O fujimorismo, um dos partidos mais estruturados, que nunca perdeu uma eleição, e único movimento que há décadas apresenta um eleitorado fiel de pelo menos 20% do eleitorado nacional, foi derrotado. A deputada direitista Keiko Fujimori, filha do ditador, que ganhou as eleições em 1990, 1995 e 2000, perdeu o segundo turno das eleições para o candidato da centro-esquerda, Ollanta Humala.

Foi uma derrota do ultra-conservadorismo e do fascismo, simbolizados no pai da candidata derrotada, responsável por assassinatos, desaparecimentos, esterilizações forçadas e hoje preso por corrupção, assalto ao erário e brutais violações de direitos humanos nos anos 90, como usar esquadrões da morte e massacrar populações indígenas. Desde a queda do regime militar de Juan Velasco Alvarado, em 1975, a direita estava no poder no Peru.

Inaugura-se, assim, a possibilidade de construção de um novo período na história do país, com novos valores em disputa. Tudo dependerá, no entanto, das opções que o novo governo de Humala fará. Semelhantemente ao que vimos no Brasil nos últimos processos eleitorais, Humala evitou uma grande polarização social na disputa e se aproximou de setores da direita que o obrigaram a fazer cada vez mais concessões. Para se ter uma idéia, dos três componentes da Frente Democrática (FREDEMO), que em 1990 garantiram a virada da economia do país para o monetarismo, dois - Vargas Llosa e a Ação Popular - apoiaram Humala.

O presidente eleito seguiu a receita lulista de "moderar-se" e conseguiu acordos com ex-presidentes peruanos, como Toledo e Alan García. Declarou por diversas vezes que sua inspiração de campanha foram as ações de Lula no Brasil e foi orientado por dois petistas que participaram das campanhas que levaram Lula ao poder: Luis Favre e Valdemir Garreta. Nos moldes da Carta aos Brasileiros, de 2002, Humala divulgou "compromisso com o povo peruano". No texto, por exemplo, não fala de reforma agrária, e, sim, da plena vigência dos direitos de propriedade.

Para responder ao mercado e os investidores, que preferiam Keiko Fujimori, antes do sufrágio de domingo Humala falou diretamente a eles, pedindo-lhes confiança. Se comprometeu a manter o crescimento e a estabilidade macroeconômica e falou em "gestão prudente". Depois de anunciado o resultado eleitoral, Humala fez um discurso conciliador, e prometeu um governo com "os melhores técnicos independentes para poder fazer um governo de base ampla, em que ninguém se sinta excluído". Já ouvimos e conhecemos bem os resultados deste discurso.

O candidato da centro-esquerda também prometeu não tocar nos acordos de livre comércio assinados num passado recente pelo Peru. Entre eles, um acordo bilateral com os Estados Unidos, que distancia a economia do país de assumir uma posição soberana em comparação com o que vem acontecendo, por exemplo, na vizinha Bolívia. Depois do primeiro turno, deu uma entrevista ao "The New York Times" e assegurou que, se fosse eleito no segundo turno, não levaria o Peru a aderir à ALBA.

O Peru é uma das economias do mundo que mais cresceu nos últimos anos. Em 2010, o PIB cresceu quase 9%. No entanto, essa riqueza seguiu concentrada nas mãos de poucos. Não foi à toa, por exemplo, que Keiko Fujimori ganhou com ampla vantagem em Lima, capital e centro financeiro do país. Mas os mais de 30% da população que vivem em condição de pobreza manifestaram seu voto de insatisfação com o modelo econômico em vigor, incapaz de fazer uma mínima distribuição de renda entre o conjunto da população, e contribuíram para a vitória de Humala.

Esta é a complexa realidade que o novo presidente enfrentará. Terá que fazer alianças num Congresso fragmentado - onde enfrentará deputados que criticam a sua vinculação ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez - e dar sinais de uma reconciliação política para "tranqüilizar" os mercados. Sua vitória já provocou o fechamento antecipado das operações da Bolsa de Valores de Lima, que teve a maior de sua história, de mais de 12%.

Como afirmou a imprensa peruana, se Keiko Fujimori tivesse ganhado as eleições, seria um sinal de anistia a seu pai e de fortalecimento das raízes ditatoriais que ainda agradam setores ultra-conservadores da sociedade. Seria a derrota de uma luta democrática que conseguiu condenar o ditador Fujimori e instalar uma Comissão da Verdade no país. Mas Ollanta Humala ganhou as eleições vestindo "um termo emprestado", baseando-se em um programa onde se compromete a manter a constituição de Fujimori de 1993, o modelo econômico e os tratados de livre comércio.

Acompanharemos as mudanças no Peru, saudando mais uma vez a derrota da ultra-direta no país, e atentos aos anseios da população peruana que precisa de mudanças concretas em definitivo. No país hoje se desenvolve uma forte luta contra a entrega dos recursos naturais às empresas transnacionais, que exploram o potencial mineral e energético do país em beneficio próprio, com a cumplicidade daqueles que se instalaram no poder desde a presidência de Fujimori. O crescimento que experimenta a economia não tem gerado desenvolvimento nem emprego de qualidade, e não chega aos bolsos dos trabalhadores. Humala precisa enfrentar com coragem e sem entreguismo essas questões.

Muito obrigado.

Ivan Valente
Deputado Federal PSOL/SP


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