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Comunicação Ambiental e poder

12.03.2017
 
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Os problemas ambientais atingem a todos, independente de classe social, mas é óbvio que os pobres, que não tem como se defender, acabam sendo mais atingidos e são obrigados a migrar para não perecerem. Isso não significa que ser rico servirá de salvo conduto para livrar uma pequena parcela de nossa espécie dos problemas ambientais. Pode resolver aqui e ali, localmente, mas se continuar a escalada irresponsável de uso ilimitado de recursos e de destruição de ecossistemas, nem os ricos terão para onde fugir, por que não existe um segundo planeta terra de recursos.

Por Vilmar Berna*

As economias capitalista e comunista, para ficar só nessas duas, não diferem na forma como extraem e transformam os recursos naturais. Ambas agem de maneira irresponsável ao tratar o Planeta como uma espécie de armazém de recursos naturais infinitos por um lado e uma lixeira de capacidade infinita para absorver nossos restos e poluição, por outro.

O Mar de Aral, que virou deserto na China Comunista, ou os frequentes acidentes ambientais no mundo capitalista revelam bem o quanto a questão ambiental e desrespeitada por ambos.

A corrida aos recursos naturais se intensificou ainda mais nas últimas duas centenas de anos com a invenção das máquinas, que mudou a escala da extração de recursos de artesanal para industrial, e com a elevação do consumismo como um valor a ser perseguido como sinônimo de sucesso e felicidade.

Em consequência, a pegada ecológica agigantou-se e nada indica que irá diminuir com o atual crescimento demográfico, o consumo de recursos limitados, a emissão de gases carbônicos, a extinção em massa das espécies.

O aumento dessa pegada ecológica não se converteu em melhor qualidade de vida no mundo e menos ainda no atendimento das necessidades dos mais pobres, mas serviu para aumentar ainda mais a concentração de riquezas ou nas mãos dos mais ricos, no caso dos regimes capitalistas, ou nas mãos do Estado, no caso dos regimes comunistas. Então, fica óbvio que não será aumentando o tamanho da pegada ecológica que se atenderá à necessidade dos mais pobres, mas distribuindo melhor as riquezas e combatendo a concentração de renda e de poder.

Seja no capitalismo ou no comunismo uma coisa é certa, os donos do poder político e econômico não gostam de perder poder.

E é aqui que entra a importância da comunicação a serviço da solução dos problemas ambientais e não a serviço de agravar estes problemas.

Se no passado os donos do poder político e econômico, seja no capitalismo ou no comunismo, usavam correntes, chicotes, tiros de canhão e masmorras para impor suas verdades, hoje, usam a comunicação meio verdadeira ou francamente mentirosa, ou manipulada com o mesmo propósito: nos manter escravos de uma lógica que beneficia a poucos e está nos levando a um ponto ambiental planetário de não retorno que ameaça a todos.

Como manobra para desviar o foco de nossa atenção, a comunicação manipulada e manipuladora tergiversa, lança suspeitas, confunde a opinião pública sugerindo que a crise ambiental não é tão grave assim, que os ambientalistas são apocalípticos, que o agravamento das mudanças climáticas é uma mentira, que o planeta tem recursos de sobra para todos, que o ideal é o consumismo como meta de felicidade.

Manipula com nossa culpa, como se cada um de nós, individualmente fosse responsável pelo atual colapso ambiental. Um truque sujo para desviar nossa atenção, colocando a todos num mesmo saco, explorados e exploradores, como se o poder de decisão fosse igual para todos nós, como se a solução para os nossos problemas ambientais fosse apenas uma questão de mudar o estilo de vida, pegar mais leve com o planeta, praticar a reciclagem, andar de bicicleta, usar energias alternativas, etc. Sim, claro, tudo isso ajudaria, mas sem modificar as atuais estruturas de concentração de riquezas e de poder nas mãos de poucos, a crise planetária prosseguirá, por que prosseguirá a apropriação desigual dos recursos, não para o atendimento das necessidades de todos, mas para a concentração de rendas, riquezas e poder nas mãos de poucos que nos dominam, corrompem e manipulam.

Como o amor, a fraternidade, a solidariedade não se dão por decreto, a humanidade terá ainda uma dura jornada pela frente para aprender a dominar a si própria antes de pretender dominar a natureza, pois o que conseguimos até aqui foi mais destruir e arrasar que colaborar para tornar este mundo melhor.

*escritor e jornalista, fundou a rebia - rede brasileira de informação ambiental (rebia.org.br), e edita deste janeiro de 1996 a revista do meio ambiente (que substituiu o Jornal do meio ambiente), e o Portal do meio ambiente (portaldomeioambiente.org.br). em 1999, recebeu no Japão o Prêmio global 500 da OBNU para o meio ambiente e, em 2003, o Prêmio verde das américas.

 


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