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Até a próxima crise!

12.12.2008
 
Até a próxima crise!

O conhecido jornal de finanças Wall Street Journal traz, na sua edição deste dia 20 de novembro, matéria afirmando que quinze executivos de grandes firmas financeiras e construtoras levaram, cada um, mais de US$ 100 milhões em compensações e dividendos de ações antes de explodir a atual crise dos mercados.

Por Décio Pizzato (*)

 E mais, quatro desses executivos, incluindo os presidentes do Lehman Brothers e do Bear Stearns, estiveram à frente de companhias que foram à bancarrota ou viram uma queda de 90% na cotação de suas ações. O jornal analisou as declarações financeiras de 120 companhias que têm ações no mercado, em setores como bancos, financiamento de hipotecas, empréstimos estudantis, corretagem de bolsa e construção de casas.

Esse estudo mostrou que os principais executivos e integrantes de direção dessas empresas embolsaram mais de US$ 21 bilhões nos últimos cinco anos. Com o estouro da bolha do crédito, os investidores no mercado de ações dos Estados Unidos perderam mais de US$ 9 trilhões em um ano. Fica claro ver quem ganhou e quem perdeu com a atual crise. Crise iniciada pela aplicação de modelos complexos desenvolvidos para serem utilizados nas concessões de crédito.

Tudo aconteceu sob o olhar complacente do homem mais poderoso do sistema financeiro americano, Alan Greenspan, que presidiu o Federal Reserve - FED de 1987 a 2006. Manteve uma atitude ideológica contra a regulamentação do sistema financeiro americano, que na sua visão o mesmo deveria se auto-regular. Parece que não via ou não queria ver, já que no período em que presidiu o FED, aconteceram a contaminação da crise da Ásia, a moratória russa e o estouro da bolha especulativa das empresas de internet.

Em 1998 houve a quase quebra do mega fundo de investimentos LTCM - Long Term Capital Management. O sistema financeiro internacional ficou estarrecido, pois acreditava que o mesmo tinha a bússola que orientava como derrotar o mercado. As suas diretrizes eram estabelecidas nada mais nada menos do que pelos prêmios Nobel de Economia Robert Merton e Myron Scholes, que eram seus sócios. Na ocasião, o LTCM usou como indutor para seus negócios o método de analises quantitativas para aplicações financeiras. Não levaram em conta os fundamentos da economia e das empresas. Era tal a reputação de vencedor deste fundo, que grandes bancos aportaram recursos, fazendo com que a sua alavancagem beirasse a casa de US$ 1 trilhão, pois o seu grau de probabilidade de acerto era de 99,9%, segundo o modelo aplicado.

De repente a casa caiu, o LTCM veio abaixo, precisando ser socorrido pelo FED e um pool de mais 14 bancos, que assumiu o seu controle. O que aconteceu com o LTCM vem demonstrar que em momentos de grandes turbulências econômicas e um mercado altamente volátil e nervoso, métodos, teorias e outras fórmulas desenvolvidas não funcionam, e só voltam a dar rumos a serem seguidos quando a situação se amainar.

As crises não acontecem por acaso, teorias acadêmicas são só boas para os doutos, afinal os seus salários são pagos por instituições de ensino e pesquisa. Agora devem estar esfregando as mãos de felicidade. Esta nova crise vai garantir seus empregos por mais alguns anos. Onde o sonho de cada um é criar uma nova teoria, um novo modelo a ser usado pelo mercado, que permita auferir lucros fabulosos.

Mas onde está a origem dessas crises? O falecido economista John Kenneth Galbraith, professor emérito de Economia em Harvard, disse em um de seus brilhantes artigos sobre a crise da Ásia em 1997, que “a fragilidade é o produto natural de um longo período de especulação no mercado de ações, nos instrumentos financeiros relacionados e em bens imóveis. Os preços dos valores mobiliários (securities) aumentaram porque os investidores, pequenos e grandes, pensavam, ou foram induzidos a pensar que sempre subiriam. Essa suposição determinou novas compras, elevando os preços cada vez mais - a clássica bolha especulativa”.

A questão básica é tão antiga quanto o capitalismo financeiro em si. O sucesso cria confiança e leva a um excesso de autoconfiança. A ganância sobrepõe-se à prudência. Então, algo inesperado acontece e levanta dúvidas. O medo se torna contagioso. É o que está acontecendo agora, mais uma vez. A sensação de poder auferir lucros fantásticos apenas pelas decisões de comprar ações, ou aplicar em fundos, não levou em conta que não está sendo feito um investimento. Não viram que o acontecia era algo fora da realidade. São os primeiros que obtém ganhos, aos demais o prejuízo. Não devem ser esquecidos os executivos que limparam o cofre, antes de todo mundo, como mostra a matéria do Wall Street Journal.

Agora, todos voltam a gritar em alto e bom som: investimentos no sistema financeiro, nunca mais! Outros cantos de sereias virão, atraindo novamente os que ficarão cegos pela ganância. Portanto, até a próxima crise.
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(*) Economista, articulista do Jornal do Comércio (Porto Alegre) desde 1995. Faz palestras sobre economia contemporânea para cursos de graduação e pós-graduação (RS). Atua como consultor de cenários de econômia contemporânea brasileira.


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