Pravda.ru

Mundo

Anselmo Massad: 'Para onde vai o Irã?'

14.04.2009
 
Pages: 123
Anselmo Massad: 'Para onde vai o Irã?'

“Temos sérias diferenças que cresceram com o tempo. Minha administração está comprometida com a diplomacia (…) para buscar laços construtivos entre os Estados Unidos, Irã e a comunidade internacional”, pediu o mandatário da Casa Branca. Com elogios à “grande civilização” persa, ele se comprometeu a não usar a força e lembrou que a escolha do caminho do diálogo também está disponível para o Irã.

Por Anselmo Massad, para a Revista Fórum

A mensagem foi divulgada 11 dias antes de se completarem 30 anos do início do acirramento entre os países. A volta do aiatolá Rouhollah Mousavi Khomeini do exílio ocorreu em 1º de abril de 1979, marcando a transformação do país na República Islâmica do Irã. De orientação xiita, o regime substituiria o governo pró-Ocidente do xá Mohammad Reza Pahlavi com um discurso de defesa do Islã e da soberania do país. A partir daquele momento, a submissão aos interesses de multinacionais do petróleo seria abandonada, a nação fechar-se-ia à influência cultural, entraria em uma sangrenta guerra contra o Iraque e se tornaria um dos grandes rivais dos Estados Unidos na região.

A revolução

O segundo xá da dinastia Pahlavi governava o Irã desde 1941. Em plena Segunda Guerra Mundial, ele assumiu o lugar de seu pai, deposto pelos Aliados após envolvimento com os alemães. “A luz dos arianos”, como gostava de se proclamar, reinventou-se algumas vezes durante sua longa gestão, embora mantendo a modernização e a secularização como objetivos. Uma das faces mais críticas desse período foi o processo de nacionalização da companhia Anglo-Iranian Oil, multinacional inglesa responsável pela exploração de petróleo desde a década de 1920 com reduzidos pagamentos de royalties.

Em 1950, o “rei dos reis” indicou e teve aprovado pelo parlamento o nome de Haj-Ali Razmara como primeiro-ministro, um militar contrário ao rompimento dos acordos estabelecidos com os britânicos. A pressão popular pela nacionalização elevou a temperatura política até que, menos de um ano depois, Razmara foi assassinado por um grupo fundamentalista muçulmano em 3 março de 1951. Sob pressão popular, o Senado aprovou a nacionalização após 12 dias do atentado. Um dos articuladores da medida era Mohammad Mossadegh, um político nacionalista eleito para o cargo de primeiro-ministro no mês seguinte.

A gestão de Mossadegh durou apenas até 1953, sofrendo com o boicote orquestrado pela Anglo-Iranian junto às sete irmãs do petróleo. O cada vez mais influente grupo de religiosos também deixou de apoiar o político de modos ocidentalizados por temor de um suposto avanço comunista. O fato é que um golpe de Estado apoiado pela CIA e pelo serviço secreto britânico deu plenos poderes ao xá, para restaurar a propriedade estrangeira, em forma de consórcio, nos negócios do ouro negro.

Nos 25 anos seguintes, o lado mais sangrento da monarquia surgiu e as denúncias de tortura e violência policial desgastaram o governo junto à classe média. Enquanto isso, o xá promovia ações de modernização, ao mesmo tempo em que se proclamava herdeiro de Dario, rei dos persas na antiguidade. Evocar a herança pré-islâmica do Irã foi uma das chaves para os líderes religiosos assumirem o papel de principais vozes de oposição, por seu apelo junto às classes mais empobrecidas. O autor dos mais ferozes discursos contra a submissão aos Estados Unidos e seus valores degradados era o aiatolá Khomeini.

Os efeitos

Os impactos da revolução dos aiatolás foram sentidos em todo o Oriente Médio e demais países árabes. Assim como no próprio Irã, os costumes das classes médias de alguns emirados haviam sido liberalizados nos anos 70, sob influência ocidental, o que acirrava os ânimos dos setores mais conservadores em diversas partes da região. Apesar da onda de resgate de valores tradicionais do Islã, o maior efeito do turbilhão político se iniciou um ano depois da chegada dos aiatolás ao poder. A guerra com o vizinho Iraque se arrastaria por oito anos em meio ao contexto de Guerra Fria, em que as potências Estados Unidos e União Soviética garantiam o suprimento de armas, inicialmente para o Iraque e depois também para o Irã.

“Espero que um mate o outro”, disse Henry Kissinger, então secretário de governo de Ronald Reagan, segundo descreveu o especialista em temas militares Mike Whitney em artigo publicado na al-Jazira. Para o autor, foi naquele período que se consolidou a linha mestre da política dos Estados Unidos mantida pelo menos até o governo George W. Bush: o ódio racial e religioso transformado em princípio organizador para manter o império.

Apesar disso, no início do conflito os Estados Unidos “parecem ter chegado à conclusão de que Saddam Hussein era o menor de dois demônios”, escreveu o jornalista Andy Stern em seu livro Oil, from Rockfeller to Iraq and Beyond (Mif, 2008, sem tradução para o português). Ele relata a relação dúbia das potências da época que inicialmente forneciam armas principalmente ao exército de Saddam, apesar de declararem neutralidade no conflito e defenderem que não se vendessem equipamentos bélicos aos opositores. Foi apenas no final do conflito é que se soube que indústrias dos Estados Unidos terminariam fornecendo armas ao Irã e os serviços de inteligência garantiriam informações para equilibrar o jogo. As armas leves, conforme narra Stern, foram comercializadas aos aiatolás pelo intermediário mais inusitado: Israel.

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular