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Ucrânia: O jogo de espera

14.05.2014
 
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"Assim sendo, eis a mensagem-chave dos referendos: REJEITAMOS a junta neoliberal neofascista de Kiev-OTAN. É 'governo' ilegal, de putschistas. NÃO SOMOS SEPARATISTAS PRÓ-RÚSSIA. Não queremos nos separar da Ucrânia. Queremos uma Ucrânia federalizada, unificada e civilizada, com províncias autônomas."


Tudo o que há para ver em matéria de mediocridade, nas elites políticas medíocres que supostamente representariam os 'valores' da civilização ocidental, apareceu bem claro, à vista de todos, na reação daquelas elites aos referendos em Donetsk e Lugansk. 


Os referendos podem ter sido coisa de última hora; podem ter sido organizados na correria; aconteceram no meio de uma guerra civil de facto; e, além do mais, foram realizados sob fogo - fogo, aliás, fartamente fornecido pela junta neofascista neoliberal da OTAN, a qual conseguiu inclusive assassinar alguns votantes em Mariupol. Processo imperfeito? Sim. Mas absolutamente perfeito em termos do que mostrou de um movimento de massas a favor do autogoverno e da independência política em relação a Kiev. 


Foi democracia direta em ação; não surpreende que o Departamento de Estado dos EUA tenha odiado tudo; e que tenha decidido vingar-se.[1] 


O comparecimento foi gigante. A vitória do voto pela independência, indiscutível. Transparência, também, total: votação à vista de todos, em urnas de vidro, com monitores para acompanhar cada passo do processo, jornalistas ocidentais dos principais veículos alemães, mas também da Kyodo News Agency ou do Washington Post. 


O que teria de vir depois que a República Popular de Donetsk se autoproclamou estado soberano e pediu que Moscou considere a integração do país à Federação Russa, não é a secessão, nem guerra civil generalizada, mas uma negociação. 


Ficou perfeitamente claro, a partir da reação ponderada, equilibrada, do Kremlin: "Moscou respeita o desejo do povo de Donetsk e Lugansk e espera que a realização prática da decisão alcançada nos referendos seja feita de maneira civilizada."[2] 


O tom de cautela refletiu-se também no pedido, que o Kremlin encaminhou, para que a Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE), ajude a construir a negociação. 


Pois mais uma vez, há prova concreta de que a junta neoliberal neofascista da OTAN não quer negociar coisa alguma. Palhaço, rei da farsa, o presidente 'interino' Oleksandr Turchynov declarou que o referendo teria sido             "aquela farsa que os terroristas chamam de referendo". E Washington e Bruxelas decidiram que os referendos teriam sido "ilegais". 


E tudo isso depois do massacre de Odessa; depois do surgimento de paramilitares neonazistas travestidos como soldados de uma "Guarda Nacional" (que os sabujos da imprensa-empresa norte-americana chamam de "nacionalistas ucranianos"); dúzias de agentes da CIA e do FBI agindo em território estrangeiro; mais de 300 dos inevitáveis mercenários da empresa Academi - ex-Blackwater. E o que mais esperar, se o atual secretário de Segurança Nacional ucraniano é o neonazista Andriy Parubiy, ex-comandante das 'forças de defesa' de Maidan, e chefe de torcida de Stepan Bandera, colaborador dos nazistas na 2ª Guerra Mundial?! 

O Banderastão - com seu remix dos esquadrões da morte à moda América Central dos anos 1980s - não reconhece referendos: prefere queimar vivos os 'insetos' russos étnicos que se atrevam a ocupar prédios. 


Assim sendo, eis a mensagem-chave dos referendos: REJEITAMOS a junta neoliberal neofascista de Kiev-OTAN. É 'governo' ilegal, de putschistas. NÃO SOMOS SEPARATISTAS PRÓ-RÚSSIA. Não queremos nos separar da Ucrânia. Queremos uma Ucrânia federalizada, unificada e civilizada, com províncias autônomas. 


'Dever/Responsabilidade de Proteger', R2P? Alguém se interessa?
O Império do Caos deseja - e o que mais desejaria? - caos e mais caos. Agora, o Império do Caos está apoiando descaradamente o "emprego do exército contra o próprio povo"; foi frase e ação absolutamente verboten - castigáveis com bombas da OTAN, ou ataques de jihadistas armados pela OTAN - na Líbia e na Síria. Mas agora, na Ucrânia, é perfeitamente normal. 


Na Líbia e na Síria - tentaram três vezes na ONU -, seria pretexto perfeito para R2P ['Responsabilidade/dever de Proteger']. Mas na Ucrânia, agora, os 'terroristas' - até a terminologia é a mesma dos idos de Dábliu-Bush - são a própria população; e os 'mocinhos' são milicianos neonazistas de Kiev armados com correntes e metralhadoras. 


A embaixadora dos EUA à ONU e chefe da torcida pró 'R2P' Samantha Power ultrapassou todos os níveis prévios de loucura-desatino, quando declarou que o massacre de civis pela junta neonazista da OTAN teria sido "razoável" e "proporcional", acrescentando que "qualquer dos nossos países" teria feito o mesmo, ante tal nível de ameaça." 


Berlin, por sua vez, tenta seguir a via diplomática, embora haja clara divisão entre os Atlanticistas linha dura e os capitães de indústria alemães - que já perceberam que Washington não terá meias medidas, e está decidida a destruir a sinergia econômica russo-alemã. O Império do Caso visa a erguer um muro entre aquelas duas metades, que se manifestaria, na prática, numa 'invasão' russa. É verdade que Moscou poderia facilmente dar uma 'de Samantha' e invocar o Dever/Responsabilidade de Proteger russos e russófonos na Ucrânia. Mas Putin é mestre de xadrez e absolutamente não cometerá a estupidez de inventar um novo Afeganistão bem ali, em suas fronteiras do oeste. 


Quanto a Berlin, só a economia interessa. A Alemanha crescerá, no máximo, 1,9% em 2014. Com 6.200 empresas alemãs na Rússia e mais de 300 mil empregos alemães dependendo do comércio recíproco, as sanções à moda dos EUA são muito contraproducentes, embora a russofobia e a histeria da Guerra Fria 2.0 continue rampante, em certo sentido. 


Paris, por exemplo, já entendeu o recado. O contrato de US$1,66 bilhão, para vender dois porta-helicópteros classe Mistral à Rússia prosseguirá vigente, depois que diplomatas franceses admitiram que o cancelamento - em termos de penalidades e postos de trabalho cancelados - feriria muito mais gravemente a França, que a Rússia. 


Há cerca de um mês, dia 10/4, Putin escreveu carta crucialmente importante a 18 chefes de estado[3] (cinco deles fora da União Europeia), cujos países importam gás russo através da Ucrânia. Foi mais do que claríssimo: Moscou não pode continuar a financiar sozinha toda a economia ucraniana, já praticamente em bancarrota. Entre descontos e mais descontos, e perdoando multas e  mais multas, desde 2009 Moscou subsidia Kiev, uma conta que já alcança espantosíssimos $35,4 bilhões. Os europeus, Putin escreveu, também têm de pôr dinheiro sobre a mesa. 


Aquela espetacular, invencível nulidade & presidente da Comissão Europeia Jose Manuel Barroso, embora concorde que algum diálogo seria necessário, respondeu que a nova 'regra' que a Gazprom estaria 'implantando', de só liberar gás para ser bombeado pela Ucrânia se o pedido for pago antecipadamente, era "preocupante". Como se qualquer grande empresa europeia de energia estivesse disposta a perdoar credores que não paguem as contas! 


Uma Ucrânia neutra, finlandizada, poria fim, com sentido positivo, à atual confusão. É questão, só, de esperar que a junta neofascista neoliberal da OTAN acabe de fracassar, e que vá prô inferno. *****

________________________________________[1] QUE VERGONHA! Shame on you, US!  http://www.state.gov/r/pa/prs/ps/2014/05/225945.htm [2] 12/5/2014, "República Popular de Donetsk pede que Moscou considere sua integração à Federação Russa", Al-Manar TV, Líbano, trad. http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/05/republica-popular-de-donetsk-pede-que.html [NTs].[3] 11/4/2014, Putin à União Europeia: "Negociem! Se nããããão...", The Saker, The Vineyard of the Saker, trad. em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/04/putin-uniao-europeia-negociem-se-naaaaao.html13/5/2014, Pepe Escobar, Asia Times Online http://www.atimes.com/atimes/Central_Asia/CEN-01-130514.html


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