Pravda.ru

Mundo

A lebre faz o caçador

13.04.2007
 
Pages: 12
A lebre faz o caçador

Questões sobre o desafio enfrentado por Washington face às eleições latino-americanas de candidatos fora dos modelos tradicionais de subserviência aos objetivos expansionistas dos EUA. Haverá dentro desses objetivos um enfraquecimento da prioridade estadunidense para a América Latina em face da guerra contra o Iraque e de outras grandes demandas da atualidade mundial?

Por Sidnei Liberal
O diário digital Insurgente ( www.insurgente.org ) publicou em dezembro de 2006 respostas de duas proeminentes personalidades americanas, Noam Chomsky, professor do Instituto Tecnológico de Massachussets, e Eduardo Galeano, escritor e pensador uruguaio, a questionário enviado pela BBC. Versam as questões sobre o desafio enfrentado por Washington face às eleições latino-americanas de candidatos fora dos modelos tradicionais de subserviência aos objetivos expansionistas dos EUA. Haverá dentro desses objetivos um enfraquecimento da prioridade estadunidense para a América Latina em face da guerra contra o Iraque e de outras grandes demandas da atualidade mundial?


A BBC quer saber também se os Estados Unidos seguem sendo o império todo-poderoso e fator crucial no destino econômico e político da região. E se as diferenças entre Washington, Caracas e outros pólos vão exigir a utilização de outras ferramentas no jogo de poder. “São mais importantes hoje outros

mecanismos de pressão como o fechamento de mercados ou a modificação de tarifas?” Pergunta a BBC. O fato de que os países da região passam a escapar do controle estadunidense dirigindo suas preferências à soberania política e à integração econômica regional, começando a reverter os tradicionais padrões de dependência das potências estrangeiras e de isolamento entre si, são outros pontos de interesse daquela importante rede midiática.
As respostas, embora formuladas em estilos completamente diferentes, pois se trata de personalidades de atuações em segmentos diversos, guardam coincidentes convergências nas idéias. Chomsky, mais técnico em face de sua formação acadêmica de lingüista afeito à crítica dura contra o expansionismo agressivo estadunidense. E Galeano, o poeta, profundo conhecedor da história de dominação que sofre nossa região. Veias Abertas na América Latina consagram sua autoridade sobre o tema. Suas respostas, embora curtas, sintetizam rico figurativismo de sua verve criativa. Como: “Haverá quem diga, na Casa Branca: ‘a Democracia nos dá desgostos. O voto popular é mais uma arma no arsenal do terrorismo’. ‘Até quando suportaremos tais provocações”.
Chomsky coloca a eleição de Evo Morales como reflexo do ingresso da população indígena e de outras forças populares no cenário político do continente. São alianças que reclamam o poder de mando sobre seus próprios recursos. Uma ameaça aos planos de Washington de controlar os recursos, principalmente energéticos, do hemisfério ocidental, seriamente abalados pelos desastrosos efeitos de 25 anos de políticas econômicas neoliberais. Não é mais segredo de ninguém que as nações que seguiram as receitas do FMI experimentaram uma marcante queda no crescimento da economia e nos indicadores de progresso social.
Um exemplo emblemático: a Argentina – de garota-propaganda do receituário do FMI e que, por isso mesmo, sofreu desastroso colapso – superou suas dificuldades mediante a violação radical das regras das instituições financeiras internacionais, desagradando Washington. Segundo Kirchner, o FMI atuou em seu país "como um promotor e um veículo de políticas que causaram a pobreza e a dor dos argentinos”. Como parte do mesmo receituário neoliberal, a ALCA representa, segundo o presidente Chávez, “um projeto puramente econômico destinado às elites e às (empresas) transnacionais”. O oposto daquilo que se espera como conseqüência do fortalecimento do Mercosul: um marco para desenvolvimento do bloco ou, nas palavras do presidente Lula, “um novo capítulo em nossa integração”. Chomsky vê, ainda, uma grande impaciência estadunidense face o aumento gradativo dos laços econômicos sul-americanos com a China e com a União Européia.

Galeano, perguntado se é irrelevante aos EUA o fato de que cada vez mais os governos da região sejam de esquerda, afirma que há sinais do contrário: “está sendo cada vez mais irrelevante para a região o que os Estados Unidos opinem sobre os governos que elege”. Na mesma linha, Chomsky afirma ser um problema sério para Washington: um desafio aos princípios básicos do seu expansionismo agressivo realizado por meios que vão desde a extrema violência até os controles econômicos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Para ele, “estes meios já não estão mais disponíveis, como tristemente comprovaram os estrategistas de Bush quando apoiaram o frustrado projeto de golpe na Venezuela em 2002”.
Tudo isso tem causado muita dor de cabeça a Washington, que reage sob suspeitoso aval à “guerra contra o narcotráfico” e à “guerra contra o terror”. Uma densa ajuda militar e policial, envolvendo amplo treinamento de tropas na região. E uma significativa presença de “assessores” e dólares estadunidenses. Entre os alvos, o “populismo radical” e outros assuntos internos. Os EUA continuam a estabelecer bases militares na região. Entretanto, observa Chomsky, os meios tradicionais de subversão, intervenção militar e controle econômico se debilitaram seriamente. Em desespero,

Pages: 12

Loading. Please wait...

Fotos popular