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O outro 11 de setembro

12.09.2007
 
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O outro 11 de setembro

A idéia de um “outro” 11 de setembro pode parecer incrível para algumas pessoas - Numa terça-feira do dia 11 de setembro de 1973, no Chile, sob as ordens de Augusto Pinochet, os militares chilenos derrubaram o governo de Salvador Allende. O presidente foi morto em circunstâncias não esclarecidas e Pinochet instaurou uma ditadura militar. Deu-se início a uma das ditaduras mais duras e cruéis do final do século XX.

Numa terça-feira do dia 11 de setembro de 1973, no Chile, sob as ordens de Augusto Pinochet, os militares chilenos derrubaram o governo de Salvador Allende. O presidente foi morto em circunstâncias não esclarecidas e Pinochet instaurou uma ditadura militar. Deu-se início a uma das ditaduras mais duras e cruéis do final do século XX.

Em junho de 1973, Pinochet foi nomeado comandante-em-chefe das forças armadas, porque Allende pensava se tratar de alguém de sua confiança. Pinochet liderou o golpe de Estado meses depois, e como conseqüência de sua posição hierárquica, é nomeado líder do regime militar.

Era época da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a então União Soviética. Na América Latina, Cuba apoiava as guerrilhas. Os EUA, que tentaram em 1961 derrocar Fidel Castro, preocupavam-se com a vitória de um presidente socialista no Chile.

De acordo com antigos documentos secretos, hoje acessíveis, o então presidente americano, Richard Nixon, ordenou explicitamente a organização de “um bloqueio econômico” como forma de derrubar o governo.

Foi criado um processo de pressões e bloqueios com sabotagens internas, articuladas de comum acordo com setores das Forças Armadas e da sociedade civil chilena.

Sob a liderança do general Augusto Pinochet, iniciou-se o que foi considerado o período mais negro da história do Chile.

Dias depois do golpe, O general Pinochet afirmou que “o Chile vai recuperar todas as suas liberdades quando acabarmos com o tumor maligno do marxismo”.

M ilhares de pessoas começaram a sofrer a repressão exercida pelo novo governo, foram torturadas e forçadas ao exílio. Mais de vinte e dois mil estudantes foram expulsos das universidades. O Estádio Nacional de Santiago foi transformado em cárcere e centro de torturas.

Sabe-se que pelo menos 30 mil pessoas foram torturadas. Segundo dados divulgados pela Comissão de Verdade Justiça e Reconciliação, houve um saldo de 3.197 mortos, dos quais 1.192 teriam sido presos desaparecidos.

A ditadura de Pinochet realizou uma profunda transformação e reforma administrativa no país. Em 1980 promulgou uma constituição e criou as condições para que sua influência fosse duradoura.

A ditadura militar chilena durou oficialmente 17 anos. Em 1990, Pinochet deixou a presidência do país, mas continuou no comando das Forças Armadas até 1998. Só deixou o cargo para assumir como senador vitalício, com direito a imunidade parlamentar.

Em outubro de 1998, durante uma viagem à Inglaterra, Pinochet foi preso a pedido da justiça da Espanha, para que respondesse pelo desaparecimento de cidadãos espanhóis que viviam no Chile. O general foi posto em liberdade em janeiro de 2000, sob alegação de que seu estado de saúde era precário.

O ex-ditador faleceu aos 91 anos, sem jamais prestar depoimento sobre os crimes cometidos durante a ditadura.

28 anos depois, Nova Iorque. Numa também terça-feira, 11 de setembro de 2001. As pessoas correndo, o olhar perdido extasiado diante do cenário de terror, a procura por familiares desaparecidos. Os EUA viveram em poucos dias o que haviam sido os quase vinte anos da ditadura no Chile.

Os Estados Unidos foram imprescindíveis no golpe de 11 de setembro do Chile, por intermédio de financiamento e trabalho de bastidores na desestabilização do governo do presidente Salvador Allende. Foi provado pelos historiadores que os militares chilenos estavam assessorados pelos EUA, que temiam a eleição de um presidente socialista em plena guerra Fria.

Como numa lamentável e tenebrosa armadilha, o destino colocou os cidadãos estadunidenses numa realidade tão próxima àquela vivida pelos chilenos. Um sofrimento paralelo, uma dor parecida, uma desorientação semelhante.

Após 1973, Pinochet adotou medidas para camuflar o passado, fazendo com que os jovens chilenos permanecessem ignorantes da história de seu país. Por tanto, para muitos, o confronto com a triste realidade da época é uma conquista recente.

O Chile foi acometido por uma obscuridade da qual ainda hoje se recupera. As repercussões do golpe de 73 ainda se sentem no país.

O golpe de Pinochet visto por um militante

Em entrevista concedida ao Pravda.ru, o economista Manuel Lajo relata o período em esteve no Chile onde presenciou o golpe militar que colocou Augusto Pinochet no poder.

Manuel Lajo, de 58 anos, nasceu no Peru. Durante os anos 60, esteve no Chile, onde atuou como militante de base nos anos em que, sob a liderança de Salvador Allende, o povo chileno tentou construir o socialismo por uma via legal - com organização, consciência e mobilização das massas populares.

Participou da Fundação do Mapu (Movimento de Ação Popular), na década de 60 e na Unidade Popular do Chile em 1969.

É doutor em economia, autor de vários livros sobre política econômica e agrária e ex- congressista da República no Peru.

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