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Os que levam a Grécia e sua esquerda à rendição têm de ser enfrentados

13.07.2015
 
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Do absurdo ao trágico - Os que levam a Grécia e sua esquerda à rendição têm de ser enfrentados 

Quem esteja vivendo, ou mesmo apenas acompanhando, os desenvolvimentos na Grécia sabe muito bem o significado de expressões como "momentos críticos", "clima de tensão", "virada dramática" e "pressionado até os limites." Com os desenvolvimentos a partir dessa 2a-feira, uma palavra nova tem de ser acrescentada à lista: "absurdo".

Pode parecer estranho ou exagerado. Mas como se poderia caracterizar a virada total do significado de um evento tão belo como o referendum de 5 de julho, apenas horas depois de estar completado, e virada operada, para começar, pelos mesmos que haviam pregado o voto "não"?!

Como se pode explicar que Vangelis Meimarakis do [partido] Nova Democracia e o chefe do [partido] To Potami, Stavros Theodorakis - chefes do campo tão esmagadoramente derrotado no domingo - devam tornar-se porta-vozes oficiais da linha a ser seguida pelo governo grego? Como é possível que um tão devastador "não" às políticas de arrocho do memorandum seja interpretado como luz verde para um novo memorandum? E para pôr as coisas em termos simples: se estavam dispostos a assinar coisa ainda pior e mais difícil que as propostas do presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, qual o sentido do referendum e da luta para que o "não" fosse vitorioso nas urnas?

A sensação de absurdo não é produto só dessa virada inesperada. É produto, acima de tudo, do fato de que tudo isso se desenrola ante nossos olhos, como se nada tivesse acontecido, como se oreferendum tivesse sido alguma espécie de alucinação coletiva, que termina de repente, deixando-nos livres para continuar o que estávamos fazendo antes dela. Mas, porque nem todos nós nos convertemos em comedores de cogumelos alucinógenos, tentemos pelo menos um rápido resumo do que se passou nos últimos dias.

Domingo passado, o povo grego surpreendeu a Europa e o mundo, respondendo em massa ao chamamento do governo e, em condições sem precedentes pelos padrões pós-guerra de qualquer país europeu, votou em esmagadora maioria "não" às propostas humilhantes e extorsionárias dos emprestadores de dinheiro ao país. Os dois aspectos, a extensão do voto "não" e sua composição qualitativa, com a grande dianteira que teve entre jovens e trabalhadores, mostram a profundidade das transformações que estavam então acontecendo, ou, dito de outro modo, que se haviam cristalizado em tempo tão curto, na sociedade grega.

As mobilizações de massa da 6a-feira, o clima "de baixo para cima" que prevalecera na semana anterior, para nem falar da entusiástica onda de solidariedade internacional, dão testemunho do grande potencial aberto pela decisão a favor da disputa política popular, em vez da retirada.

Mas a partir da 2a-feira, antes que os gritos de vitória tivessem calado completamente pelas praças do país, começou o teatro do absurdo. Sob os auspícios do presidente da República Prokopis Pavlopoulos, ativo propagandista a favor do grupo "Sim-Grécia", o governo encarrega os líderes dos partidos derrotados de elaborar um plano para as negociações, posicionando o euro como limite extremo intransponível da posição grega, e declarando especificamente que o governo não tem mandato para deixar a união monetária.

O público grego, ainda sob os efeitos da alegria do domingo, viu quando o representante de 62% dos gregos subordinou-se ao representante de 38% dos gregos, e logo no dia seguinte, depois de retumbante vitória democrática da democracia e da soberania popular.

Na 3a-feira, o governo, sem qualquer nova "proposta" a fazer, transfere suas operações para Bruxelas, para a reunião extraordinária do Eurogrupo e, como é lógico e fácil de prever que aconteceria e aconteceu, foi confrontado por mais um ultimatum, ainda mais duro que o anterior. Dia seguinte, Euclides Tsakalotos dá início às suas funções como ministro das Finanças (dada a exiguidade de tempo, passamos sem comentar pelo fator "Varoufakis não é mais ministro" em que se declarou que a renúncia teria sido exigências dos credores). O primeiro ato de Tsakalotos no novo cargo é enviar ao Mecanismo de Estabilidade Europeia [orig. European Stability Mechanism (ESM)], a organização que gerencia a maior parte da dívida grega, uma carta em que pede novo empréstimo de €50 bilhões, o qual será acompanhado, é claro, por um terceiro memorandum. Considera-se como dado que, na 2ª-feira seguinte o Parlamento grego começará a votar toda a legislação relevante necessária à nova operação.

A carta de Tsakalotos continha referência a a Grécia dedicar-se a "honrar suas obrigações financeiras com todos os credores, totalmente e em prazo certo". É óbvio que, apesar das garantias que se ouviram depois de proclamado o referendum de que "as discussões recomeçariam do zero", as "negociações" prosseguem exatamente do ponto no qual pararam, com os gregos a cada passo baixando mais as exigências frente aos credores.

No mesmo dia, à espera das novas "propostas" gregas, que seriam "confiáveis" e detalhadas, o primeiro-ministro Alexis Tsipras fala ao Parlamento Europeu e declara que "se quisesse sair do euro não teria vindo" e "se meu objetivo fosse tirar a Grécia do euro, não teria, imediatamente depois de fechadas as urnas, declarado o que declarei, que interpretava o referendum não como mandato para romper com a Europa mas mandato para reforçar os esforços de negociação de modo a chegar a acordo melhor."

É mais ou menos reconhecer abertamente que o resultado do referendum estava sendo interpretado como um objetivo específico em mente: negociar a qualquer custo e evitar a ruptura.

No discurso ao Parlamento Europeu, o primeiro-ministro delineia sucintamente a filosofia que por muitas semanas informou toda a posição do lado grego e na qual o parêntese do referendum nada mudou:

"Nessas propostas, cuidamos evidentemente de alcançar as metas fiscais requeridas à base das regras, porque reconhecemos e respeitamos o fato de que a Eurozona tem regras. Mas nos reservamos o direito de escolher, o direito de poder, como governo soberano, escolher onde devemos impor o peso da taxação, para que possamos alcançar os objetivos fiscais requeridos."

O quadro pois é esse: é quadro das medidas restritivas que garantem superávits fiscais e visam a 'fazer caixa' para pagar a dívida. É incontestavelmente o quadro dos memoranda.  O desacordo é só sobre 'como distribuir o peso'. Envolve uma variante de arrocho supostamente "socialmente mais justa", a qual será apresentada como "redistribuição" ao mesmo tempo em que perpetua a recessão (foram apagadas todas e quaisquer referências a qualquer compromisso com medidas não recessivas) e empobrecimento da maioria.

Enquanto isso, e enquanto essas 'garantias' são apresentadas, que demolem o que restava dos compromissos programáticos do Syriza, aprofunda-se o estado de sítio que o país sofre, com o Banco Central Europeu mantendo fechada a torneira da liquidez e cortando ainda mais o valor dos papéis dos bancos, levando inevitavelmente ao colapso.

Contudo, apesar da gravidade da situação e apesar do fato de que, com a imposição do controle de capitais, já se andou parte do caminho, ninguém, exceto Costas Lapavitsas e alguns quadros da Plataforma de Esquerda, está falando das medidas autoevidentes e básicas de autoproteção que as circunstâncias desse tipo exigem, a começar pelo controle público e a nacionalização do sistema bancário.

A explicação nesse caso é, claro, muito simples: qualquer dessas medidas poria a Grécia com um pé já para fora do euro, o que o governo absolutamente não quer fazer, apesar de haver economistasmainstream como Paul Krugman para quem "a maior parte do custo já foi pago" e que é hora de a Grécia "colher os benefícios."

Uma simples conclusão emerge de tudo isso: com os movimentos que foram feitos na semana passada, o governo nada obteve além de total retorno à prisão de antes, de posição ainda muito mais desfavorável, sob a pressão de mais violento sufocamento econômico. Conseguiu desperdiçar em tempo recorde a poderosa injeção de capital político que recebeu do referendum, seguindo em todos os pontos a linha dos que se opuseram a ele e que tem todos os motivos para se sentirem vingados, apesar de trucidados nas urnas.

Mas o referendum aconteceu. Não foi alucinação da qual todos se teriam recuperado. Ao contrário, alucinação é a tentativa para tentar degradar o referendum e fazer dele algo como um abrir temporário de uma "válvula de descarregar a pressão", antes de retomar a rota ladeira abaixo rumo a um terceiro memorandum.

Porque parece que o governo está seguindo precisamente essa via suicidária. Ontem, tarde da noite, o governo enviou a todos os membros do Parlamento Grego um texto de 12 páginas, redigido às pressas, em inglês, por especialistas enviados pelo governo francês e baseado no pedido de empréstimo de €50 bilhões que Tsakalotos apresentou ao ESM.

Não passa de mais um pacote de 'austeridade' [é arrocho, não é austeridade] - na verdade, um "copiar-colar" do plano Juncker que os eleitores rejeitaram há poucos dias. Tudo nesse documento é familiar demais: superávits primários, cortes nas aposentadorias, aumento no Imposto sobre Valor Agregado e outros, e um punhado de medidas para  acrescentar pitadas de "justiça social" (por exemplo, aumento de 2 pontos nos impostos pagos pelas empresas). O documento foi aprovado por todos os principais ministros, exceto Panos Kammenos, presidente do Partido dos Gregos Independentes (ANEL), e Panagiotis Lafazanis, presidente da Plataforma de Esquerda.

O Parlamento foi convocado a votar esse texto hoje, sob os mesmos procedimentos de urgência que, antes, eram denunciados pelo Syriza. Sob vários aspectos, esse processo pode ser considerado um "golpe parlamentar", dado que o Parlamento é convocado para votar texto que não é projeto de lei, nem acordo internacional, e assim dar carta branca ao governo para assinar qualquer acordo para a dívida. Mas a aprovação parlamentar foi condição explicitamente imposta pelo ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble.

Como previsto, e provavelmente até planejado, esse acordo proposto gerou um maremoto dentro do Syriza. Até agora, as reações mais fortes partiram da Plataforma de Esquerda e outras correntes da esquerda do Syriza como o grupo KOE, organização de orientação maoísta, que tem quatro deputados no Parlamento. Na dramática reunião do grupo parlamentar do Syriza realizada hoje, Lafazanis, ministro de Energia e presidente da Plataforma de Esquerda disse que o acordo é "incompatível com o programa do Syriza" e "não oferece perspectiva positiva para o país." Espera-se que todos os ministros da Plataforma de Esquerda renunciem hoje.

Thanassis Petrakos, um dos três presidentes do grupo parlamentar do Syriza, e destacado membro da Plataforma de Esquerda, declarou:

O "não" do referendum foi "não" radical e de classe. Alguns camaradas do alto comando do partido insistem na lógica do "não há outra saída". Devemos preparar a saída da Eurozona e dizê-lo claramente ao povo. A Esquerda tem futuro quando abre as asas para o desconhecido, não para o vazio. Os que instem na escolha de ficar no euro custe o que custar devem saber que é desastre certo. Precisamos de uma saída preparada que seja abertura para novo caminho. Os primeiros passos são controle público sobre os bancos e sobre o Banco Central da Grécia, e ataque direto à oligarquia."

Diz-se que Varoufakis também se opôs ao acordo, além de alguns deputados do grupo "dos 53" (a ala esquerda da maioria), embora numa reunião interna realizada ontem, tenha aparecido distanciamento considerável entre os quadros de escalões médio e baixo do partido, que se opõem fortemente ao acordo, e os deputados, muito mais inclinados a apoiar o acordo. A votação que acontecerá mais tarde, ainda essa noite, terá importância crucial para os desenvolvimentos futuros, mas, também, para o futuro do partido Syriza.

Aconteça o que acontecer nas próximas poucas horas e dias, uma coisa deve ficar bem clara: qualquer tentativa para cancelar a vontade popular que mandou derrubar o arrocho e osmemoranda é erro induzido pela hubris no sentido grego ancestral da palavra.* Quem ousar liderar o país e a esquerda rumo à rendição e à desonra, deve estar preparado para a correspondente Nemesis.

* Port. húbris  (em grego ὕϐρις, /hýbris/) "é um conceito grego que pode ser traduzido como "tudo que passa da medida; descomedimento" e que atualmente alude a uma confiança excessiva, um orgulho exagerado, presunção, arrogância ou insolência (na origem, contra os deuses). Na Antiga Grécia, aludia a um desprezo temerário pelo espaço pessoal alheio, unido à falta de controle sobre os próprios impulsos, sendo um sentimento violento inspirado pelas paixões exageradas, consideradas doentias, por seu caráter irracional e desequilibrado, e concretamente por Até (a fúria ou o orgulho). Opõe-se à sofrósina, a virtude da prudência, do bom senso e do comedimento. Aristóteles definiu húbris como uma humilhação para a vítima, não por causa de qualquer coisa que tenha acontecido ou que ela tenha feito ou pudesse fazer contra você, mas meramente por você não ter dado à húbris a atenção e a contenção necessárias. Húbris não é acerto de contas por erros cometidos - isso é "vingança". Húbris é o descaso que alguém manifeste pelos outros, ou pelos deuses, por entender que possa fazer tudo que quiser."

10/7/2015, Stathis Kouvelakis, Jacobin Magazine

 


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