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A tragédia dos excluídos

12.06.2008
 
A tragédia dos excluídos

Nelson Franco Jobim

A Conferência de Cúpula sobre Segurança Alimentar realizada de 3 a 5 de junho, em Roma, na Itália, pela Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura (FAO) fracassou. Apesar da presença de 40 chefes de Estado ou de governo, não chegou nem perto de arrecadar os US$ 20 bilhões anuais pedidos pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon. Ele defendeu ainda investimentos para aumentar a produtividade dos pequenos agricultures e assim promover uma nova “revolução verde” na África.


O diretor da FAO, Jacques Diouff, acha que são necessários US$ 30 bilhões anuais para matar a fome de 862 milhões. E a diretora do Programa Mundial de Alimentos, Josette Sheeran, teme que a crise dobre o número de necessitados de ajuda.


Embora os 151 países participantes concordem que a crise mundial provocada pela inflação nos preços dos alimentos exige uma "ação urgente", tomaram poucas medidas práticas. A declaração final ficou fraca pela falta de acordo sobre questões centrais como os biocombustíveis e as restrições e barreiras ao comércio agrícola.


Ao adotar uma postura defensiva, atacando o protecionismo agrícola mas defendendo a posição brasileira de produzir álcool de cana-de-açúcar, o presidente Lula perdeu uma oportunidade de levar uma de suas grandes bandeiras, a luta contra a fome, para o cenário internacional.


Lula deveria ter oferecido a experiência brasileira em programas sociais e assistência técnica em agricultura. A agricultura brasileira hoje é das mais competitivas do mundo, certamente a mais desenvolvida em clima tropical.


A fome mata seis milhões de crianças por ano no mundo, mais do que a aids, mais do que a malária e outras doenças infecto-contagiosas, mais do que armas de destruição em massa.


Na Etiópia, cerca de 4,5 milhões de pessoas estão ameaçadas pela fome por causa da seca e de uma quebra nas safras agrícolas do país, além da inflação mundial nos preços dos alimentos, e precisam ajuda alimentar de emergência, advertem organizações internacionais. Mais de 126 mil crianças têm sérios problemas de desnutrição.


É a pior crise na Etiópia desde 1984 a 1986, quando um milhão de pessoas morreram de fome em meio a uma guerra civil. As imagens de crianças e adultos em pele e osso provocaram uma comoção mundial. Com 78 milhões de habitantes, o país tem a segunda maior população da África.


Um centro de nutrição infantil da organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras na cidade de Chachemene, no Oeste do Etiópia, está cheia de mães segurando filhos que não se sustentam em pé, com lábios rachados e olhar parado.


Mitchu, uma menina de três anos, pesa cinco quilos, pouco mais do que um bebê saudável. Há duas semanas, é alimentada a cada três horas há duas semanas. Mas não reage. Os médicos acham que ela vai morrer de fome e malária.
O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas precisa de mais 180 mil toneladas de comida para atender às necessidades somente da Etiópia em 2008. Está pedindo mais US$ 150 milhões aos países ricos só para este país.


Mas há crise aguda em vários outros países da África, na Somália, um país sem governo; na província de Darfur, no Oeste do Sudão; no Zimbábue, onde o governo proibiu a ajuda internacional; na África do Sul, onde gangues miseráveis perseguiram, massacraram e expulsaram imigrantes africanos pobres; no Haiti, onde caiu o primeiro-ministro; no Togo, no Senegal, na Costa do Marfim.


A questão central é a falta de dinheiro para comprar comida a preços inflacionados por causa do aumento da demanda causado pelo desenvolvimento da Ásia, os preços do petróleo, os biocombustíveis, a mudança do clima e a especulação no mercado internacional de produtos primários.


Acima de tudo, era uma oportunidade para colocar a questão da fome entre as prioridades da sociedade internacional.

Nelson Franco Jobim é Professor de Jornalismo e de Relações Internacionais. Foi editor internacional do Jornal da Globo, correspondente do Jornal do Brasil em Londres e editor em inglês do Serviço de Notícias do Pan-Rio 2007. É autor do livro Bush2: A Missão

http://www.guiasaojose.com.br/novo/coluna/index_novo.asp?id=1065


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