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Matando a família Nevado: um retrato do pior da história da Colômbia

13.05.2008
 
Pages: 12
Matando a família Nevado: um retrato do pior da história da Colômbia

Juan Jesús Aznárez


Os cadáveres dos subversivos apareciam nos currais e esgotos da Colômbia, ou flutuando como troncos no rio Magdalena, quando começou a tragédia da família Nevado. Primeiro caiu o filho mais velho, Jaime. O sargento José Edimburgo Díaz perfurou seus pulmões com uma bala às 6h15 da tórrida tarde de 22 de julho de 1982, enquanto o vereador comunista bebia cerveja com dois sindicalistas ferroviários na calçada do parque municipal de Puerto Berrío. Seu filho de dez anos, que tomava um sorvete, presenciou o crime. O ferido correu 30 metros até debaixo de um banco para se proteger, mas foi inútil. O militar terminou por matá-lo com um tiro cara a cara.


Primeiro morreu Jaime, de 35 anos, e depois ainda morreriam seu pai, sua mãe e sua irmã; Edgardo, outro irmão, fugiu para a Espanha com uma bala no fêmur e as seqüelas de um drama que contém o pior da história da Colômbia. Mais de duas décadas depois, a matança continua impune.


"A ordem dos paramilitares foi para acabar com todos", relata um parente que acompanhou de perto a aniquilação de uma família cuja militância na esquerda teve um preço alto. A história dos Nevado tem sua origem em Puerto Berrío, então com 30 mil habitantes, com uma presença forte do Partido Comunista Colombiano (PCC), e numa região, do Magdalena Médio, sob a coercitiva influência das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Fartos dos seqüestros e das imposições revolucionárias, 200 narcotraficantes e militares influentes fundaram em 1981 o grupo MAS (Morte aos Seqüestradores), para preservar o patrimônio dos militares e eliminar os simpatizantes da guerrilha.


Os setores mais radicais do exército e da polícia abençoaram o nascimento do primeiro grupo paramilitar da Colômbia, bem armado e financiado, e disposto a executar o trabalho sujo que eles não podiam fazer. A espionagem militar estabelecia o preço e os paramilitares o cobravam. Quase todos os assinantes do jornal La Voz Proletaria morreram. A documentação sobre essa metodologia é abundante. Esses esquadrões mataram mais de 15 mil pessoas, entre eles 1.700 indígenas, 2.500 sindicalistas e cerca de 5 mil membros do partido União Patriótica (UP), que foram enterrados em 3 mil valas comuns ou tiveram seus corpos jogados nos rios: alguns flutuavam, enquanto outros sedimentavam o leito fluvial depois de abertos e preenchidos com pedras para que afundassem.


Os funerais aconteciam apenas com a presença dos familiares diretos porque os amigos e parentes tinham medo de ser os próximos. Mercedes Nevado não teve medo. Seu filho mais velho, Jaime, havia cursado sociologia e estudava direito em Medellín. Logo estava subindo nos palanques e defendendo que na Colômbia havia muitos pobres, muitos ricos e muito pouca justiça na distribuição de renda. No dia de sua morte, participou da greve de ferroviários do município, e depois foi a uma emissora de rádio para debater sobre a necessidade de mudar as relações entre patrões e empregados e arrancar concessões por parte da egoísta oligarquia local.


"Quando ele morreu, toda cidade se paralisou em solidariedade", disse o familiar que relatou os infortúnios da família para esta reportagem. O sargento Díaz cometeu o crime no meio da tarde, mas já o espreitava há mais tempo. Perseguido pelos dois acompanhantes de Jaime Nevado e por um agente da Direção Administrativa de Segurança (DAS), que lhe acertou um disparo na perna, escondeu-se na base do Batalhão de Infantaria Bombona. As autoridades do quartel negaram que ele estivesse em suas instalações, apesar de muitas testemunhas terem-no visto entrando no quartel, entre elas uma jovem que era paquerada pelo sargento, alistado no Batalhão Patriotas, com sede no município de Honda, dentro do distrito de Tolima, não muito longe de Puerto Berrío.


Edgardo Nevado tinha 31 anos e era professor de uma escola particular em Bogotá quando seu irmão morreu. Mercedes dirigia uma loja de roupas na cidade vizinha de Puerto Nare, e teve que conter o filho mais novo porque sabia do forte temperamento que ele tinha. Pediu para que ele não se envolvesse em nada, que ela mesma se ocuparia de denunciar o crime aos quatro ventos, de averiguar como havia acontecido e exigir justiça do governo e da promotoria. Foi o que ela fez, incansavelmente, durante cinco anos, até seu desaparecimento e assassinato em 1987. O marido de Mercedes, também de esquerda, trabalhador da estatal Ecopetrol, havia morrido havia dois anos. "Ele estava saindo da fábrica quando atiraram nele a curta distância de uma camionete como as que são usadas pelo exército. Recebeu quinze tiros. Creio que era sindicalista. A forma de operar era sempre a mesma: os matadores de uma cidade atuavam em outra para não serem reconhecidos."


Até sua eliminação pelos paramilitares, Mercedes Nevado perseverou durante os governos de Belisario Betancur (1982-96) e Virgilio Barco (1986-90). Compareceu à Casa de Nariño (sede dos chefes de Estado da Colômbia) cinco vezes, convocou coletivas de imprensa e sempre apontou na mesma direção: de que o executor do crime contra seu filho era o sargento José Edimburgo Díaz Arteaga, mas que os mandantes estavam camuflados nas fazendas militares, nos quartos de bandeiras e nas rotas do narcotráfico colombiano. A Procuradoria Peral, dirigida então pelo liberal Horacio Serpa Uribe, candidato à presidência nas eleições dos anos 1998, 2002 e 2006, recebeu as provas, incluindo uma foto do sargento, mas deu de encontro com a obstrução militar. Pouco pôde fazer.

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