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Síria: Vitória estratégica que transformará o Oriente Médio?

13.08.2015
 
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A Síria está vencendo a guerra. Apesar do sangue e da forte pressão econômica, a Síria está avançando firmemente rumo a uma vitória militar e estratégica que transformará o Oriente Médio. Veem-se sinais claros de que os planos de Washington - para 'mudança de regime', para tornar disfuncional o estado sírio ou para rachar o país por linhas sectárias - fracassaram.


É fracasso que ferirá de morte o sonho dos EUA que Bush-Filho anunciou há uma década, de um "Novo Oriente Médio" subserviente. A vitória da Síria é uma combinação de apoio popular coerente ao exército nacional contra o ataque de islamistas sectários pervertidos (takfiris); apoio firme garantido à Síria por aliados chaves; e a fragmentação de forças internacionais que se alinharam contra a Síria e aliados.

As dificuldades econômicas, inclusive os blecautes frequentes, são hoje maiores do que nunca, mas não quebraram a decisão do povo sírio, de resistir. O governo assegura que alimentos básicos sejam oferecidos a preços razoáveis; e mantém os serviços de educação, saúde, atividades culturais e esportivas e outros serviços. Vários estados antes hostis e agências da ONU já estão retomando relações com a Síria. Uma situação melhorada de segurança, o recente grande acordo de energia com o Irã e outros movimentos diplomáticos favoráveis são sinais, todos eles, de que o Eixo da Resistência foi reforçado.

Ninguém jamais saberia disso, por ler a 'informação' que a imprensa-empresa ocidental oferece. A 'mídia' mentiu ininterruptamente sobre o caráter do conflito e os desenvolvimentos naquela crise. Itens importantes na falsificação da realidade foi ter mantido cuidadosamente ocultada a informação de que a OTAN sempre apoiou os grupos takfiri; só noticiar eventuais avanços desses grupos; e absolutamente ignorar e fazer ignorar os avanços do Exército Árabe Sírio. Verdade é que todos esses terroristas apoiados pelo ocidente praticamente não fizeram qualquer avanço estratégico real desde que uma torrente de soldados estrangeiros os ajudaram a tomar grandes partes de Aleppo, ao norte, em meados de 2012.

Em minha segunda visita à Síria durante a crise, em julho de 2015, vi o quanto a segurança foi melhorada em torno das grandes cidades. Em minha primeira visita, em dezembro de 2013, apesar de os degoladores a serviço da OTAN terem sido ejetados de grandes áreas em Homs e Qsayr, permaneciam na antiga cidade de Maloula e ao longo das Montanhas Qalamoun, e atacavam ainda a estrada sul, para Sweida. Mês passado, pudemos viajar livremente, por estrada, de Sweida a Damasco a Homs e a Latakia, com apenas um pequeno desvio contornando Harasta. No final de 2013 havia fogo de morteiro diário contra a zona leste de Damasco; esse ano, muito menos. O Exército parece controlar 90% das áreas mais populosas.

Informação checada e desmentida: algum dia teria havido 'rebeldes moderados'. Mentira. Nunca houve. Desde  março-abril de 2011, um genuíno movimento pró-reforma política foi substituído por uma insurreição islamista apoiada pelos sauditas. Nos primeiros poucos meses da crise, de Daraa até Homs, grupos armados, como a brigada Farouq, já eram extremistas apoiados por Arábia Saudita e Qatar, que praticavam atrocidades públicas, explodiram hospitais, usando slogans genocidas e praticando limpeza étnica sectária.[1]  Naqueles dias, os sírios referiam-se a todos eles como 'Daesh' (ISIL) ou apenas "mercenários", sem dar qualquer atenção às diferentes 'griffes'. 

A declaração feita recentemente pelo 'líder rebelde moderado' Lamia Nahas, de que as minorias da Síria são do 'mal' e é preciso 'dispor delas', como Hitler e os Otomanos 'dispuseram' de minorias,[2] só confirma aquele fato. O conflito armado sempre se deu entre um estado autoritário, mas pluralista e socialmente inclusivo, de um lado; e, de outro, islamistas de estilo saudita que serviam como exército de aluguel às grandes potências.

Informação checada e desmentida 2: todas as atrocidades seriam de responsabilidade do Exército Sírio. É mentira. Quase todas elas foram cometidas por gangues apoiadas pelo ocidente, como parte de uma estratégia para atrair intervenção ocidental mais profunda. Aí se inclui a conversa, já desmentida, sobre uso de armas químicas[3] e sobre danos colaterais de um suposto 'feroz bombardeio'. O jornalista norte-americano Nir Rosen escreveu, em 2012, 'Todos os dias a oposição apresenta um número de mortos, em geral sem qualquer explicação (...) Muitos daqueles mortos são realmente combatentes armados em luta contra o estado sírio, mas (...) apresentados nos relatórios como civis inocentes mortos pelas forças de segurança'.[4] Esses relatos dos grupos terroristas ainda são fonte da informação divulgada por ONGs estrangeiras como Anistia Internacional (EUA ) e Human Rights Watch [citado no Brasil, em todos os noticiários, como "Observatório dos Direitos Humanos"] para inflar a propaganda de guerra. O Exército Árabe Sírio executou terroristas capturados, e a política secreta continua a deter suspeitos de colaborarem com os terroristas. Mas esse exército goza de muito forte apoio da população. As gangues islamistas, por outro lado, vangloriam-se das atrocidades que cometem e não contam com praticamente nenhum apoio entre a população.

Informação checada e desmentida 3: Embora haja uma 'presença' terrorista em grandes áreas da Síria, não é verdade que o Daesh/ISIL ou qualquer outro grupo armado 'controle' porção considerável do território sírio onde vivam grandes populações. Agências ocidentais (como Janes e ISW) confundem sistematicamente presença de grupos e controle sobre a área. Apesar de ofensivas do Daesh/ISIL em Daraa, Idlib e Leste de Homs, as áreas mais populosas do território sírio estão sobre controle muito mais visível, pelo Exército, do que estavam em 2013. Bem poucas áreas foram ocupadas por meses ou anos. Em confrontos sustentados, quase sempre o Exército desaloja os terroristas; mas o exército sírio está sob pressão e frequentemente opta por algum recuo tático, porque está combatendo em dúzias de fronts.

O Exército Árabe Sírio apertou o cinturão em torno de Aleppo, Douma e Harasta, e obteve vitórias recentes em Hasaka, Idlib e Daraa. Com as forças do Hezbollah, o Exército já virtualmente eliminou o Daesh/ISIL e grupos ligados a ele das Montanhas Qalamoun, ao longo da fronteira com o Líbano.

Apesar de anos de terrorismo de massa e sanções ocidentais, o Estado sírio continua a funcionar surpreendentemente bem. Em julho de 2015, nosso grupo visitou grandes centros esportivos, escolas e hospitais. Milhões de crianças sírias continuam a frequentar a escola, centenas de milhares continuam a frequentar as universidades, a maior parte das quais são gratuitas. O país sofre sob o peso do desemprego, do desabastecimento e dos blecautes. Grupos takfiri atacaram hospitais, vários dos quais foram destruídos, desde 2011. Também atacam regularmente usinas de produção de energia, forçando o racionamento de eletricidade, até que o sistema volte. Há desabastecimento grave e pobreza visível, mas apesar da guerra, a vida diária segue.

Por exemplo, discutiu-se, em 2014, a construção do complexo 'Uptown', em Nova Sham, grande cidade satélite nos arredores de Damasco. O complexo reúne restaurantes, lojas, instalações para prática de esportes e, no centro, parques infantis e outras instalações de entretenimento. 'Como o Estado pode gastar tanto dinheiro nisso, com tanta gente sofrendo por causa da guerra?' - argumentavam uns. E o outro lado contra-argumentava que a vida continua e as famílias têm de viver a vida. Depois do Ramadan, durante o Eid, vimos milhares de família servindo-se das instalações desse complexo, muito acolhedor para crianças.

Os procedimentos de segurança tornaram-se 'coisa normal'. As paradas repetidas nos postos de revista e verificação de documentos são encaradas com paciência civilizada notável. Os sírios sabem que o objetivo daquelas ações é preservar a segurança deles, sobretudo contra carros e caminhões bombas usados pelos islamistas. Soldados são eficientes mas humanos, quase sempre conversando amigavelmente com as pessoas. Muitas famílias têm membros no Exército, muito perderam parentes. Os sírios não têm de enfrentar toques de recolher nem agressões dos soldados, como tantos enfrentaram nas ditaduras fascistas que os EUA apoiaram no Chile e em El Salvador, por exemplo, no passado.

No norte, o prefeito de Latakia nos contou que essa província, de 1,3 milhão de habitantes, tem hoje mais de 3 milhões, porque absorveu a população que teve de deixar Aleppo, Idlib e outras áreas do norte, mais expostas a ataques de terroristas sectários. Muitos estão alojados em moradias gratuitas ou subsidiadas pelo governo, com familiares e amigos, em casas alugadas ou em pequenas lojas. Vimos um grupo, de cerca de 5 mil pessoas, muitos de Hama, no grande complexo de esportes de Latakia. No sul, Sweida está recebendo 130 mil famílias retirantes da área de Daraa, duplicando a população daquela província. Mas a maior parte dos seis milhões de deslocados internos vivem em Damasco e, com uma pequena ajuda do Comissariado da ONU para refugiados, dependem quase exclusivamente do governo e do exército para organizar a própria sobrevivência. O 'jornalismo' ocidental só fala dos campos de refugiados na Turquia e Jordânia, em instalações controladas, na maior parte, pelos grupos armados.

Ataques 'do regime contra civis' ou o regime que bombardearia 'indiscriminadamente' áreas civis são 'notícias' produzidas pela propaganda terrorista, que grande parte da imprensa-empresa ocidental reproduz. O fato de que, depois de três anos de guerra, os aviões e a artilharia sírios não tenham destruído completamente áreas como Jobar, Douma e partes do norte de Aleppo prova que o Exército Árabe Sírio não ataca 'indiscriminadamente'. Podem ter certeza de que, da próxima vez que a imprensa-empresa ocidental falar de 'civis' sendo mortos pelo governo sírio em ataques 'indiscriminados', as fontes são os próprios terroristas que estejam sendo atacados.

Aquela é guerra combatida em solo, prédio a prédio, com muitas baixas entre os soldados. Muitos sírios com os quais conversamos disseram que prefeririam que o Exército Árabe Sírio pusesse abaixo, complemente, aquelas cidades fantasmas, nas quais, disseram, só permanecem, além dos terroristas, suas famílias e colaboradores. Mas o governo sírio procede de modo muito mais ponderado e cauteloso.

Os estados da região já entenderam o que vem pela frente e já começaram a recompor relações com a Síria. Washington ainda investe nas mentiras sobre armas químicas (apesar de já haver prova produzida por instituto independente), mas perdeu a coragem para insistir em escalada maior, já desde o final de 2013, depois da primeira confrontação com os russos. Ainda há muito agitar de sabres,[5] mas vale observar que o Egito e os Emirados Árabes Unidos (EAU), inimigos da Síria até há pouco tempo, começam a buscar normalizar as relações diplomáticas com Damasco.

Os Emirados Árabes Unidos, talvez a mais 'flexível' das monarquias do Golfo, mas também ligados, pelo vice-presidente Joe Biden, ao apoio ao Daesh/ISIL,[6] têm suas próprias preocupações. Recentemente, foram presos ali dúzias de islamistas, acusados de participarem de um complô para converter a monarquia absolutista, em califato absolutista.[7] O Egito, de volta à situação de governo militar, depois de curto período de governo da Fraternidade Muçulmana que desejava unir-se aos ataques contra a Síria, tem de enfrentar hoje seu próprio terrorismo sectário, ação daquela mesma Fraternidade. Os maiores países árabes defendem hoje a integridade territorial da Síria e apoiam (no mínimo, verbalmente) o combate dos sírios contra o terrorismo. Para o analista egípcio Hassan Abou Taleb, essa mensagem é efeito de "condenação e rejeição dos movimentos unilaterais da Turquia contra a Síria".[8]

O governo de Erdogan tentou posicionar a Turquia à cabeça de uma região da Fraternidade Muçulmana, mas ficou sem aliados, vive às turras com seus parceiros antissírios e enfrenta oposição doméstica. 

Washington tentou usar os separatistas curdos contra, simultaneamente, Bagdá e Damasco, enquanto a Turquia os vê como seus inimigos chaves, e os islamistas apoiados pelos sauditas os massacram como muçulmanos 'apóstatas'. De sua parte, as comunidades curdas gozaram de maior autonomia e aceitação sob governo do Irã e da Síria.

O recente acordo de Washington com o Irã é desenvolvimento importante, e a República Islâmica permanece como a mais importante aliada da Síria secular e firme oponente dos islamistas à maneira dos sauditas. A afirmação do papel do Irã na região perturba gravemente os sauditas e Israel, mas é ótima notícia para a Síria. Todos os comentaristas veem uma disputa por posicionamento diplomático depois do acordo com o Irã; e - apesar da recente exclusão do Irã, de um encontro entre ministros de Relações Exteriores da Rússia, EUA e saudita, - praticamente ninguém duvida de que a mão do Irã resultou mais forte nas questões regionais. 

Uma rara reunião entre o chefe da inteligência da Síria, brigadeiro-general Ali Mamlouk, e o ministro da Defesa saudita, príncipe Mohammed Bin Salman,[9] mostra também que o governo sírio reiniciou discussões diretas com o maior patrocinador do terrorismo naquela região. 

A Síria está vencendo sua guerra, porque o povo sírio apoia seu exército contra provocações sectárias, dedicado às próprias batalhas contra o terrorismo multinacional patrocinado pela OTAN e pela monarquia do Golfo. Os sírios, inclusive os mais devotos muçulmanos sunitas sírios, jamais aceitarão a perversão viciosa e sectária do Islã, dos degoladores promovidos pelas monarquias do Golfo.

A vitória dos sírios, de seu governo e de seu exército terá implicações muito amplas. Aponta para os últimos estertores das ações violentas de Washington para 'mudança de regime' em toda a região, do Afeganistão ao Iraque e Líbia. Brotado da morte e da miséria causadas por essa guerra imunda, o que se vê é a emergência de um Eixo da Resistência ainda mais forte. A vitória da Síria será também a vitória da Resistência Libanesa, comandada pelo Hezbollah. Além disso, o conflito ajudou a construir medidas significativas de cooperação com o Iraque. A incorporação de Bagdá a esse Eixo da Resistência selará a humilhante derrota dos planos para um 'Novo Oriente Médio' dominado por EUA-Israel-sauditas. É uma unidade regional que está chegando. Custou preço terrível. Mas está chegando.*****


11/8/2015, Prof. Tim Anderson, Information Clearing House

 


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